DICK TRACY, DE CHESTER GOULD: “LOUCURA AMERICANA”

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Frank Young, no The Comics Journal, escreveu um artigo sobre “o louco fascínio” que exercem as tiras de Dick Tracy, de Chester Gould. “É uma loucura delirante, mas é uma loucura tipicamente americana”.

É que “o trabalho de Gould se aconchegava no interior da psique americana dos anos 30, 40 e 50. Era uma época incerta e violenta, e a ameaça do gangsterismo, o ímpeto de Tracy em 1931, deram lugar ao nosso medo nacional do fascismo, nazismo, comunismo e guerra nuclear. Dick Tracy ao mesmo tempo celebrava e apaziguava esses medos compartilhados”.


Fazia isso através de “uma mistura de violência grand guignol, comédia desajeitada e procedimentos policiais sinistros”, mostrando “como um indivíduo vira um criminoso, e então como o criminoso é afastado da sociedade em direção a um limbo de perseguição e captura, com a prisão ou a morte esperando no final”. [QUADRINHOS]

ENTRE O BIG-BANG E A ACTION COMICS #1

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Jess Nevins resenhou o novo livro de Chris Gavaler, On the Origin of Superheroes: From the Big Bang to Action Comics No. 1. Foi no Los Angeles Review of Books. O objetivo do livro é narrar a história dos proto super-heróis, que influenciaram a criação do Super-Homem, seus colegas e as suas influências diretas.

Existe um vácuo na bibliografia sobre isso: como diz Nevins, “precisamos de uma análise compreensiva da história da literatura popular, focada em catalogar os proto super-heróis. A Epopeia de Gilgamesh, por exemplo, tem dois personagens super-humanos, Gilgamesh e Enkidu”. Podemos dizer que Enkidu “é um proto super-herói, o primeiro de vários na história da literatura popular. Personagens como Robin Hood e Rei Arthur têm elementos super-heroicos, e exerceram uma evidente influência sobre eles”. 


Existem vários outros: “Moll Cutpurse, inspirado em Mary Frith (aproximadamente 1584–1659), que apareceu na peça The Roaring Girle; or, Moll Cut-Purse, de T. Middleton e T. Dekker, de 1611, é uma vigilante urbana que combate o crime, a primeira na literatura popular, e tem identidade secreta e codinome. The Masque, de Thomas Quincey, do seu Klosterheim (1832), é um vigilante com identidade secreta e que usa um disfarce, que luta contra a opressão e controla a cidade de forma tão firme quanto Batman em Gotham City; Klosterheim, reconhecidamente, ainda era ensinado quando Bill Finger e Bob Kane estavam na escola. Várias revistas no final dos anos 90 da década do século XIX e no início do século XX, publicavam histórias de personagens que lutavam contra o crime, modeladas no mundialmente famoso strongman Eugen Sandow (1867–1925), que tinha força sobre-humana. Essas revistas foram lidas e influenciaram os criadores de heróis de revistas pulp mais famosas, que, por sua vez, influenciaram a primeira geração dos super-heróis dos quadrinhos”.

O livro de Gavaler, no entanto, não ocupa esse espaço: ao contrário do que o seu título sugere, “ele não oferece uma história dos super-heróis, mas uma meditação. Isso é infeliz: a abordagem pontual impede a explicação histórica e a contextualização que o assunto implora”. [QUADRINHOS]

CAGE, DE BRIAN AZZARELLO, RICHARD CORBEN E JOSÉ VILLARRUBIA: UM OUTRO LUKE CAGE

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Cage
Brian Azzarello, Richard Corben e José Villarrubia
[Marvel, 2002]

Com o lançamento da série do Netflix, multiplicaram-se na Internet lista de gibis do Luke Cage para apresentá-lo aos eventuais novos interessados. Cage, de Brian Azzarello, Richard Corben e José Villarrubia, estava em quase todas elas. É um fato que diz muito sobre a “carreira” do personagem nos quadrinhos: não porque Cage seja um gibi ruim [não é], mas porque as duas séries não poderiam ser mais diferentes. 

Cada uma trata Luke Cage e o seu universo de uma forma oposta. Em comum, nem o título: o “Cage” do gibi, diferentemente do “Luke Cage” do Netflix, é um jogo de palavras. É tanto o sobrenome do codinome do protagonista [me senti um pouco bobo escrevendo isso, mas tudo bem], quanto o significado literal da palavra, “jaula”, uma referência tanto ao passado do protagonista quanto à violência da história do gibi. 

É que Cage surgiu quando a Marvel estava sob o controle de Bill Jemas, um homem empenhado em romper com o CCA e fugir do moralismo. Foi publicada no selo Max, criado exatamente com esse propósito [que não era, felizmente, irrestrito: Villarrubia cobriu com a colorização um quadrinho de nudez frontal parcial de Luke]. Tem por roteirista um Azzarello que fez do cinismo um modo de vida.

PATIENCE, DE DANIEL CLOWES: “COMO UMA HISTÓRIA ESTRANHA DA DC OU DA EC DOS ANOS 50 E 60”

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Estamos quase acabando com as resenhas de Patience, de Daniel Clowes. Essa é de Chris Mautner, para o The Smart Set. Em tese, ele não gostou muito do gibi -- o que é engraçado, porque ele parece só falar coisas boas sobre ele.

Quer ver? “Patience parece uma carta de amor para as influências primárias de Clowes: artistas como Curt Swan, Bob Powell, Steve Ditko, Jack Kamen e Johnny Craig. Ainda que seja mais detalhado e sofisticado que os seus predecessores, Patience passa a sensação de estar no mesmo campeonato que as histórias mais diferentes que editoras como a DC e a EC costumavam publicar nos anos 50 e 60”. [QUADRINHOS]

BATMAN VS SUPERMAN, DE ZACK SNYDER: CONTRA O LEVIATÃ

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Christopher Morrisey, do Imaginative Conservative, assistiu Batman vs Superman: A Origem da Justiça [o filme de Zack Snyder] e voltou com uma análise filosófica-política. O título é “Batman e o Leviatã: Super-heróis no estado de natureza” e envolve Aristóteles e Thomas Hobbes.

Ele começa diferenciando Batman vs Superman dos filmes dos X-Men -- enquanto que os mutantes são injustamente perseguidos em uma história sobre discriminação, no universo da DC “é apresentada uma nova ideia desafiadora: e se os super-heróis que querem fazer o bem da sociedade, e serem aceitos como os mocinhos, são rejeitados a pesar de suas melhores intenções?”.


“O que o filme destaca de forma mais apurada”, conforme Morrisey, é “a tentação de qualquer 'meta-humano' de viver conforme a primeira Lei da Natureza de Hobbes” [todo homem deve esforçar-se pela paz, enquanto tenha esperança de alcançá-la; e quando não puder alcançá-la, pode procurar e usar os meios de ajuda da e vantagens da guerra]. “Porque qualquer super-herói, por simplesmente ser um super-herói, sempre estará de volta no estado de natureza. A pesar de suas melhores intenções, o uso dos seus superpoderes imediatamente aliena ele do contrato social. Qualquer uso unilateral de força por parte dele irrevogavelmente faz dele um rival do Leviatã”. [ETCETERA]