Peter Pan de Régis Loisel x Disney x J. M. Barrie: As muitas formas do garoto que não queria crescer

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Peter Pan, volumes 1-3
Régis Loisel
[Editora Nemo, 2013]
J. M. Barrie foi a primeira pessoa a se dar conta de que acertou em alguma coisa ao criar Peter Pan: ele dedicou ao personagem, que poliu continuamente, pelo menos uns dez anos de sua vida, até mais ou menos decidir-se por uma versão ultimate no livro Peter and Wendy.
Ainda na primeira metade do século passado, ele deixaria de estar só. Peter and Wendy foi uma versão estendida e romanceada de uma peça de teatro que estreara em 1904 (Peter Pan, or The Boy Who Wouldn’t Grow Up) e cujo sucesso já levara à publicação de outro livro (Peter Pan in Kensington Gardens) com uma versão mais primitiva do personagem. Tirando uma pá de livros mais decididamente infantis (incluindo o relato ilustrado The Peter Pan Picture Book, de Alice Woodward e Daniel O’Connor, de 1907), mais recentemente o personagem protagonizou uma série de livros, escrita por Dave Berry e Ridley Pearson, fora outro que se propõe a ser uma “continuação autorizada” (Peter Pan in Scarlet, de Geraldine McCaughrean).

O primeiro filme foi lançado em 1924 (produzido pela Paramount), e foi seguido pelo desenho animado da Disney (de 1953, o último filme no qual os Nove Anciãos trabalharam em conjunto). Esse desenho ganhou uma continuação em 2002 (Retorno à Terra do Nunca). Só nos últimos 15 anos, o personagem protagonizou dois outros filmes (Peter Pan, de 2003, e Pan, de 2015). Tem ainda pelo menos dois musicais da Broadway, de 1950 e 1954.

Tudo isso não é só pra te permitir fazer uma balaca no TCC de um curso de comunicação, dizendo que Peter Pan era um personagem transmídia na primeira metade do século passado, mas para mostrar que ele já teve diversas versões, ao longo de 100 anos, em diferentes meios.

É justo concluir que isso aconteceu porque o personagem tem um certo potencial universal e alguma ressonância arquetípica. Existe inclusive, uma considerável bibliografia sobre o assunto, principalmente entre junguianos — o tipo de pessoa que se preocupa com coisas de potencial universal e ressonância arquetípica, e que acabou por fazer de Síndrome de Peter Pan virou um termo da psicologia pop.
Entre todas essas versões, a de Régis Loisel está entre as melhor sucedidas — pelo menos comercialmente, como mostram os frios números: originalmente publicada na França em seis álbuns entre 1992 e 2006 (e lançados pela Nemo no Brasil em três álbuns de capa dura, ao longo de 2013), alcançou alguns milhões de álbuns vendidos e levou o Grand Prix de Angoulême em 2006.
Seria fácil atribuir esse sucesso ao apelo mainstream, ao menos em termos franceses, da hq: o formato original (álbum colorido de 48 páginas), sem piruetas no uso da linguagem, os elementos próximos da fantasia heroica, a nudez, o prêmio em Angoulême; é assim que se faz uma BD campeã de vendas.

No entanto, essa explicação seria um pouco cínica: ela ignora o papel que a hq tem dentro dessa tradição de reinterpretações de seus personagens e os seus méritos próprios. O que não deixa de ser engraçado, porque a principal característica da versão de Loisel para o personagem é exatamente o cinismo.


PETER PAN DE LOISEL : O ANTI-DISNEY

Conforme o próprio Loisel, o seu Peter Pan é mais uma resposta ao desenho animado da Disney do que à peça de teatro ou ao livro de Barrie. Isso é uma chave interpretativa importante para ler o gibi: é perceptível que uma de suas preocupações era ser o anti-Disney.

