De onde viemos, para onde vamos: O que separa Warlock, de Jim Starlin, dos filmes da Marvel

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Warlock: The Complete Collection
Jim Starlin
[Marvel, 2014]
 
A Marvel atual começou uma empresa pequena e recém-falida, e que tinha por objetivo apenas arrancar alguns centavos de crianças e adultos envergonhados. Stan Lee era um editor desesperado que, de uma salinha que dividia apenas com uma secretaria, reuniu mais algumas pessoas desesperadas para trabalhar naquilo que ocupava na escala de moralidade das pessoas comuns uma posição intermediária entre esquemas piramidais e pornografia. O seu conselho para os seus funcionários era “peguem o dinheiro e corram”.
 
Não é de se estranhar que ele fosse cínico. Lee era um escritor frustrado, careca e quarentão, que trabalhava no mesmo lugar desde os 19 anos de idade, quando conseguiu o emprego por ser parente de alguém que conhecia o dono da empresa. Durante todo esse tempo, a empresa fora periférica e oportunista, atuando em um ecossistema econômico formado quase que exclusivamente por parasitas de intenções suspeitas: a líder do mercado recém se livrara de suas conexões com a máfia e a pornografia barata.
 
Ao perceber que tudo estava na iminência de dar errado, de novo, ele resolvera apostar tudo em uma convicção pessoal. Não havia nada a perder: não iria dar certo de qualquer jeito mesmo. Ele reuniu alguns quadrinistas desesperados e lançou alguns heróis novos.
 
Cinquenta anos depois, heróis criados por essas pessoas, nessas condições, foram levados para o cinema. Lá, viraram filmes calculados para o sucesso global: planejados ao longo de uma década, arrecadam mais ou menos a mesma coisa que o fisco de um pequeno país.
 
Não me entendam mal: poucos são os filmes do Marvel Studios que eu não gostei, e só não fico mais feliz pelo sucesso que eles fazem nas bilheterias porque não sou um acionista do estúdio. O meu ponto é que, do desespero ao planejamento, do vai que cola ao profissionalismo, do nicho ao público global, alguma coisa nas histórias deve ter mudado. O que ficou para trás? Em Vingadores: Guerra Infinita, Thanos usa seus poderes para jogar uma lua nos heróis: o que um gibi daqueles poderia fazer que um filme da Marvel não pode?
Existem dois motivos pelos quais Warlock: The Complete Collection, de Jim Starlin, é o gibi perfeito para responder a essas perguntas. Primeiro, porque é a hq definitiva da Marvel Cósmica, o agrupamento temático no qual surgiram elementos que estão no centro dos primeiros dez anos de filmes do MCU. Starlin, inclusive, ganha um “special thanks” nos créditos de Guerra Infinita. É, portanto, um nexo concreto entre os dois mundos.
 
Segundo, porque a produção dos gibis reunidos no encadernado é um exemplo concreto daquele caos. Não é apenas a personalidade, digamos assim, confrontativa e independente de Starlin: é que eles foram publicados entre 1975 e 1977, dois dos anos mais caóticos da história da Marvel.
 
Não é um exagero. Na década de 70, as coisas já não iam muito bem no nível macro: as vendas estavam em queda livre, e o senso comum entre os quadrinistas e editores é que a indústria dos quadrinhos não chegaria viva à década de oitenta.
 
No nível micro, as coisas estavam ainda pior: em 1972, Lee, cansado, sozinho e desiludido, largou o cargo de editor-in-chief. Foi substituído por Roy Thomas, que promoveu uma renovação geracional: a idade média dos roteiristas foi para 23 anos; a editora passou a ser formada por quadrinistas que cresceram lendo gibis e que tinham ideias próprias sobre o potencial do meio.
 
Entre eles estava Starlin. Já no seu primeiro trabalho, um fill in para a série do Homem de Ferro, incluiu meio a fórceps dois personagens que criara anos, enquanto cursava psicologia em um community college: Thanos e Drax, o Destruidor. Veterano do Vietnã [onde trabalhou no serviço de inteligência analisando fotos de reconhecimento das linhas inimigas] e ex-mecânico em Detroit, Starlin devia parecer um coadjuvante nerd de Easy Rider: andava de moto, usava drogas lisérgicas e, quando foi convidado para assumir a série regular do Quarteto Fantástico [que, na Marvel dos anos 70, era o equivalente a dirigir a franquia principal dos Vingadores no cinema] preferiu ir para a Califórnia publicar as suas histórias na hq alternativa de ficção científica Star*Reach.
 
