FRANK MILLER: “O BATMAN DE DK2 É UM REVOLUCIONÁRIO”

* * * *
A dissertação de mestrado de Stephen Matthew Jones de tal foi sobre o heroísmo nos gibis de Frank Miller. Ele fala especialmente de Sin City, o filme, e O Cavaleiro das Trevas 2. O objetivo é estudar “o que a sociedade considera um modelo heroico, e se esse modelo pode ser visto como progressista ou opressivo em relação aos grupos não-dominantes”, mas alguns insights são interessantes e Northrop Frye está na bibliografia.

O que Jones faz é relativizar o beco politicamente incorreto no qual Miller, em tese, se encurralou. Assim, ele trata o Batman de Cavaleiro das Trevas 2 como um revolucionário e enfatiza o papel das prostitutas de Old Town como símbolos da luta contra o patriarcado.

Ainda que sim, seja de uma forna "problemática"

No processo, faz algumas análises interessantes, não apenas sobre Cavaleiro das Trevas 2 e Sin City [belamente dissecado e analisado como filme noir], mas também sobre outros grandes gibis de sua carreira. Como Elektra Assassina e Born Again: “Elektra é um modelo do herói existencial, um tipo autodeterminado que é recorrente na obra de Miller. Como em Born Again, o herói individual serve melhor aos interesses do país que agentes do governo com alianças cegas”. [QUADRINHOS]

WILL EISNER E CHARLES M. SCHULZ: É A GUERRA

* * * *
Malin Bergström escreveu a sua dissertação de mestrado sobre como Will Eisner e Charles Schulz retratam a guerra nos seus gibis. No caso de Eisner, a hq analisada foi Ao Coração da Tempestade. No de Schulz, evidentemente, foi Peanuts.

Pode te parecer estranho que a tira do Snoopy, mas uma das coisas que Bergström explica é como o acampamento de verão para o qual Charlie Brown era anulamente enviado funcionava, frequentemente, como uma figura de linguagem para a convocação de um soldado.

O que Bergström faz é comparar o que as hqs e os autores tem em comum. Os dois, por exemplo, participaram da Segunda Guerra Mundial e tratam o "serviço militar como uma oportunidade para crescer e madurar".

No entanto, Schulz, que de fato foi para a linha de frente, "deixou de ser um indivíduo isolado e tímido, e desenvolveu uma carreira militar", descrevendo "o retorno para a vida de civil como anti-climático". Em Peanuts, ele "trabalha de forma consciente para lembrar a Guerra Mundial", comemorando os seus veteranos e lembrando do Dia D de forma anual. 


Enquanto isso, Eisner, ainda que tenha se tornado "decidido em servir ao seu país na guerra" depois de convocado, não deixou o "homefront", sem ir à frente de batalha. Ele opta, no entanto, "por não mostrar esse fato aos leitores. A sua decisão de se focar apenas na jornada para a base militar permite que a Eisner conectar a sua narrativa à memória coletiva da convocação, ainda que a verdadeira experiência do convocado seja significativamente diferente".  [QUADRINHOS]

DOUTOR ESTRANHO, DE JASON AARON E CHRIS BACHALO: CONTRA NEWTON

* * * *
Doutor Estranho, #1-6
Jason Aaron, Chris Bachalo, Tim Townsend, Al Vey, Mark Irwin, Victor Olazaba, Jaime Mendoza e John Livesay
[Panini, 2016-2017]

É fácil entender por que, ao relançar o gibi do Dr. Estranho, a Marvel não decidiu trocar Stephan Strange por outro personagem mais novo, modernoso e de alguma minoria. A ideia, evidentemente, era ter uma série pronta para o público do filme: a editora ainda alimenta a esperança de convertê-lo aos gibis e, em tese, é mais fácil fazê-lo quando o personagem principal da série é o mesmo que as pessoas viram no cinema.

Em tese, também, faz sentido entregar essa série para Jason Aaron e Chris Bachalo. Eles não são apenas dois dos nomes mais conhecidos da editora: são também uma dupla funcional, responsável pela última série mutante [Wolverine and the X-Men] a fazer sucesso em algum sentido.

Mas a Nova Marvel é como o escorpião da fábula: não consegue contrariar a sua natureza. Não adianta dar para o personagem o mesmo nome e aparência daquele que fez sucesso no cinema: as pessoas não foram lá procurar uma aliteração e opções duvidosas sobre pelagem facial. E, do personagem do filme [e até mesmo do personagem dos quadrinhos, ao menos em sua versão "tradicional", na falta de uma palavra melhor], é apenas isso que o Dr. Estranho de Aaron e Bachalo manteve.

O "novo" Dr. Estranho [literalmente: a aparência dele é de um jovem; a culpa pode ser exclusivamente de Bachalo, que só sabe desenhar adolescentes] é descolado, engraçadinho e complexado de uma forma que o personagem nunca foi antes.

FROM HELL E WATCHMEN: QUADRINHOS REPETIDOS

* * * *
Alan Moore é um tarado da linguagem dos gibis. Oskari Rantala escreveu um artigo para explicar uma das formas pelas quais isso se manifesta: o uso de quadrinhos repetidos dentro de uma mesma hq [especificamente, From Hell e Watchmen]. O artigo saiu na Nordic Journal of Science Fiction André Fantasy Research.

A tese é que, em Watchmen e From Hell, a repetição de quadrinhos é usada para "representar a cognição super-humana do Dr. Manhattan" e "as experiências mágicas do sir William Gull".


Para mostrar isso, ele analisa Watchmen #4 e o capítulo 14 de From Hell. O primeiro é o gibi do Dr. Manhattan em Marte. O segundo, é o capítulo que "revela o conceito mais especulativo de From Hell: os assassinatos do Estripador são apenas parte da monstruosa arquitetura da história, e o assassino estava, ao menos parcialmente, dirigido por forças escuras e ctônico". [QUADRINHOS]

G. WILLOW WILSON: TATUAGEM NO CÓCCIX

* * * *
Jia Tolentino escreveu um perfil de G. Willow Wilson, a roteirista de Ms. Marvel, para a revista The New Yorker. O tom é evidentemente celebratório, mas o perfil é informativo.

Dá para descobrir que Wilson é uma muçulmana "secularizada" [ainda que não dê para saber o que isso significa]. Filha de "esquerdistas seculares que abandonaram o protestantismo nos anos 60" para os quais "o ateísmo não era apenas cientificamente certo, mas moralmente imperativo".

Depois de enfrentar problemas de saúde e flertar com o budismo, cristianismo, judaísmo, se decidiu pelo islã [ou pelo menos por aquela versão que não tem espaço nos países islâmicos]: "como uma boa universitária, fez uma tatuagem no cóccix: diz 'al haq', que significa 'verdade absoluta'". [QUADRINHOS]