O CALEIDOSCÓPIO: CAPITÃO BRITÂNIA, DE ALAN DAVIS, DAVE THORPE E ALAN MOORE:

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Capitão Britânia
Alan Moore, Alan Davis, Dave Thorpe, Helen Nally e Andy Seddon
[Panini, 2015]

Antes de atravessar o Atlântico, o Alan Moore escreveu três gibis marcantes: V de Vingança, Marvelman, e Capitão Britânia.

Capitão Britânia, mesmo sendo o seu único trabalho-trabalho para a Marvel [ainda que através da sua subsidiária britânica, Marvel UK], é o mais ignorado. No entanto, das três séries também é a que melhor oferece um panorama da carreira de Moore dentro e fora das quatro linhas dos quadrinhos: de perto, é possível enxergar nessa série pedacinhos de gibis tão diferentes quanto D.R. & Quinch e Monstro do Pântano, Watchmen e The Birth Caul, além de tretas bizantinas que fizeram dele esse ermitão moderno.

Não é, no entanto, um panorama simples. A melhor forma que eu encontrei de expô-lo foi agrupando desmontando a série em pedaços para reagrupá-la em capítulos temáticos. Isso não está muito longe da forma que Moore começou a trabalhar na própria hq: e é essa técnica de approach que nós começamos a resenha:

STEVE DITKO



Morreu Steve Ditko.

Ao redor dos meus vinte anos, e por diferentes motivos, passei o verão de uns três anos seguidos em Torres -- a praia do RS que está mais próxima de SC, geográfica e esteticamente, pra vocês que não são aqui da região.

Na condição de ser nerdoso, isso me dava bastante tempo livre: o que que eu ia fazer na praia, certo?

Para a minha sorte, acabei descobrindo um sebo de quadrinhos na cidade. Ele era administrado por um tiozinho meio hippie (ele falava “bicho”; já tá bom, né?), que transformava o escritório de arquitetura de sua esposa em uma caverna de gibis a venda. Ficava no subsolo de um prédio comercial. Os gibis eram caros, mas vários. O dono não me enxotava e dava assunto. E eu não precisava me preocupar com o sol. Evidentemente, comecei a ir lá todos os dias. 

Acho que é a isso que chamam de moleque sarnento.


FRANK MILLER BEGE: THE DARK KNIGHT RETURNS: THE LAST CRUSADE DELUXE EDITION, DE FRANK MILLER, BRIAN AZZARELLO, JOHN ROMITA JR. E PETER STEIGERWALD

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The Dark Knight Returns: The Last Crusade Deluxe Edition
Frank Miller, Brian Azzarello, John Romita Jr. e Peter Steigerwald.
[DC Comics, 2016]

Desdobrar a resenha de uma hq em análises separadas do argumento, do roteiro e do desenho deve ser algum tipo de falácia: no final das contas, o que se está fazendo é deixar a própria hq, que é a união desses elementos, em um segundo plano. 

No caso de The Last Crusade, no entanto, isso parece inevitável. Assim que foi anunciado que as novas histórias ambientadas no universo do Cavaleiro das Trevas seria produzidas em equipe [com Brian Azzarello e John Romita Jr., no caso de The Last Crusade, e Andy Kubert, no caso de Dark Knight III], a pergunta que ecoou pela nerdosfera foi sobre qual seria a participação de Frank Miller no processo -- além de fornecer o nome e pegar o cheque.

É fácil entender o porquê. Muito embora duas de suas melhores hqs tenham sido feitas em parceria [A Queda de Murdock e Batman: Ano Um], disso faz uns trinta anos. A parceria, ainda, com um dos melhores desenhistas de quadrinhos disponível: David Mazzucchelli. Nas suas outras hqs, Miller trabalhou sozinho, ou em parceria apenas na colorização e na arte-final -- mesmo assim exercendo considerável controle sobre as duas coisas: taí a treta que ele teve com Klaus Janson por conta da arte-final de O Cavaleiro das Trevas que não me deixa mentir. Ele nunca trabalhou em parceria com outro roteirista.

Foi assim que ele se tornou o principal auteur dos quadrinhos americanos ainda em atividade: fazendo exatamente aquilo que ele mesmo pensou em fazer. Pense na confusão mental dos monólogos de Marv em um temporal de tinta branca sob a escuridão da página preta: aquela história foi pensada para ser contada daquele jeito; aquele jeito foi pensado para contar essa história. 

Por isso é pertinente começar a olhar The Last Crusade por aquele ângulo: parece pertinente saber até que ponto ele corresponde à vontade de um cara idiossincrático como Miller, o motivo pelo qual você se interessou pelo gibi no final das contas.

DE ONDE VIEMOS, PARA ONDE VAMOS: O QUE SEPARA WARLOCK, DE JIM STARLIN, DOS FILMES DA MARVEL

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Warlock: The Complete Collection
Jim Starlin
[Marvel, 2014]

A Marvel atual começou uma empresa pequena e recém-falida, e que tinha por objetivo apenas arrancar alguns centavos de crianças e adultos envergonhados. Stan Lee era um editor desesperado que, de uma salinha que dividia apenas com uma secretaria, reuniu mais algumas pessoas desesperadas para trabalhar naquilo que ocupava na escala de moralidade das pessoas comuns uma posição intermediária entre esquemas piramidais e pornografia. O seu conselho para os seus funcionários era “peguem o dinheiro e corram”. 

