SUPER-HOMEM E MOISÉS: PAPO FURADO

* * * *
Martin Lund, escritor de Re-Constructing the Man of Steel: Superman 1938-1941, Jewish American History, and the Invention of the Jewish-Comics Connection, foi entrevistado por Noah Berlatsky. A entrevista foi publicada no Literary Hub. O livro é uma análise das raízes judias do Homem de Aço -- no caso, para desmenti-las: “quando comecei a ir fundo, para situá-lo no contexto histórico, as coisas não encaixavam”.


Não é como se a inspiração bíblica ou folclórica não existisse: “Sansão, por exemplo, é uma parte evidente da mistura” e “pode existir alguma conexão com a narrativa do Êxodo, pelo menos nas primeiras histórias”. No entanto, “claro que existem similaridades superficiais entre o Super-Homem e Moisés, mas são em um nível tão geral que é tão fácil quando fazer paralelos com Jesus ou Sargon de Akkad”.

Conforme Lund, “a atração das comunidades judeu-americanas à americanização e a força do antissemitismo na sociedade americana foram muito mais importantes na caracterização original do Super-Homem do que qualquer semelhança com Moisés ou o golem. O Super-Homem, de certa forma, pode ser uma forma dos seus criadores mostrarem como eles entendiam os valores americanos porque, claro, eles também eram americanos”. [QUADRINHOS]

"A ADMIRAÇÃO DE ALAN MOORE POR STEVE DITKO FAZ DE RORSCHACH UMA FIGURA DO ARTISTA DESCOMPROMETIDO"

* * * *
Saiu uma nova edição da ImageTexT, a revista acadêmica de estudos sobre quadrinhos. De interessante, temos uma rodada de resenhas de livros sobre gibis: Gothic in Comics and Graphic Novels, de Julia Round, Considering Watchmen, de Andrew Hoberek, e Soul of the Dark Knight, de Alex M. Wainer.


Gothic in Comics and Graphic Novels foi resenhado por Jaquelin Elliott. Sim, o livro tem um capítulo com Foucault e Derrida, mas o grosso do estudo se concentra na “Invasão Britânica e o lançamento do selo Vertigo”, “com atenção especial para as raízes na tradição do terror do selo sob a direção de Karen Berger”: “é onde a análise de Roud é melhor e mais convincente”.


Mitch Murray resenhou Considering Watchmen. Um dos pontos fortes, ele diz, “é a sua fascinante pesquisa biográfica, que ilustra à aspiração de Moore à autonomia artística”: “é uma situação que tem no conflito entre Rorschach e Adrian Veidt” uma “alegoria”. “Rorschach foi inspirado no personagem Questão, de Steve Ditko, criado depois que ele saiu da Marvel em disputa com Stan Lee e o proprietário da Marvel Martin Goodman sobre o lucro e o controle criativo sobre o Homem-Aranha. A admiração de Alan Moore por Ditko faz de Rorschach uma ‘figura do artista descomprometido’, enquanto Veidt, cuja corporação tem o copyright dos Minutemen e vende brinquedos e memorabilia, representa a indústria dos quadrinhos”.


Para terminar, Soul of the Dark Knight: Batman as Mythic Figure in Comics and Film foi resenhado por Megan Fowler. O livro, diz Fowler, “usa o Batman como um estudo de caso para analisar os quadrinhos como o meio ideal para capturar o mítico. Além disso, Wainer avalia a abordagem aos elementos míticos do Batman em vários filmes e adaptações para a televisão”. [QUADRINHOS]

LARRY HAMA: “O TRABALHO DOS MEUS SONHOS ERA ESCREVER O TIO PATINHAS”

* * * *
Steve Morris entrevistou Larry Hama. Por aqui, ele é mais conhecido pela sua fase como escritor do gibi do Wolverine. A entrevista foi publicada no Comics Alliance, e fez parte da seção Five Stars. Nela, Morris discute com um quadrinista os cinco trabalhos mais importantes em sua carreira -- no caso de Hama, o período em que ele foi editor da revista Crazy, escritor e desenhista do gibi dos Comandos em Ação e de Nth Man: The Ultimate Ninja, escritor das séries Echo of Futurepast e Call of Duty: Black Ops III.