É possível ver que existe uma relação entre a BD e o desenho animado quando você compara algum de seus elementos entre si e com o livro de Barrie: a hq parece a versão Planeta Bizarro do desenho animado, substituindo a sua inocência por delírios homicidas — enquanto que o livro de Barrie não é inocente como o desenho da Disney, mas também não tem uma tentativa de estupro do seu protagonista infantil nas páginas iniciais.

Uma boa forma de ilustrar essa graduação é comparando as Londres do livro, da hq e do desenho. A do livro de Barrie reflete a Era Eduardiana em que o personagem foi concebido, mas também de forma crítica: o livro também é um comentário sobre a idealização da infância, com diversas piadas sobre os Darlings, uma família de classe média (especialmente às custas de Mr. Darling, o pai de Wendy).

A da hq também reflete um período histórico: é um eterno inverno working class vitoriano (entre isso e o protagonismo infantil, metade dos resenhistas da hq se sentiram autorizados a citar Charles Dickens em suas resenhas).

Essa coincidência, no entanto, é acidental: o que Loisel faz é buscar a versão histórica da cidade que estivesse culturalmente disponível na qual seria mais realista tratá-la como um antro de sordidez, especialmente em relação às crianças. Não para usá-lo em uma comédia de costumes, como Barrie fez, mas como um contraponto à Londres perfeitamente atemporal e insossa da Disney, aparentemente saída de um globo de neve.

Na Disney…
…e na BD.

Outra forma é comparando o crocodilo Tic-Tac nas três versões (no caso do livro, conforme a ilustração de Woodward para The Peter Pan Picture Book, já que nem Arthur Rackham, ilustrador de Peter Pan in Kensington Gardens, nem F. D. Bedford, de Peter and Wendy, se prestaram a desenhá-lo):

Nem o crocodilo da Disney, nem o de Loisel, tem esse jeito esguio e ofídico do crocodilo de Woodward: os dois parecem mais com um dinossauro. Mas aquilo que no crocodilo da Disney é antropomórfico e inofensivo, no desenho de Loise é inumano e psicótico: é o mesmo crocodilo, desenhado como uma máquina de matar e não como um bichinho de pelúcia.

Existe outro elemento do desenho animado que ganhou uma versão macabra na hq de Loisel: a ideia de que a sua história se repete.

Não se trata de uma ideia ausente no livro: em Peter and Wendy, é insinuado que Peter Pan periodicamente visita crianças, levando algumas à Terra do Nunca. O desenho, no entanto, insinua que essa repetição é mais específica: logo nos seus primeiros minutos, o narrador em off explica que aquela é uma história que “já aconteceu, e que voltará a acontecer” — enquanto que no livro Wendy é única, e Peter Pan segue voltando, anos depois da aventura original, para buscar a mesma Wendy para voltar à Terra do Nunca.

A hq, no entanto, introduz dois personagens novos nos seus álbuns finais: Rose e Picou. A primeira é evidentemente uma proto-Wendy: quer “se casar” com Peter Pan, assume o papel de mãe carinhosa dos Garotos Perdidos, é alvo do ciúme homicida da Sininho. A diferença é que o ciúme homicida é bem sucedido: Sininho consegue armar a sua morte, fazendo que ela seja devorada pelo crocodilo gigante que atormenta o Capitão Gancho, em um crime que é conhecido mas prontamente esquecido por todos.

É um twist macabro aplicado ao comentário em off do início do desenho animado: o que parecia a abertura de um conto de fadas se tornou, depois da hq, uma lembrança de que existiram e existirão outras Wendys — todas foram esquecidas por Peter Pan; algumas delas, foram esquecidas e devoradas por crocodilos.

Mas ele fez mais do que fazer de Londres um barral, dar dentes ao crocodilo e detonar as vibrações positivas do início do desenho animado: Loisel também mudou a estrutura da história.

