HOWARD CHAYKIN: “MEU PLANO É MORRER NA MESA DE DESENHO”

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Howard Chaykin [American Flagg!, Satellite Sam] foi entrevistado por Peter Mann, na Trip Wire Magazine. Os dois repassam a carreira de Chaykin, progressivamente, com uma pequena parada para dar uns jabs em Grant Morrison.

Vamos começar pelo início. Chaykin começou a sua carreira como aprendiz de Gil Kane e Wally Wood: “fazia pequenos trabalhos para Gil, e escutava e absorvia o monólogo que ia do início ao fim do dia de trabalho. Gil era um homem com opiniões fortes, mas, ao contrário das pessoas com opiniões fortes hoje em dia, ele era muito bem informado. O ano que eu trabalhei para ele informa extremamente a minha forma de pensar, sobre o processo criativo nos quadrinhos e sobre tudo na minha vida e experiência. Gil era um homem difícil, para não falar de sua ética escorregadia, mas eu amava ele, mesmo com os seus defeitos, e sinto muito a falta dele”.

Ele odeia esse trabalho aqui, a propósito.
Wood é outro papo: “trabalhei com ele por menos de um ano. Woody se odiava tão profundamente, e era tão autodestrutivo, que quando eu conheci ele, ele era um fantasma, um eco fraco do talento arrebatador que ele era nos cinquenta e nos sessenta. Então, eu queria ser o Gil Kane quando crescesse, mas vivia com medo de acabar como Wallace Wood.

Mas eu sei que vocês vieram aqui pra ver o que ele tem pra dizer sobre Morrison: “a falta de humor com a qual o Sr. Morrison trata a si mesmo só é superada pela sua automistificação quase paródica, o que um dos meus amigos jovens disse que é a sua marca pessoal”. [QUADRINHOS]

TREES, DE WARREN ELLIS E JASON HOWARD: “ESCRITA NETFLIX”

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Tentaram resenhar as quatro primeiras edições de Trees, novo gibi de Warren Ellis e Jason Howard lançado nos EUA pela Image, no Fumettologica. Não deu: é muita descompressão.

O artigo se vira falando sobre como os quadrinhos americanos sofrem com a narrativa descomprimida: “da velha concepção de episódio piloto -- uma estreia que dá uma ideia clara, ainda que só como potencial, da série -- não sobrou nada. Fomos privados das ferramentas que nos permitiam saber se era o caso de continuar a investir o nosso tempo/dinheiro já no primeiro contato com alguma nova propriedade intelectual”.


Atualmente, Ellis levou isso “ao próximo nível”: “é o que muitos críticos estão começando a chamar de escrita Netflix. Não existe mais um segmento que desperte interesse, ainda que subordinado a uma trama horizontal maior, mas um filme de 12 ou 13 horas dividido de forma regular”. [QUADRINHOS]

THE CAPED CRUSADER: BATMAN AND THE RISE OF NERD CULTURE, DE GLEN WELDON: FOFOCAS, ESOTERIA DE QUADRINHOS, FÚRIA NERD”

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Depois Superman: The Unauthorized Biography, Glen Weldon partiu pra cima do outro grande herói da DC: o seu novo livro é The Caped Crusade: Batman and the Rise of Nerd Culture. Jennifer Senior, do New York Times, escreveu uma resenha.

Ela diz que o livro é “um carro de fuga para guilty plesures: fofocas de filmes, esoteria de gibis, histórias hilárias de fúria nerd”, mas com alguns problemas: “em alguns momentos, o maior vilão deste livro não é o Coringa, mas o Espantalho, um truque retórico no qual o Sr. Weldon se apoia demais. E as vezes o Sr. Weldon parece o Comic Book Guy dos Simpsons, escrevendo com o mesmo pedantismo e detalhismo excessivo”. [QUADRINHOS]

DANIEL CLOWES: “ERA MELHOR EVITAR TUDO ISSO E TENTAR FAZER TUDO NA MINHA PEQUENA SALA HERMÉTICA”

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“Meu modelo para escrever ficção é replicar a sensação de um sonho”. Você aí que leu Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro já deve ter percebido isso. Mas essa foi uma das coisas que Daniel Clowes [Ghost World] falou para Jessica Gross nessa entrevista publicada no Longreads.

Clowes e Gross falam, principalmente, de Patience, novo gibi do quadrinista. Clowes comenta sobre o processo de criação de gibi. Envolve isolamento: “quando eu e minha esposa começamos a morar juntos, as vezes ela olhava para um quadrinho e dizia algo como 'ah, pensei que isso fosse a perna do cara no fundo, mas na verdade um prédio'. Alguma coisa inócua assim. Mas, imediatamente, a minha percepção inteira mudaria. Achava isso muito debilitante. Então achei que era melhor evitar tudo isso e tentar fazer tudo na minha pequena sala hermética”.