Mas a melhor parte não é com ele falando desses gibis, ou do Wolverine: é ele contando umas batalhas dos bastidores da Marvel no início dos anos 80 [onde editava a Crazy]. Tipo essa: “meu escritório era conhecido como o bunker porque tinha uma parede de arquivo entre eu e o corredor. Tudo que tinha no meu escritório era roubado porque Dorothy, do departamento de recursos humanos, não gostava de mim, e mandou um memorando dizendo que eu não poderia receber nada de móveis de ponta, etc (sabia disso porque a primeira coisa que eu fiz foi subornar o pessoal da sala de correspondências, dei um suborno para que eles me mandassem cópias dos memorandos que tratavam de mim).

“Jim Owsley”, o quadrinista atualmente conhecido como Christopher Priest, “costumávamos entrar escondidos no décimo andar, onde todos os caras de terno e bem penteados trabalhavam depois do expediente, e roubávamos os móveis. Eu tinha um belo sofá de couro, que nós roubamos do escritório do contador. Meses depois, ele desceu para falar comigo e sentou no seu antigo sofá, sem perceber. Quando deixei o trabalho de editoria, dei o sofá para Mark Gruenwald”. [QUADRINHOS]

MOTOQUEIRO FANTASMA #1, MÁQUINA DA VINGANÇA, DE FELIPE SMITH E TRADD MOORE

* * * *
Motoqueiro Fantasma, edição 1 - Máquina da Vingança
Felipe Smith, Tradd Moore, Nelson Daniel e Val Staples
[Panini, 2017]

No final de março deste ano, David Gabriel, vice-presidente de vendas da Marvel, disse em entrevista ao site Icv2 que, conforme reclamações de lojistas que chegaram aos seus ouvidos, a queda nas vendas dos gibis da editora era uma reação à “diversidade” dos seus novos personagens. 

Com isso, o que Gabriel está dizendo é que o problema não são as histórias que a editora publica, mas os leitores tradicionais, preconceituosos demais para comprar gibis protagonizados por minorias. Eles só estariam dispostos a comprar gibis de personagens que sejam um reflexo deles mesmos: é por isso, imagino, que os gibis da Marvel costumam vender bem apenas em Nova Iorque; também é por isso que temos tantos heróis gordos, espinhentos e com problemas sociais.

Não sei o que faz a Marvel vender ou deixar de vender gibis. Sei, no entanto, ler os gibis. Fazendo isso, fica mais fácil diagnosticar um problema que não dá para terceirizar tão facilmente.

Caso em análise: o Motoqueiro Fantasma de Felipe Smith e Tradd Moore.


O PANTERA NEGRA DE TA-NEHISI COATES E BRIAN STELFREEZE: “DISPERSO E ARRASTADO”

* * * *
Kerry James Marshall resenhou as duas primeiras edições da nova série do Pantera Negra, escrita por Ta-Nehisi Coates, desenhada por Brian Stelfreeze e colorida Laura Martin. Foi na revista chique de arte contemporânea Art ForumO resumo é: “meh”.

A avaliação se estende tanto para o roteiro, quanto para a arte: “a linguagem da primeira edição parece dispersa e arrastada. Em vez de um diálogo vivo, Coates abre com um lamento solipsista no mesmo tom dos monólogos de déspotas como o antigo ditador do Zaire Mobutu Sese Seko ou o eterno presidente do Zimbábue, Robert Mugabe. Junto com a linguagem sem graça, os layouts de página, pobres de design, e composições fracas, quase perfunctórias, sem qualquer personalidade ou detalhe. Pode ser que seja isso que Stelfreeze quis dizer quando falou que ‘como criador, tento ser invisível’”. [QUADRINHOS]