É possível destilar Peter Pan até um tema básico: o medo de crescer. Peter, como todo mundo sabe, é uma eterna criança: é o rei da terra da imaginação, onde enfrenta um adulto que tem medo de ser devorado pelo tempo — representado por um crocodilo gigante que faz tic-tac.
O desenho da Disney abordou isso como uma comédia: Wendy briga com o seu pai, que quer obrigá-la a deixar de dormir no quarto das crianças (é a norma social antiga e injusta que oprime o jovem). Ela é levada para a Terra do Nunca (sociedade jovem, onde a convenção não se aplica), lugar em que vive aventuras e aprende uma lição. De volta ao mundo real, o seu pai está convencido de que foi excessivamente rígido. Ela, no entanto, decide sair do quarto de crianças por vontade própria (nova sociedade feliz).

Os aspectos cômicos do livro original [como a afetação do Capitão Gancho] são inclusive exagerados.

Já a BD de Loisel é uma sátira. Segue mais ou menos a estrutura da jornada do herói (Peter é convocado para salvar a Terra do Nunca de um tirano), só que nada é o que parece: o herói é um psicopata (Loisel liga o personagem a Jack, o Estripador), cujo mentor é um covarde (o sr. Kundal, adulto do mundo real que educa Peter, usa a imaginação como esconderijo), que leva à perdição um reino encantado que já era povoado por demoniozinhos para começo de conversa.
Nau dos insensatos, versão literatura infantil

A relação entre o desenho e o desenhado também é satírica. Existe uma tensão: ainda que o desenho seja cartunesco de um jeito cute-cute, ele é usado para retratar nudez, violência, perversão e covardia.

Óun, que coisa fofa esse Pan agônico

De novo, essa diferença na estrutura da história faz sentido como um comentário ao desenho animado, e não ao livro: é a sua inocência e infantilidade que Loisel pretende satirizar transformando o personagem em um psicopata.

ALÉM DA DISNEY: O PETER PAN DE LOISEL E O PETER PAN DE J. M. BARRIE

Descrever a hq de Loisel apenas como uma versão satírica do Peter Pan da Disney, no entanto, não é suficiente. Ele não se limitou a a cutucar o desenho animado ou a retconear a origem do personagem (Peter and Wendy apresenta uma versão para o passado de Peter que, surpreendente, não inclui insinuar que ele é o Jack, o Estripador). Loisel também propôs outro tema: a sua história não é exatamente sobre a juventude e o amadurecimento, mas sobres a importância da memória e da coragem nesse processo — a imaginação entra como uma forma especialmente covarde de se esconder dos problemas da vida.
No início da hq, Peter é uma criança pobre que vive no meio de um monte de gente alcoólatra e violenta, a começar pela sua própria mãe (aparentemente uma prostituta). Isso faz com que ele odeie a perspectiva de se tornar um adulto. O sr. Kundal, seu Yoda, aconselha ele a proteger a sua imaginação do “grande guloso” (o tempo) para se manter uma eterna criança.
Isso, no entanto, se revela um péssimo conselho. A imaginação de Peter é separada de sua consciência e de seu agir: depois de contar para os seus amigos órfãos os mimos que a sua mãe lhe dedicaria, usando um filhote de gato de exemplo. Isso não apenas é mentira (páginas depois, a mãe de Peter manda ele comprar uma garrafa pagando “com a bunda”), como conclui com ele descartando o gato com um pontapé quando ninguém está olhando.
Logo depois de entrar na Terra do Nunca, Peter tem um encontro catártico com o fantasma de sua mãe em Opikanoba, a parte sombria da ilha. É um encontro que faria o detetive Holden Ford encher o saco de Billy Tench por dias: começa com ela castrando ele a dentadas, termina com ele matando ela em um banho de sangue.
É uma libertação, e ele praticamente abandona Londres e o mundo real. As oportunidades em que ele volta coincidem com assassinatos de Jack, o Estripador. Acontecem depois dele assassinar a sua mãe, uma prostituta, em Opikanoba, e dele receber instruções médicas rudimentares. A sua imperícia, aliás, leva à morte de Pan, o chefe anterior da ilha, e empurra Peter para uma espiral de culpa e automutilação que culmina com ele fundindo a sua personalidade com a do falecido, ao devorar as suas cinzas e se tornar Peter Pan.