Warlock foi sua oportunidade de trabalhar com ficção científica cósmica na Marvel. O personagem estava, até então, nas mãos de Thomas, que levara ele de de vilão do Quarteto a Jesus Christ Superstar espacial. Starlin apresentou a sua proposta para a série em uma manhã: de tarde, já estava desenhando a sua primeira edição. A Marvel estava disposta a publicar qualquer coisa.
 
ENQUANTO ISSO, NO MARVEL STUDIOS, PRECISAM
DE TRÊS ANOS DE PLANEJAMENTO PRA COMPRAR
UMA CALÇA SOCIAL PARA KEVIN FEIGE

O problema é que trabalhar com um monte de jovens idealistas de pouca experiência profissional não é lá muito fácil. Thomas, ainda mais cansado do que Lee [a linha de gibis da Marvel foi de 12 para 45 séries mensais no início dos anos 70] e igualmente desiludido e sozinho, explodiu e largou o cargo de EIC um mês depois de convidar Starlin para escrever e desenhar Warlock. A gota que virou o copo de sua paciência diz muito sobre o que era o mundo dos quadrinhos: ele descobriu que Lee e Carmine Infantino [o editor da DC] planejavam trocar informações sobre o pagamento dos quadrinistas freelancers, evitando que esses sobrevalorizassem os valores pagos por uma das editoras na hora de vender o seu trabalho para a outra.

 
Com a saída de Thomas é que a coisa ficou crítica. Ele foi substituído por Len Wein. A troca gerou um problema novo [Gerry Conway, um dos principais roteiristas da editora, se sentiu preterido e trocou a Marvel pela DC] e não solucionou o problema antigo: Wein editava quase 50 séries por mês, escritas por jovens inexperientes, e não era levado a sério pela chefia.
 
Ficou menos de um ano no cargo: conhecido como uma pessoa calma e amigável, foi afastado depois de voar no pescoço de Al Landau, que chegara ao cargo de publisher da Marvel depois de puxar o tapete de Chip Goodman [filho de Martin Goodman, criador da editora] quando essa foi vendida para a Cadence Corp. Landau tinha decidido, sem consultar ou avisar previamente Wein, que Ross Andru seria o desenhista de Superman vs The Amazing Spider-Man e, por isso, ficaria dois meses afastado da série regular do Aranha. Wein, que não apenas era o editor-in-chief, mas também era o roteirista de The Amazing Spider-Man, ouviu um “this is none of your fucking business” ao pedir satisfações. O homicídio não se consumou pela intervenção de Marv Wolfman. Dois anos depois, Wein se tornaria editor na DC, onde convidou Alan Moore para escrever a série do Monstro do Pântano.
O QUE SE REVELOU UM ACERTO E TAL.
O próprio Wolfman foi seu substituto. Ele também não aguentou muito: era melhor ser escritor de uma série regular do que segurar o rojão da editoria. Para substituir Wolfman, a solução encontrada foi buscar de volta Conway. A esperança era que os problemas que fizeram com que ele fosse preterido na primeira vez tivessem sido superados, agora que ele era um senhor maduro de… 23 anos de idade. Não ficou um mês no cargo. Foi tempo suficiente para demitir os principais quadrinistas da editora.

 

O seu substituto [o quarto editor-in-chief em três anos] foi Archie Goodwin, que fez o possível para passar despercebido até a chegada de Jim Shooter [em 1978], quando as coisas finalmente estabilizaram. Para comparar: Kevin Feige é produtor do Marvel Studios desde 2000. Desde 2007, é o presidente do estúdio.
 
Tudo isso se refletiu em Warlock. Primeiro, na dança de cabeçalhos: Starlin e o personagem passaram por quatro séries diferentes [Strange Tales #178-181, Warlock #9-15, Avengers Annual #7 e Marvel Two-in-one Annual #2], sendo que nas duas últimas ele foi encaixado de qualquer jeito por Goodwin, apenas para ter como terminar a sua história. Starlin tinha sido um dos quadrinistas alienados por Conway no seu reino de um mês, o que inclusive fez com que Warlock #16 fosse perdido.
 
Segundo, no conteúdo do gibi. Já em Strange Tales #181, Starlin, irritado com os rumos da editora, decidiu testar os limites: chamou os seus chefes de palhaços e a empresa que lhe empregava de fábrica de lixo.
LITERALMENTE.

