PATIENCE, DE DANIEL CLOWES: "SOU APENAS UM PRIMATA SEDENTO DE SANGUE?"

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Patience
Daniel Clowes
[Fantagraphics, 2016]

Daniel Clowes trabalhou em Patience por aproximadamente cinco anos. É o seu primeiro encadernado 100% novo, que nunca foi serializado em outro lugar antes de ser publicado em capa dura. Também é o seu trabalho mais novo. Ele pode não gostar do termo [eu também não; seja uma boa pessoa e não goste dele também], mas dá para dizer que essa é a sua primeira graphic novel original. 

Só isso já seria suficiente para garantir o hype em torno do gibi -- e a Fantagraphics foi lá e tocou um monte de dinheiro na divulgação dele. Não existem cenas de horas de nerds esnobes [a pior coisa de Clowes é o sucesso que ele faz entre críticos esnobes] invadindo as livrarias atrás de Patience porque provavelmente todos eles receberam uma cópia em casa para resenhar.

No início, deu certo. Também, tudo que você pode esperar de um gibi do Clowes, Patience tem, e isso se traduziu na empolgação do resenhismo inicial. 

Apesar de ser uma história longa, Patience é dividido em partes, cada uma delas em um momento da história. Começa no presente [2012], quando Patience [que, além do título do gibi, é o nome da esposa do protagonista] e seu marido, Jack Barlow, descobrem que ela está grávida -- apenas para que ele chegue em casa e encontre ela assassinada trinta páginas depois. Pula para o futuro [2029], quando um Barlow ainda obsessionado com o assassinato descobre a existência de uma forma de viajar no tempo. Retorna para o passado [2006], quando ele vai investigar a vida de Patience antes de conhecê-lo, tentando desvendar o crime. Vai mais para o passado [1985], quando as coisas dão errado em 2006 e ele se vê obrigado a viajar desordenadamente no tempo. Finalmente, volta para o presente, no dia anterior à morte de Patience.

MIKE GRELL: “APRENDI A ATIRAR COM 4 ANOS”

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Overdose de oitentismo: o blogue DC in the 80s entrevistou Mike Grell [Green Arrow: Longbow Hunters]. É em duas partes. Na primeira, você descobre que o cara tinha um background e tanto: caçadas em Wisconsin e Guerra do Vietnã.

Grell esteve na força aérea americana entre 1967 e 1971. Nesse último ano, ficou em Saigon: “não era um soldado de combate, mas estava na guerra. Estava envolvido. De fato, eu estava o mais envolvido que se pode estar sem ir para a selva”. A selva ficou na sua infância: “aprendi a atirar com 4 anos. Morava no norte de Wisconsin, em uma área que estava tão afundada que, se pai não caçasse, a família não comia carne. Caçar surgiu naturalmente para mim como uma forma de vida. Me ensinou a respeitar os animais, a amar a natureza e eu faço isso desde criança”.


Ainda na primeira parte, ele explicou como a DC ofereceu para ele o arqueiro verde: “Mike Gold se mudou para a DC e me ligou um dia e disse: ‘sou editor na DC, existe algum personagem aqui que você gostaria de fazer para voltar ao trabalho?’. Eu disse: ‘Batman’. Foi Gold que disse ‘Arqueiro Verde’. ‘Pense nisso’, ele disse… ‘Arqueiro Verde como um caçador urbana’. Foi isso”. 


Na segunda parte, ele falou mais sobre o Arqueiro Verde. Inclusive sobre a decisão de levá-lo para Seattle: “É, eu morava em Seattle. Por isso levei o Arqueiro Verde para lá. O propósito principal era levá-lo para fora da mítica Star City, para ancorá-lo no sólido mundo real. O motivo pelo qual eu escolhi Seattle, em vez de qualquer outro lugar, é porque eu sou um garoto de uma cidade pequena do norte de Wisconsin e só morei em 3 cidades em toda a minha vida, Chicago, Seattle e Nova Iorque, e você tem que conseguir escrever sobre a cidade com alguma autoridade”. [QUADRINHOS]

GENE COLAN, “O ELO ENTRE JACK KIRBY E NEAL ADAMS”

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Andrea Antonazzo, do Fumettologica, escreveu um perfil de Gene Colan -- o “anti-Kirby”.