Muito disso é uma versão psicótica do caminho trilhado por um herói, com a sua morte e ressurreição simbólica (e em como Obi-Wan Kenobi se torna uma voz na cabeça de Luke depois de morto). A fixação por prostitutas, os conhecimentos médicos, o impulso assassino: Loisel não mostra Peter matando ninguém, mas depois disso tudo, nem precisa.

Em uma de suas últimas visitas a Londres, descobrimos que o sr. Kundal guarda como um tesouro uma carta não aberta do amor de uma mulher pela qual estava apaixonado: “tenho medo de saber” ele justifica; “a dúvida mantém o imaginário”. É o contrário do que você esperaria ouvir de Gandalf, e ainda mostra que ele usa o imaginário como uma muleta para sua covardia.
Ao abandonar Londres, Peter Pan decide levar seus amigos órfãos para a Terra do Nunca. São os futuros Garotos Perdidos. É assim que Rose e Picou chegam lá. Sininho, como eu já comentei, entra em uma crise de ciúmes e leva Rose para a toca do “grande guloso” (onde está o tesouro da ilha), onde ela é devorada na frente de Peter e Picou, que entra em choque. Como é o único que não consegue esquecer o que aconteceu, acaba devolvido a Londres, em vai parar em um hospício. Lá, encontra, sem saber, uma testemunha dos crimes de Peter, que acredita ser ela própria Jack, o Estripador.
A moral disso é transformada em palavras expressas por uma das enfermeiras: temos Picou, que não consegue esquecer, e que vive em choque; “Jack”, que enlouquece por não lembrar. O leitor ainda sabe de Peter, que esquece para imaginar — entre os três, o único assassino. Loisel, como se vê, está fazendo uma relação entre memória, imaginação e degradação moral.
…desenhando fadas seminuas.

Essa reinterpretação do tema da história permite uma nova comparação, não mais entre a BD e o desenho animado, mas entre a BD e o livro de Barrie: Loisel reinterpretou diversos elementos da versão original de Peter Pan para adaptá-los aos seus propósitos.

Antes de ver as mudanças, no entanto, é interessante observar uma constante: Sininho. Na BD, no livro e no desenho da Disney, ela é basicamente o mesmo personagem, ainda que apresentada em diferentes registros conforme o tom da proposta. Nos três casos, ela é o que Jordan Peterson chama de fada madrinha do pornô: a sua principal característica é ser a ciumenta companheira de aventuras de Peter Pan, que entra em crise cada vez que ele é o alvo do interesse romântico de uma “mãe” (tanto no desenho, quanto no livro, Sininho tenta matar Wendy; na hq, como eu já comentei, ela mata Rose).
Ao entrar em cena, a primeira coisa que ela faz é conferir o tamanho da
própria bunda. Em um desenho animado. Da Disney.

Entre as mudanças que Loisel fez à história original, a mais facilmente perceptível é a do Capitão Gancho: ela vem acompanhada de um possível retcon. No livro de Barrie, o Capitão Gancho é um rei tirânico. Isso é muito bem simbolizado pelo seu gancho, que, ao mesmo tempo, lhe dá nome, é usado para oprimir os seus piratas/súditos, é uma deficiência simbólica que sinaliza que ele não é mais digno e é um totem se seu medo de morrer (a sua mão foi devorada pelo crocodilo gigante, que desde então lhe persegue).

Esse medo da morte pode ser traduzido como medo ao inconsciente ou ao desconhecido: crocodilos são um símbolo do submundo, o que em parte explica a lenda urbana de que eles moram em esgotos, e Gancho fica apavorado ao entrar na casa de Peter e os Garotos Perdidos, que fica sob uma árvore. Para continuar o raciocínio de forma junguiana (que, eu acredito, é particularmente útil para usar em uma interpretação de Peter Pan, o arquétipo que virou uma síndrome de psicologia-pop), Ann Yeoman chama o medo de Gancho de “medo do incesto simbólico com a Grande Mãe, pavor de um possível confronto e obliteração no primordial”. De forma um pouco menos pomposa, é medo do lado negativo da feminilidade, combatido através do uso do lado negativo da masculinidade (a tirania).
Esse conflito é uma característica da personalidade de Gancho destacada por Barrie. O seu aspecto é afeminado (“na sua natureza sinistra havia alguma coisa feminina”) e, quando ele enxerga Peter Pan dormindo, é tomado por sentimentos conflitantes.