Na história [titulada 1000 Clowns!], Warlock é transportado para The Land of the Way It Is [a “Terra das Coisas São Assim Mesmo”] para ser “indoutrinado”. O objetivo é integrá-lo na “maior força de trabalho da galáxia”: palhaços dedicados a produzir uma gigantesca pilha de lixo que, sisificamente, desaba de forma periódica, levando alguns trabalhadores pela frente. O chefe-palhaço acredita que isso aconteça porque alguns diamantes se misturam com o lixo. Warlock, é claro, não se conforma: atravessa a Porta da Loucura, única saída disponível, para entrar no Reino da Esquizofrenia e da Paranoia.

 
Não parece muito sutil? O gibi é mais explícito do que esse resumo: o palhaço chefe é apresentado com um “the name’s Lentean”, um anagrama para Stan Lee. O primeiro passo da indoutrinação consiste em ser maquiado como um palhaço por Jan Hatroomi, anagrama para John Romita [diretor de arte da Marvel nos anos 70]. A operação é controlada dos bastidores por dois operários suspeitosamente parecidos com Wein e Wolfman [um deles, inclusive, se chama “Lens”]. Warlock topa com um palhaço crucificado por “pensar que pessoas eram mais importantes que coisas”. Ele tem as feições de Thomas. Para passar um pouco de sal na ferida, a história é dedicada a Steve Ditko — o primeiro dissidente da Marvel.

 

A crítica de Starlin pode ser injusta [no final das contas, o gibi foi publicado pela própria editora que o quadrinista estava acusava de só empilhar lixo; o próprio Wein é o editor creditado], mas a história ilustra uma diferença entre o que se podia fazer na Marvel e o que se pode fazer no Marvel Studios: algo assim nunca seria possível no MCU. Foi certamente por muito menos que Edgar Wright sobrou de Homem-Formiga.
 
Isso, no entanto, não deixa de ser anedótico: 1000 Clowns! é apenas uma das histórias de Warlock que Starlin escreveu e desenhou. Nas outras, ele fez mais do que atacar os seus chefes.
 
Parte do seu esforço foi mal interpretado pela crítica. O grosso das histórias formam o arco conhecido como Magus Saga. Nele, Warlock se depara com uma seita interplanetária, a Igreja da Verdade Universal. O “deus” dessa seita é Magus – que, conforme Warlock logo descobre, é o seu eu futuro, que viajou para o passado. A solução que o herói encontra é ele mesmo viajar para o futuro, se encontrar antes de sua transformação em Magus, e se matar.
YAY, AVENTURAS!
Não foi difícil para a crítica interpretar o arco como um ataque niilista de Starlin ao catolicismo: ao resumir as versões anteriores do herói na primeira edição, Starlin escolheu aquelas passagens que mostram o paralelo entre Warlock e Jesus Cristo; apesar dos ecos evangélicos que o nome Igreja da Verdade Universal tem no Brasil, em um país formado por protestantes como os EUA a referência é à Igreja Católica; e o próprio Starlin já definiu a saga como uma tentativa de lidar com o catolicismo de sua infância. Diabos: no final, o suicídio é a resposta.
 
Ao contrário de Strange Tales #181, no entanto, a Magus Saga tem as suas nuances. Em Warlock #9, descobrimos que o herói se transformou em Magus depois de viajar cinco mil anos para o passado. No curso dessa viagem, ele enlouqueceu e concluiu que “certo e errado não são mais do que mentiras criadas pelo homem para controlar o homem” e que “não existe divisão entre certo e errado, mas entre propósito e morte”. É diante dessas conclusões que ele decide criar a própria seita e dominar o universo. Ele é, portanto, menos Deus e mais super-homem nietzscheano: ele “superou” a moralidade tradicional para forjar a sua própria, tornando-se líder de uma seita genocida no processo [quem nos limpará desse sangue, etc].

O seu oposto é Thanos. Ele entra na história em uma situação do tipo de o inimigo do meu inimigo é meu amigo: Thanos também quer derrotar Magus e, por isso, se alia a Warlock. O próprio Thanos define Magus como o seu adversário: enquanto que o segundo é “uma criatura de caos e ordem… propósito… vida!”, ele é “um sonhador da calma… da ausência de propósito… da morte!”.

