JACK KIRBY: COLAGENS

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Ontem, Jack Kirby faria 99 anos de idade. Como tem bastante artigo sobre o Kirby estocado nos meus arquivos, o momento de MEMÓRIA. A vez é de Steven Brower, que escreveu um artigo sobre as colagens do Rei. O artigo saiu na Print Magazine e é cheio de ilustrações.

Kirby, explica Brower, adorava uma colagem: conforme Mark Evanier, “nos anos 70 Kirby frequentemente criava colagens a partir de sua coleção de revistas de fotografia como a National Geographic e a Life, quando ficava com vontade, para usá-las depois”. Supostamente, “a saga da Zona Negativa, na série do Quarteto Fantástico, seria feita totalmente com colagens, objetivo que ele abandonou por causa do que ganhava por página, da velocidade do seu lápis e do resultado impresso”.


São colagens que “tem pouco em comum com o Cubismo e o Dadaísmo na execução, mas a influência do Surrealismo é clara. Depois da sóbria década de 50 [ao menos na percepção popular], a década de 60 viu o retorno das qualidades oníricas do Surrealismo, tanto na cultura mainstream, através da publicidade, quanto na contracultura. Talvez as colagens de Kirby se aproximem do trabalho do artista corajosamente antinazista John Heartfield, cujo trabalho agudamente político era pensado não apenas para causar respostas viscerais, mas também contar uma história”. [MEMÓRIA] [QUADRINHOS]

JEFF LEMIRE: “QUANTO MAIS TRISTE, MELHOR”

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Jeff Lemire foi chamado de “the next big thing” e “Stephen King dos gibis” por Scott Reid. A empolgação só se justifica apenas porque é em um perfil publicado na revista canadense Maclean's [eles tem até uma folha de bordo no logo]. 

E o próprio Reid diz que é “difícil encaixar esses superlativos nesse quadrinista de 39 anos, casado e pai. De óculos e sem pretensões, Lemire parece totalmente normal. Na verdade, é um mutante. Mas não do tipo que tem garras de adamantium. O seu superpoder é a habilidade de combinar um amplo espectro criativo, uma base de fãs do tamanho do Galactus e um enorme apelo crítico”.


Do perfil, você tira que Lemire é um solitário sentimental: “'Se eu não posso trabalhar todos os dias, não sou uma pessoa agradável', confessa. 'Preciso fazer isso pela minha saúde mental'. É uma compulsão que, aos 19 anos, levou ele para longe dos espaços abertos da fazenda familiar. Eventualmente, ele aterrissou em Toronto, onde, como um de seus personagens diria, você pode estar 'completamente sozinho... perdido na multidão'”. [QUADRINHOS]

ROB LIEFELD, O ZEITGEIST DOS ANOS 90

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Ainda aproveitando o vácuo de Deadpool, Andrea Fiamma, do Fumettologica, se deu uma árdua [mas necessária] tarefa: explicar Rob Liefeld. É árdua porque ele não caiu no anti-liefeldismo 1.0. Ao contrário: “nos anos 90, Liefeld era uma estrela dos quadrinhos e os jovens leitores compravam os seus gibis, então alguma coisa certa ele deve ter feito -- ainda que seja apenas ter a sorte de estar no lugar certo no momento certo”.

A explicação, talvez, possa vir “pegando-se emprestado as palavras de Carl Wilson em Let's Talk About Love: certos artistas encontram o sucesso porque o público quer, como escreve Evil Monkey, 'emoções jogadas no seu rosto com a violência de um trem no meio de descarrilamento'. As splash-pages espalhadas pelos gibis, os quadrinhos extremamente velozes e o grupo de linhas desenhadas no rosto e corpos dos personagens parecem aderir a essa ideia de entretenimento”.


Ele era “o zeitgeist dos anos 90” e “com as ombreiras, as pontas, os bolsos e as armas gigantescas, inventou um imaginário que desenhistas mais talentosos não conseguiram criar, tornando-se, ainda que sejam ótimos, notas de rodapé na história dos quadrinhos”. [QUADRINHOS]

ALFREDO ALCALA: DOZE PÁGINAS EM NOVE HORAS

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Michael Clarke, do Comics, Cartoons and Criticism, usou o exemplo dos “komiks” filipinos para falar da “utilidade do conceito de escolas nacionais de quadrinhos”. O artigo é de 2014, mas é conveniente agora: ainda que Clarke fale brevemente de Ernie Chan e Jesse Santos, o foco principal é Alfredo Alcala, que hoje faria 91 anos.