Em Patience, ainda, ele se esforçou para ser acessível: “Queria trabalhar em vários níveis, mas queria com certeza trabalhar em um nível primário de fazer uma história desfrutável onde a trama vai em um sentido e tudo encaixa. Não é algo que me seja muito fácil”. [QUADRINHOS]

DAVID MAZZUCCHELLI: “MAIS REALISTA E MAIS ABSTRATO”

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Hoje é aniversário de David Mazzucchelli. Responsável pelo desenho de Batman: Ano Um e Born Again, e um dos meus desenhistas de super-heróis favoritos, está fazendo 56 anos. É propício que eu tenha na manga, portanto, esse artigo de Luis Miguel Lus Arana, disponível no site Homines. Originalmente publicado na revista de arquitetura Aequus, o que o basco Lus Arana faz é contar, com um pouco de análise crítica, a carreira de Mazzucchelli nos quadrinhos. 

O artigo se chama “El Naturalismo expresionista” e é dividido em três partes. Na primeira, Lus Arana faz um apanhado da biografia de Mazzucchelli. David John Mazzucchelli, como H. P. Lovecraft, nasceu em Providence, a capital de Rhode Island. Aos 18 anos, começou a frequentar a Rhode Island School of Design. Lá, redescobriu os quadrinhos de super-heróis [que abandonara aos 11 anos de idade] e conheceu Richmond Lewis [que depois se tornaria a sua esposa e colorista frequente].

Ao sair de lá, começou a trabalhar para a Marvel: desenhou uma edição de Master Of Kung-Fu [#121, no início de 1983, arte-finalizada por Vince Colletta], uma de The Further Adventures of Indiana Jones [#14, no ano seguinte], uma edição de uma das séries de Guerra nas Estrelas arte-finalizado por Tom Palmer] e Marvel Team Up Annual #7 [arte-finalizado por Bret Breeding]. 

Foi Bob Budiansky que viu isso e decidiu dar uma chance para Mazzucchelli na série do Demolidor. A sua primeira edição foi a #206. Ficou na série por apenas 25 edições. O suficiente, na época, para torná-lo o terceiro desenhista da série que mais edições desenhou [atrás de Gene Colan e Frank Miller].


Também foi o suficiente para colocá-lo como desenhista de Born Again, quando Miller substituiu Dennis O'Neil nos roteiros da série. Como nos diz a história, deu certo. Os dois levaram a parceria para a DC, onde reescreveram a origem do Batman em Ano Um [entre 1986 e 1987]. São dois dos melhores gibis de super-heróis que você pode ler.

Depois de Ano Um, Mazzucchelli reduziu o ritmo: dali até o final da década de oitenta, somente desenhou X-Factor #16 [1987] e uma história curta para a revista Marvel Fanfare #40 [Chiaroscuro, em 1988, escrita por Ann Nocenti]. Formou uma banda e tirou um ano meio sabático.


Voltou para os quadrinhos, mas não para os super-heróis: em 1991, enviou uma história [Near Miss] para Art Spiegelman, com o objetivo de que ela fosse publicada pela RAW. Foi recusada, o que levou Mazzucchelli a criar a Rubber Blanket, onde começaria a publicar as suas histórias. Spiegelman, no entanto, se manteve como um contato valioso: foi ele que apresentou o desenhista para Paul Karasik. Juntos, os dois adaptariam para os quadrinhos o livro City of Glass, de Paul Auster.

Spiegelman também fez de Mazzucchelli um colaborador frequente da The New Yorker [onde o quadrinista de Maus ainda trabalha]. Também foi Spiegelman que convidou ele a colaborar com a antologia infantil Little Lit [que chegou a ser publicada no Brasil pela Conrad], em 2000. Na mesma época, Mazzucchelli engatou um tour pelo japão, convidado pela Japan/U.S. Friendship Commission Creative Artist Fellowship. Ficou por lá seis meses. No período, publicou Still Life [na revista Zero Zero #27] e The Boy Who Loved Comics [The Comics Journal Special #1].

De volta aos EUA, se dedicou ao ensino [é professor da Rhode Island School of Design e School of Visual Arts de Nova Iorque]. A carreira de professor foi brevemente interrompida para o lançamento da excelente Asterios Polyp, a sua primeira hq longa em décadas.

Na segunda e na terceira parte, Lus Arana é mais analítico. Na II, ele vai do início da carreira de Mazzucchelli até Born Again. É um período no qual o seu traço vai do “realismo clássico”, “imitando com sucesso o estilo de Gene Colan”, ao naturalismo: “ele se torna simultaneamente mais realista e mais abstrato. Chester Gould, Jesús Blasco, Alex Toth... os grandes das hqs noir serão incorporados, depois de destilados, a um trabalho obrigatoriamente escuro, de traços grossos, mas ainda surpreendem ente detalhado e até mesmo detalhista”.

A terceira parte fala basicamente de Ano Um. Nela, o próprio Miller é mais eloquente que Lus Arana: “Tem um nível de textura e credibilidade que David coloca no seu trabalho que me convence constantemente de que o que eu estou lendo, está acontecendo. Em Batman: Ano Um ele converteu em tridimensionais cada um dos personagens, faz crível cada situação”. [MEMÓRIA] [QUADRINHOS]