Não é de se estranhar que ele fosse cínico. Lee era um escritor frustrado, careca e quarentão, que trabalhava no mesmo lugar desde os 19 anos de idade, quando conseguiu o emprego por ser parente de alguém que conhecia o dono da empresa. Durante todo esse tempo, a empresa fora periférica e oportunista, atuando em um ecossistema econômico formado quase que exclusivamente por parasitas de intenções suspeitas: a líder do mercado recém se livrara de suas conexões com a máfia e a pornografia barata.

Ao perceber que tudo estava na iminência de dar errado, de novo, ele resolvera apostar tudo em uma convicção pessoal. Não havia nada a perder: não iria dar certo de qualquer jeito mesmo. Ele reuniu alguns quadrinistas desesperados e lançou alguns heróis novos.

Cinquenta anos depois, heróis criados por essas pessoas, nessas condições, foram levados para o cinema. Lá, viraram filmes calculados para o sucesso global: planejados ao longo de uma década, arrecadam mais ou menos a mesma coisa que o fisco de um pequeno país. 

Não me entendam mal: poucos são os filmes do Marvel Studios que eu não gostei, e só não fico mais feliz pelo sucesso que eles fazem nas bilheterias porque não sou um acionista do estúdio. O meu ponto é que, do desespero ao planejamento, do vai que cola ao profissionalismo, do nicho ao público global, alguma coisa nas histórias deve ter mudado. O que ficou para trás? Em Vingadores: Guerra Infinita, Thanos usa seus poderes para jogar uma lua nos heróis: o que um gibi daqueles poderia fazer que um filme da Marvel não pode?

PETER PAN DE RÉGIS LOISEL X DISNEY X J. M. BARRIE: AS MUITAS FORMAS DO GAROTO QUE NÃO QUERIA CRESCER

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Peter Pan, volumes 1-3
Régis Loisel
[Editora Nemo, 2013]

J. M. Barrie foi a primeira pessoa a se dar conta de que acertou em alguma coisa ao criar Peter Pan: ele dedicou ao personagem, que poliu continuamente, pelo menos uns dez anos de sua vida, até mais ou menos decidir-se por uma versão ultimate no livro Peter and Wendy

Ainda na primeira metade do século passado, ele deixaria de estar só. Peter and Wendy foi uma versão estendida e romanceada de uma peça de teatro que estreara em 1904 (Peter Pan, or The Boy Who Wouldn't Grow Up) e cujo sucesso já levara à publicação de outro livro (Peter Pan in Kensington Gardens) com uma versão mais primitiva do personagem. Tirando uma pá de livros mais decididamente infantis (incluindo o relato ilustrado The Peter Pan Picture Book, de Alice Woodward e Daniel O'Connor, de 1907), mais recentemente o personagem protagonizou uma série de livros, escrita por Dave Berry e Ridley Pearson, fora outro que se propõe a ser uma “continuação autorizada” (Peter Pan in Scarlet, de Geraldine McCaughrean).

O primeiro filme foi lançado em 1924 (produzido pela Paramount), e foi seguido pelo desenho animado da Disney (de 1953, o último filme no qual os Nove Anciãos trabalharam em conjunto). Esse desenho ganhou uma continuação em 2002 (Retorno à Terra do Nunca). Só nos últimos 15 anos, o personagem protagonizou dois outros filmes (Peter Pan, de 2003, e Pan, de 2015). Tem ainda pelo menos dois musicais da Broadway, de 1950 e 1954.

Tudo isso não é só pra te permitir fazer uma balaca no TCC de um curso de comunicação, dizendo que Peter Pan era um personagem transmídia na primeira metade do século passado, mas para mostrar que ele já teve diversas versões, ao longo de 100 anos, em diferentes meios. 

É justo concluir que isso aconteceu porque o personagem tem um certo potencial universal e alguma ressonância arquetípica. Existe inclusive, uma considerável bibliografia sobre o assunto, principalmente entre junguianos -- o tipo de pessoa que se preocupa com coisas de potencial universal e ressonância arquetípica, e que acabou por fazer de Síndrome de Peter Pan virou um termo da psicologia pop. 

Entre todas essas versões, a de Régis Loisel está entre as melhor sucedidas -- pelo menos comercialmente, como mostram os frios números: originalmente publicada na França em seis álbuns entre 1992 e 2006 (e lançados pela Nemo no Brasil em três álbuns de capa dura, ao longo de 2013), alcançou alguns milhões de álbuns vendidos e levou o Grand Prix de Angoulême em 2006.

Seria fácil atribuir esse sucesso ao apelo mainstream, ao menos em termos franceses, da hq: o formato original (álbum colorido de 48 páginas), sem piruetas no uso da linguagem, os elementos próximos da fantasia heroica, a nudez, o prêmio em Angoulême; é assim que se faz uma BD campeã de vendas.

No entanto, essa explicação seria um pouco cínica: ela ignora o papel que a hq tem dentro dessa tradição de reinterpretações de seus personagens e os seus méritos próprios. O que não deixa de ser engraçado, porque a principal característica da versão de Loisel para o personagem é exatamente o cinismo.