Alcala nasceu em 23 de agosto de 1925 em Talisay, na província de Negros Ocidental, nas Filipinas. Começou a desenhar ainda adolescente -- fazia placas publicitárias e, durante a Segunda Guerra Mundial, mapas das casamatas japonesas para as forças Aliadas: foi uma espécie de espião-mirim-voluntário.

Em 1948, começou a desenhar komiks para a Ace, principal editora de quadrinhos das Filipinas. Na época, sem qualquer assistente, se tornou conhecido pela velocidade: chegou a desenhar 12 páginas em 9 horas. Se tornou um dos quadrinistas mais conhecidos das Filipinas, inclusive ganhando uma revista com o seu nome: a Alcala Komix Magazine. O personagem Voltar foi o seu maior sucesso por lá.


Nos anos 70, como diversos outros artistas filipinos, foi contratado pela DC. Produzia 40 páginas por mês e já em 1976 se mudou para Nova Iorque. Sempre em ritmo acelerado [dizem que ele não dormia em camas, só no chão ou sobre a sua mesa], Alcala passou por um leque amplo de quadrinhos: Batman, Hellblazer, as séries da editora Warren, Howard the Duck, Conan... É principalmente conhecido como o arte-finalista de grande parte do Swamp Thing de Alan Moore, um dos grandes responsáveis pela cara gótica da série.


O seu estilo é explicado, ao menos em parte, pelo artigo de Clarke: conforme ele diz, “os artistas de komiks usavam um traço amplamente diferente de suas contra-partes americanas”, “já que trabalhavam com um sistema de reprodução que, na maioria dos casos, produzia imagens monocromáticas em preto e branco com toques de vermelho”.

Os artistas de komiks “acabaram desenvolvendo um estilo muito mais ilustrativo que o americano”: “se apoiavam muito mais em traços detalhados e pincéis na arte final”, “se sobressaindo na narrativa silenciosa, desacompanhada de narração verbal” e “escolhendo a imagem mais reveladora para mostrar a ação” [em um estilo que emulava “ilustradores mais clássicos e a estética dos posters” e que “transmitia a ação através de quadrinhos solitários e poderosos”]. [MEMÓRIA] [QUADRINHOS]

“NA LITERATURA JAPONESA, PARA CADA PALAVRA ESCRITA EXISTEM TRÊS NÃO ESCRITAS”

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Zack Davisson, que traduziu alguns mangás de Shigeru Mizuki para a Drawn and Quarterly [como Showa: A History of Japan], escreveu um artigo para o The Comics Journal descrevendo as dificuldades enfrentadas para se traduzir um mangá para o inglês. O mote é a “Regra de Rubin”: “ela vem de Jay Rubin, que traduziu as obras de Haruki Murakami e é um dos mais conhecidos tradutores de japonês para inglês. Ele disse em uma entrevista: 'quando você lê Murakami [em inglês], você está me lendo, pelo menos 95% do tempo”.

É que, ao traduzir do japonês para o inglês, “a tradução direta produz um papo furado impossível de se ler. Até mesmo reorganizado as palavras conforme a gramática inglesa resulta em uma bobagem vazia”. O problema é que “o japonês não é fácil de se traduzir. É um idioma altamente contextual, ao contrário de um idioma pouco contextual como o inglês. Isso significa que um japonês pode usar menos palavras, e apostar mais no contexto cultural, para comunicar o que está acontecendo em cena. Já se disse que na literatura japonesa, para cada palavra na página existem três não escritas. Se espera que os leitores preencham os espaços vazios”.

No processo, Davisson dá insights sobre alguns mangakas que ele traduziu, como Mamoru Oshii: “os diálogos dele são, de longe, os mais difíceis. Oshii se esforça para usar frases obtusas e kanji difícil”.

Também vale a pena dar uma olhada nos comentários. Vários tradutores/comentaristas de mangá passaram por lá [como Andrew Cunningham, Federica Lippi, Diana Schutz, Ryan Holmberg e Joe McCulloch]. Holmberg faz um comentário interessante sobre Mizuki: “existem questões importantes sobre a autoria de Mizuki até mesmo nos originais japoneses. Não estou falando só da origem de Kitaro, mas do fato de que, ao final dos anos 60, não é claro o quanto Mizuki colaborou pessoalmente para obras individuais. Aparentemente, nos 80, a situação era tão extrema que ele contratava artistas razoavelmente conhecidos [mas enfrentando dificuldades] para produzir histórias para ele do zero, do conceito à arte final”. [QUADRINHOS]