Eles são, na verdade, dois lados de uma mesma moeda: a moeda que acredita que não existe certo e errado. Magus vê nisso a chance de forjar uma nova moralidade, com ele no centro. Thanos vê nisso o triunfo do despropósito e da morte. Não por acaso, páginas antes ele se definira como um relativista: “a própria verdade é um conceito subjetivo que pode ser aceitado ou rejeitado conforme os preconceitos do público. Portanto, Magus, eu rejeito a sua verdade!”.

Warlock é a corda desse cabo de guerra. Não é de se estranhar, portanto, que a principal característica da sua personalidade seja a angústia. Não se trata, para voltar à comparação com os filmes da Marvel, de uma angústia melancólica, fruto de um complexo de culpa com laser beams, como é o caso do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. É uma angústia de dentes rangendo, de quem está enfrentando uma crise interior por ter percebido que a sua existência é finita e não faz sentido. É uma angústia que parece uma crise de self kierkegaardiana.

 
Isso se torna ainda mais claro no momento em que Warlock se mata. Ele faz isso através de um ataque da joia da alma, que absorve os seus inimigos como a espada stormbringer dos livros de Michael Moorcock, e que ele leva em sua testa. Ao “absorver-se”, no entanto, Warlock encontra uma vida interior não material que parece uma tradução esverdeada da vida transcendental que Kierkegaard descreve como a saída para o desespero existencial.
 
A Magus Saga, portanto, é a história de um herói que sofre de uma angústia kierkegaardiana por descobrir que se tornará um übermensch nietzscheano, e que o suicídio é, aparentemente, a única forma para escapar desse destino — somente para descobrir que a solução para os seus problemas está na vida espiritual. Visto assim, é quase que o contrário de uma crítica ao catolicismo: a seita de Magus é negação do bem e do mal e afirmação da vontade; a consequência é tirania, a solução é a transcendência espiritual. Também é bem mais do que o filme do Dr. Estranho se atreveu a fazer.

 

Dito assim, parece pretensioso. Mas Starlin não contou a sua história assim. A pretensão do conteúdo de Warlock se contrapõe à sua forma: é tão gibi que chega a parecer que Starlin está exagerando o uso dos recursos de linguagem típicos das hqs de super-heróis com propósitos irônicos.
 
DISCURSO FILOSÓFICO RELATIVISTA! KATOOOSH!

 

 

Um bom exemplo disso é a história de Warlock #13-14. Conforme o próprio Starlin, essa é a sua versão de Johnny Vai à Guerra, o livro/filme pacifista de Dalton Trumbo. Johnny Vai à Guerra, se você não sabe, é a história de um soldado da Primeira Guerra Mundial que perde os braços, as pernas, o rosto — ele apenas sente e tenta se comunicar [:~~~]. Já no gibi, um homem que está em estado vegetativo em um hospital, aparentemente sem conseguir se comunicar, descobre uma forma de projetar a sua mente e decide se vingar da humanidade… roubando as estrelas. Ele também projeta uns monstros nos quais Warlock desce porrada. Voilá: o manifesto pacifista virou Warlock lutando contra um tubarão no espaço:

 
Existe um método nisso. No geral, a história tem um aspecto esdrúxulo. O design dos personagens se encaixa em duas categorias: aqueles que seriam rejeitados pelos caras que faziam os bonecos do He-Man, se eles rejeitassem alguma coisa; os que não fazem o menor sentido.
CATEGORIA 1
CATEGORIA 2

Dois: Starlin busca inspiração em dois Founding Fathers da Marvel: Steve Ditko e Jack Kirby. Não por acaso a dupla protagonista do Marvel Two-in-one que encerrou a história de Warlock é formada pelo Homem-Aranha e o Coisa.

 
Como Ditko, Starlin quer expressar as suas ideias da forma mais rápida e explícita possível: o roteiro é apenas a forma pelas quais essas coisas se juntam. Isso envolve uma certa despreocupação com o roteiro: existem muitos atalhos narrativos e monólogos descritivos. Você já deve ter percebido uma quantidade anormal de texto nas imagens dessa resenha. Outro resultado disso é uma certa teatralidade: os personagens representam ideias [o que é bem claro nos casos de Magus e Thanos, como eu falei lá em cima]. Representam mesmo: existe um certo exagero nas expressões faciais e corporais, que sinalizam as emoções dos personagens como no teatro.
 