No fim, o lado negativo da masculinidade se sobrepõe a um inesperado lado materno: “Será que nenhuma compaixão incomodou o seu peito sombrio? Ele não era um homem totalmente mau; ele amava flores (me disseram) e música doce (ele mesmo não era um artista medíocre no cravo); e, vamos admitir francamente, a natureza idílica da cena mexeu com ele de forma profunda. Controlado pela sua melhor versão, ele teria voltado para parte de cima da árvore (…). Mas o que marcou ele foi a aparência impertinente de Peter enquanto dormia. A boca aberta, o braço caído, o joelho arqueado: de tal forma eles personificavam insolência que, juntos, se poderia desejar que eles nunca mais se apresentassem a olhos tão sensíveis à sua ofensividade”. A maldade de Gancho teria uma solução: ele precisa de uma mãe, como os Garotos Perdidos. A diferença é que ele não sabe disso.

Só uma parte muito pequena disso chegou no Peter Pan de Loisel. A sua afetação feminina, por exemplo, sumiu: no desenho de da Disney, ela foi transformada em alívio cômico, o que foi mantido na hq como uma mistura de covardia e histeria quase infantil. Um conflito com a feminilidade foi mantido, mas de outra forma: ele idealiza a própria mãe, ainda que se esforce para reprimir qualquer demonstração de sentimentos.
Na última página do quinto capítulo, ele deixa um “afeto” pela
metade, para usar no lugar a palavra “respeito”.

Dá para especular, ainda, sobre um metacomentário. Enquanto o Capitão Gancho de Barrie teve o seu visual inspirado em Carlos II (o que pode ser ou não parte da caracterização de seu conflito interno entre masculino e feminino, conforme dizem alguns)…