Ele dá esse apelido para Colan porque ele conseguiu escapar da influência que Jack Kirby exerceu sobre os outros desenhistas do início da Marvel: “Stan fez poucas, mas significativas, exceções, e uma delas foi Gene Colan. O desenhista tinha a mesma filosofia de Kirby, ligada à expressividade do desenho acima de tudo, mas o seu estilo era completamente oposto ao de Kirby. Enquanto o estilo de Kirby era solar, o de Colan era sombrio; enquanto Kirby favorecia o exagero anatômico para maravilhar o leitor, Colan contorcia corpos anatomicamente naturais com o mesmo objetivo; enquanto Kirby amava inventar e criar, Colan preferia reproduzir e personalizar”.


Não que Lee fosse conseguir fazer Colan mudar o seu estilo, de qualquer forma: “talvez por causa de sua extrema dedicação ao trabalho, que fez ele inclusive negligenciar a própria família, Colan regia sempre com uma certa suscetibilidade às opiniões dos seus editores. Nos anos 50, brigou muito com Harvey Kurtzman, seu editor na EC Comics, enquanto que no início dos anos 60 foi demitido da DC depois de enlouquecer Robert Kanigher”. [QUADRINHOS]

LUKE CAGE: “UM JUDEU GORDINHO CHAMADO BENDIS TEVE UMA IDEIA ESTRANHA”

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Antes de você ficar decepcionado com a série do Punho de Ferro, você deve ter ficado decepcionado com a morna série do Luke Cage. Naqueles tempos, Abraham Riesman, do The Vulture, escreveu um artigo pra explicar como o personagem foi de “vanguarda a caricatura de volta para a vanguarda”. 

Riesman descreve a criação do personagem como uma tentativa da Marvel de explorar a moda blaxpoitation: Stan Lee “consultou Roy Thomas e os dois rapidamente pensaram nas características definidoras de um personagem inspirado no blaxpoitation. Lee queria um nome forte e estranho; Thomas sugeriu ‘Cage’. Lee queria que o personagem ‘transformasse o combate ao crime em uma profissão paga’. Eles queriam uma criação poderosa, mas não como o Hulk; Thomas se inspirou no protagonista do livro de ficção científica dos anos 30 de Philip Wylie, Gladiator, e fez dele a prova de balas mas ainda vulnerável ao armamento pesado”.

Virou isso aí.
O retorno depois do ostracismo aconteceu graças a “uma constelação idiossincrática e única de fatores criativos: uma editora em meio a uma era caótica e desbocada; um judeu gordinho chamado Bendis, que teve uma ideia estranha; e, estranhamente, ao comediante Damon Wayans”. Riesman está falando de Alias, a Brian Michael Bendis e o cabelo rapado a zero do personagem. [QUADRINHOS]

JIM SHOOTER E GERRY CONWAY: “CONWAY JOGOU A OPORTUNIDADE NA CARA DE STAN LEE”

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R. S. Martin riscou mais um nome da lista de supostas vítimas de Jim Shooter: Gerry Conway [o escritor da morte da Gwen Stacy]. Ele foi colocado lá por Gary Groth, no editorial da The Comics Journal #117, de 1987.

Shooter teria sido responsável por apressar a demissão de Conway na metade dos anos 70: o próprio Conway havia pedido demissão, mas planejava ficar na editora mais um mês; Shooter teria convencido Stan Lee a demiti-lo imediatamente. Tudo isso conforme uma entrevista do próprio Conway para o The Comics Journal [de 1981, edição #69].

No entanto, conforme Martin, é duvidoso que Shooter pudesse ter influído a decisão de Lee. E Lee teria motivos para demitir Conway: ele não gostava que seus escritores fossem trabalhar na DC. 

Conway, ainda por cima, não foi lá muito considerado com o Lee -- duas vezes: “Lee fez uma aposta considerável ao contratar um jovem inexperiente de 23 anos, e Conway essencialmente jogou a oportunidade na cara de Lee: ele pediu demissão do trabalho um mês depois. Ele então imediatamente usou a boa vontade de Lee de novo e negociou um contrato incrivelmente amplo de escritor-editor. Obrigava a Marvel a dar para ele oito roteiros regulares, o dobro do que qualquer outro escritor da empresa. Depois de Lee fazer esse esforço em favor de Conway, ele jogou tudo na cara de Lee de novo. Decidiu depois de seis meses romper o contrato e voltar para a DC”. [QUADRINHOS]