MARVELS, DE KURT BUSIEK E ALEX ROSS: TERRÍVEIS MARAVILHAS

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Marvels
Kurt Busiek e Alex Ross
[Marvel, 2017]

As poucas resenhas que existem sobre Marvels costumam explicar a minissérie como o marco inaugural de uma nova “Era” dos quadrinhos, batizada, provavelmente por fãs de quadrinhos que se dão mais importância do que deveriam, de Renascença. 

Grant Morrison, que talvez seja o fã de quadrinhos que se dá mais importância do que deveria arquetípico, é um deles: no seu livro SupergodsMarvels é o primeiro gibi da lista de leituras recomendadas do período.

Morrison não é um qualquer para falar sobre o assunto. Na segunda metade dos anos 90, o auge da [suposta] Renascença dos quadrinhos, ele era a principal estrela da indústria americana [ainda que isso, em grande parte, seja por conta do auto-exílio de Alan Moore e Neil Gaiman]: desde então, o seu nome passou a estar associado à reapropriação ao mesmo tempo nostálgica e irônica de ideias da Era de Prata, uma das características daquela “Era”.

Se vista desde perto, no entanto, essa análise é superficial.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E OS MANGÁS

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Analía S. Costa escreveu um artigo, na Revista de Filología Románica [publicada pela Universidad Complutense de Madrid] sobre como a Segunda Guerra Mundial foi “lembrada e representada” nos mangás durante o pós-guerra. Tem Keiji Nakazawa, Shigeru Mizuki e Osamu Tezuka.

Ela escolheu sete mangás, publicados entre 1961 e 1998: Zero-sen Redo [1961], de Hiroshi Kaizuka, Shindekai no Taka [1963-1965], de Tetsuya Chiba, Gen, Pés Descalços [1973-1975], de Nakazawa, Sōin gyokusai seyo! [1973], de Mizuki, Adolf [1983-1985], de Tezuka, e Sensō ron [1998]: de Kobayashi Yoshinori.


Esses mangás, é a tese dela, refletem o discurso dominante sobre a guerra nas épocas em que foram publicados: alguns tratam os soldados como heróis que foram explorados pelas autoridades, outros retratam o país como uma vítima da guerra.

Gen, Pés Descalços está na segunda categoria: “ainda que nos anos 70 muitos mangás tivessem como tema principal a crítica à guerra, poucos denunciaram os crimes de guerra cometidos pelo exército japonês. Por isso, o Japão seguiu aparecendo como uma vítima, não apenas da bomba atômica e, portanto, dos EUA, mas também do seu próprio passado militarizado”. [QUADRINHOS]

FRANK MILLER: “O BATMAN DE DK2 É UM REVOLUCIONÁRIO”

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A dissertação de mestrado de Stephen Matthew Jones de tal foi sobre o heroísmo nos gibis de Frank Miller. Ele fala especialmente de Sin City, o filme, e O Cavaleiro das Trevas 2. O objetivo é estudar “o que a sociedade considera um modelo heroico, e se esse modelo pode ser visto como progressista ou opressivo em relação aos grupos não-dominantes”, mas alguns insights são interessantes e Northrop Frye está na bibliografia.

O que Jones faz é relativizar o beco politicamente incorreto no qual Miller, em tese, se encurralou. Assim, ele trata o Batman de Cavaleiro das Trevas 2 como um revolucionário e enfatiza o papel das prostitutas de Old Town como símbolos da luta contra o patriarcado.

Ainda que sim, seja de uma forna "problemática"

No processo, faz algumas análises interessantes, não apenas sobre Cavaleiro das Trevas 2 e Sin City [belamente dissecado e analisado como filme noir], mas também sobre outros grandes gibis de sua carreira. Como Elektra Assassina e Born Again: “Elektra é um modelo do herói existencial, um tipo autodeterminado que é recorrente na obra de Miller. Como em Born Again, o herói individual serve melhor aos interesses do país que agentes do governo com alianças cegas”. [QUADRINHOS]

WILL EISNER E CHARLES M. SCHULZ: É A GUERRA

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Malin Bergström escreveu a sua dissertação de mestrado sobre como Will Eisner e Charles Schulz retratam a guerra nos seus gibis. No caso de Eisner, a hq analisada foi Ao Coração da Tempestade. No de Schulz, evidentemente, foi Peanuts.

Pode te parecer estranho que a tira do Snoopy, mas uma das coisas que Bergström explica é como o acampamento de verão para o qual Charlie Brown era anulamente enviado funcionava, frequentemente, como uma figura de linguagem para a convocação de um soldado.

O que Bergström faz é comparar o que as hqs e os autores tem em comum. Os dois, por exemplo, participaram da Segunda Guerra Mundial e tratam o "serviço militar como uma oportunidade para crescer e madurar".

No entanto, Schulz, que de fato foi para a linha de frente, "deixou de ser um indivíduo isolado e tímido, e desenvolveu uma carreira militar", descrevendo "o retorno para a vida de civil como anti-climático". Em Peanuts, ele "trabalha de forma consciente para lembrar a Guerra Mundial", comemorando os seus veteranos e lembrando do Dia D de forma anual. 


Enquanto isso, Eisner, ainda que tenha se tornado "decidido em servir ao seu país na guerra" depois de convocado, não deixou o "homefront", sem ir à frente de batalha. Ele opta, no entanto, "por não mostrar esse fato aos leitores. A sua decisão de se focar apenas na jornada para a base militar permite que a Eisner conectar a sua narrativa à memória coletiva da convocação, ainda que a verdadeira experiência do convocado seja significativamente diferente".  [QUADRINHOS]

DOUTOR ESTRANHO, DE JASON AARON E CHRIS BACHALO: CONTRA NEWTON

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Doutor Estranho, #1-6
Jason Aaron, Chris Bachalo, Tim Townsend, Al Vey, Mark Irwin, Victor Olazaba, Jaime Mendoza e John Livesay
[Panini, 2016-2017]

É fácil entender por que, ao relançar o gibi do Dr. Estranho, a Marvel não decidiu trocar Stephan Strange por outro personagem mais novo, modernoso e de alguma minoria. A ideia, evidentemente, era ter uma série pronta para o público do filme: a editora ainda alimenta a esperança de convertê-lo aos gibis e, em tese, é mais fácil fazê-lo quando o personagem principal da série é o mesmo que as pessoas viram no cinema.

Em tese, também, faz sentido entregar essa série para Jason Aaron e Chris Bachalo. Eles não são apenas dois dos nomes mais conhecidos da editora: são também uma dupla funcional, responsável pela última série mutante [Wolverine and the X-Men] a fazer sucesso em algum sentido.

Mas a Nova Marvel é como o escorpião da fábula: não consegue contrariar a sua natureza. Não adianta dar para o personagem o mesmo nome e aparência daquele que fez sucesso no cinema: as pessoas não foram lá procurar uma aliteração e opções duvidosas sobre pelagem facial. E, do personagem do filme [e até mesmo do personagem dos quadrinhos, ao menos em sua versão "tradicional", na falta de uma palavra melhor], é apenas isso que o Dr. Estranho de Aaron e Bachalo manteve.

O "novo" Dr. Estranho [literalmente: a aparência dele é de um jovem; a culpa pode ser exclusivamente de Bachalo, que só sabe desenhar adolescentes] é descolado, engraçadinho e complexado de uma forma que o personagem nunca foi antes.