…o de Loisel, também dizem, é inspirado no próprio Barrie:
Além de explicar o anacronismo da roupa do Gancho (que parece muito mais o de um soldado francês da Primeira Guerra Mundial do que de um marinheiro do final do século XIX), isso dá uma camada extra de significado para o possível retcon promovido por Loisel: na hq, Gancho descobre que é o pai de Peter.
Isso, no entanto, somente é um “possível retcon” porque ele precisa ser visto dentro de um contexto, o que nos leva ao segundo elemento reinterpretado por Loisel: A Terra do Nunca. Algumas das diferenças são bem aparentes. Primeiro, na hq ela não é chamada assim, ainda que a origem do nome seja insinuada: em Londres, em duas oportunidades diferentes, Peter diz que “Nunca! Nunca!” será um adulto. A repetição faz sentido porque, em francês, Neverland foi traduzido como Pays du Jamais Jamais.
Outra é que a Terra do Nunca da hq, além de dobrar a aposta nos elementos da mitologia grega (Pan, as sereias, o centauro), incorpora outros do folclore bretão (os korrigans), enquanto que a de Barrie tem um pé na mitologia celta (não necessariamente nos seus habitantes, mas nas regras de sua existência).
A diferença está nos contornos. Nos dois casos, a Terra do Nunca reage e se modifica conforme a imaginação de seus visitantes. No livro de Barrie,  somos informados que a Terra do Nunca de John tem “um lago sobrevoado por flamingos”, enquanto que “a de Michael, que era muito pequeno, tem um flamingo sobrevoado por lagos”; a de Wendy tem “um lobo domesticado abandonado pelos pais”.
Isso não faz dela um lugar tão fantástico quando a Terra do Nunca da Disney. As aventuras sem fim que ali se vivem têm um lado maníaco. É assim que Barrie descreve o dia da ilha quando John, Michael e Wendy chegam lá pela primeira vez: “Os garotos perdidos procuravam por Peter, os piratas procuravam os garotos perdidos, os peles-vermelha procuravam os piratas, e as feras procuravam os peles-vermelha. Eles davam voltas e voltas na ilha, mas não se encontravam porque todos iam na mesma velocidade”.
Essa perseguição perpétua se torna mais sinistra no parágrafo seguinte: “Todos estavam atrás de sangue, menos os garotos, que gostavam de sangue normalmente mas que nessa noite queriam receber o seu capitão. Os garotos da ilha variavam, é claro, em número, dependendo de quantos morriam e tudo mais; quando eles pareciam estar crescendo, o que era contra as regras, Peter dissipa eles”.
Existe alguma discussão sobre em que consiste exatamente “dissipar eles” (no original, “thins them out”). Algumas pessoas dizem que seria um eufemismo para assassinato. É uma hipótese plausível, considerando o agir do personagem e a provável necessidade de Barrie em não descrever explicitamente o protagonista do seu livro infantil como um assassino de crianças.
A Terra do Nunca de Barrie, como se vê, é um vale quase tudo pela diversão de Peter. E mesmo o código de regras que nos dá aquele quase tem componente de perversidade: a “good form”, na qual tanto Peter quanto Gancho insistem, é uma espécie de fair play que se preocupa muito mais com a forma extensiva das ações do que com o seu conteúdo.
Na hq, no entanto, a Terra do Nunca é especialmente sensível a Peter, principalmente depois que ele se torna Peter Pan e assume a sua liderança. A sua existência objetiva, fora de Peter, quase é duvidosa (existe, no entanto: outros personagens conseguem enxergar a Sininho em Londres). Assim, ele é exposto ao ridículo pela sua inocência sexual pelas sereias da ilha, da mesma forma que fora, páginas antes, na Mermaid’s Tavern de Londres. O crocodilo que devora a mão de Gancho parece a personificação do “grande guloso” descrito por Kundal no início da HQ.
Ela reflete, portanto, a mente de um psicopata: não é de se estranhar que nos últimos volumes, pareça uma versão hardcore de O Senhor das Moscas. Quando Picou entra em choque pela morte de sua irmã, e deixa de ser um companheiro de aventuras útil, a primeira solução encontrada é matá-lo. Ela é apresentada em um quadrinhos panorâmico, como se isso fosse uma decisão da própria ilha:
A proposta não gera maiores escândalos porque todos sabem que ele é Rose serão esquecidos: na Terra do Nunca, ninguém lembra de nada. Isso até parece um detalhamento de algo que já estava no livro (lá, na Terra do Nunca se vive em um eterno presente). Barrie, no entanto, não fez os seus personagens sugerirem o assassinato de uma criança em estado de choque para ilustrá-lo.