Além disso, Starlin, assim como Ditko, é bastante literal. Os trechos em que Magus fala sobre como ele superou a moral tradicional parecem copiados diretamente de algum livro texto sobre Nietzsche: ele, assim como Ditko quando batizou Hawk and Dove, ou The Mocker, ou The Creeper, queria transmitir uma informação de forma quase objetiva.
 
Isso acaba ficando mais engraçado pelo estilo confrontativo de Starlin. 1000 Clowns! é um exemplo. Outro, e o personagem no estilo Guardião da Cripta que apresenta Warlock para os leitores na primeira edição: Starlin foi obrigado a incluir o resumo, então ele foi lá e batizou o personagem de “Sphinxor”, nome suspeitosamente parecido com “sphincter”, “from the star system Pegaus”. Ou seja, esfíncter de Pegasus. Ou seja, cu de cavalo.
HIYA KIDS!

Kirby ganhou algumas referências diretas. Pip, o troll, o coadjuvante que serve de cabeça para os monólogos de Warlock, teve o seu visual evidentemente inspirado em Kirby. Além disso, nos anos 70 Kirby já devia ser sinônimo de histórias cósmicas protagonizadas por personagens como Thanos — por muitos considerado uma cópia barata de Darkseid. Mas também existe uma influência estética. Como Kirby, Starlin desenha máquinas inventivas e personagens parrudos pulando para fora da página.

 
Para fazer com que os seus personagens sejam parrudos, os dois usam distorções anatômicas: a diferença é que, enquanto Kirby simplifica a anatomia em seus desenhos, Starlin prefere complicá-la. É uma dessas coisas que faz com que o seu desenho pareça um metacomentário irônico ao dos outros gibis de super-heróis:
 
METADE DOS MÚSCULOS ESTÃO MAL DESENHADOS.
A OUTRA METADE NÃO EXISTE.

Para fazer com que eles pulem para fora da página, Starlin usa os mesmos truques de perspectiva que foram popularizados por Kirby, como mãos desproporcionais em primeiríssimo plano, ou a sobreposição dos elementos desenhados sobre a borda dos quadrinhos:

 
Para esgotar as referências aos outros quadrinistas, não custa lembrar que Gamora [que funciona como uma femme fatale sidekick de Thanos] tem o seu visual copiado de uma história da revista Eerie #38, do quadrinista espanhol Esteban Maroto:
Além de incluir tubarões espaciais em sua versão para uma história de Trumbo, e espadas de Moorcock em sua história sobre Kierkegaard, personagens exdrúxulos, Ditko e de Kirby, chama a atenção a colorização. É perceptível a diferença entre as edições coloridas por Starlin [Strange Tales #178, 180 e 181, Warlock #9-10] e as demais [especialmente Strange Tales #179, colorida por Glynis Wein, que depois faria Born Again]: a cada página ele parece querer usar toda a limitada paleta de cores que as técnicas de impressão disponibilizaram nos anos 70. Os personagens principais da Magus Saga [Warlock, Magus, Thanos e Gamora], por exemplo, formam um círculo cromático completo:
 
 
Não é apenas que todas as cores são usadas: é que elas aparecem de forma viva e irreal, no sentido de que não são usadas de forma realista [seja o que isso quiser dizer em um gibi sobre um messias cósmico suicida], mas de forma narrativa [sombras verdes, fundos vermelhos, etc]. O objetivo pode ser tanto reproduzir os efeitos que o consumo de LSD tem sobre a percepção das cores, quanto promover um assalto aos sentidos — possivelmente as duas coisas.
 
Os filmes da Marvel, é claro, também são um assalto aos sentidos. Assisti-los é quase um passeio de montanha russa de duas horas: é uma mistura de batalhas embasbacantes com drama, humor, referências e sementes para spin-offs. A paleta de cores dos filmes até pode ser sóbria, mas porque todo o resto é de um espetáculo esmagador.
 
Starlin estava lá tentando produzir a mesma sensação todos os meses, na velocidade de vinte páginas por história, que ele não sabia direito onde seriam publicados e supervisionado por pessoas que, na melhor das hipóteses, estavam sobrecarregadas de trabalho e cansadas de lidar com pessoas que nem ele. Sem poder ter acesso a audiências teste, orçamentos milionários, CGI e estrelas de cinema ou editores que prestassem atenção, ele teve que se virar com Moorcock, Ditko, Nietzsche, Kirby, Kierkegaard, Maroto, ciano, magenta e amarelo. [RESENHAS[QUADRINHOS]
 
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