O terceiro elemento reinterpretado por Loisel é o próprio Peter Pan. Que a Terra do Nunca de Loisel, um reflexo da mente de Peter Pan, seja mais infernal que a de Barrie, diz muito sobre o assunto. Como eu já comentei, o Peter de Loisel é uma versão satírica, realista e violenta, do Peter do desenho da Disney — transformado por Loisel em um psicopata.
O Peter Pan de Barrie é um personagem mais complexo. Pra começo de conversa, ele é bem mais Pan: enquanto que o Peter Pan de Loisel, aparentemente, herdou as suas características sinistras do “Peter”, e não do “Pan” (o anterior líder da ilha que, quase parece um chefe responsável), Barrie associa o comportamento do “seu” Peter Pan com o personagem da mitologia grega — além do comportamento brincalhão, ele toca flauta e, na peça de teatro, monta em um bode.
É bem possível que Barrie tenha promovido essa associação em razão de seu caráter pagão: Pan é caracterizado pela sua associação à floresta, pela sua sexualidade (que, aliás, deixada de fora em Peter Pan: apesar de ser alvo das intenções afetivas de Wendy, Tigrinha e Sininho, Peter é basicamente assexuado) e pela sua aparência com chifres e pernas de bode, todos bons elementos para se tornar um ídolo pagão. E o ressurgir moderno do paganismo, dizem, tem a sua origem precisamente na Inglaterra do final do século XIX e início do século XX; Peter Pan apareceu pela primeira vez em 1902.
O que é certo, mesmo que tudo isso não seja verdade, é que o personagem não é exatamente um modelo de conduta: o Peter Pan de Barrie também é, de sua forma, um reizinho tirânico sem muita preocupação pelos seus súditos. Dois dos garotos perdidos são irmãos gêmeos, que não sabem diferenciar-se entre si, porque Peter também não sabe — e ele impôs uma regra que proíbe que qualquer garoto perdido saiba de algo que ele não sabe.
Isso, é claro, convive com outros elementos positivos que normalmente servem para defini-lo no imaginário pop: Peter Pan pode ser irresponsável, mas também é um líder carismático, corajoso e imaginativo, associado com a natureza, a primavera, a alegria e a renovação.
O ponto é que ele não é o psicopata de Loisel, nem a criança com DDA da Disney, mas um pouco das duas coisas: ao ser apresentado à estátua do personagem que está em Kensington Gardens, Barrie teria reclamado que ela era incompleta por não mostrar “o lado diabólico de Peter”.
Realmente… (fonte).

É a aparente ambiguidade de alguém que se  recusa em realizar o seu potencial, e viver sempre com todas as possibilidades abertas — noutras palavras, recusar-se a crescer para poder continuar vivendo o seu divertido e inconsequente desbunde pagão. Não é por acaso que Wendy, ao enxergá-lo pela primeira vez, se dá conta de que está “diante de uma tragédia”: o potencial existe, mas assim permanecerá até ser tarde demais.

Isso faz com que o personagem não tenha os seus detalhes definidos. Não se sabe, por exemplo, porque ele desistiu de ser adulto. Certamente não foi por ter uma mãe abusiva e alcoólatra: ele mesmo explica que depois de sua primeira viagem para a Terra do Nunca, voltou para o mundo real para encontrar a janela de seu quarto fechada e a sua mãe embalando outra criança.
Não temos, no entanto, como saber se essa história é verdadeira (Peter Pan não é exatamente um narrador confiável). Se ele interpretou o agir de sua mãe como abandono, provavelmente foi de forma injustificada: entre a sua partida e o seu retorno podem ter passado diversos anos. No mundo real, certamente existem mais Peter Pans com mães superprotetoras do que o contrário. A história de João e Maria parece indicar que isso também seria mais atemporal: a bruxa alimenta as crianças para devorá-las. Talvez o Peter Pan tenha escapado desse destino metafórico para ficar preso no limbo.
A partir da leitura que Loisel fez do personagem, e das modificações que fez para promovê-la, é fácil extrair a sua época. O cinismo de se propor a satirizar um desenho da Disney, o psicologismo na explicação da maldade através da vitimização sexual pelo mundo real, a crítica à idealização descolada da realidade: é o tipo de coisa que apareceu na cultura pop ao longo da década de 90 (para tentar trazer o leitor de gibi de super-herói de volta para a resenha: quantas vezes você leu, nessa época, um gibi no qual o abusivo infantil era utilizado como origem de um vilão adulto?).
Já Barrie escreveu uma história arquetípica sobre potencial não realizado; para isso, teve que mantê-la aberta o suficiente para permitir infinitas interpretações. Loisel fixou Peter Pan no tempo, ao preço de renunciar às possibilidades do original para desenvolver apenas uma. Ele pode ter feito isso de uma forma mais interessante que a das outras pessoas que tentaram fazê-lo. Mas a miríade de possibilidades do original era a sua principal (talvez a única: não é como se Peter and Wendy fosse lá uma obra de literatura) virtude: era aquilo que fez com que cem anos depois alguém estivesse tentando re-re-interpretá-lo. [RESENHAS[QUADRINHOS]
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