“NA LITERATURA JAPONESA, PARA CADA PALAVRA ESCRITA EXISTEM TRÊS NÃO ESCRITAS”

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Zack Davisson, que traduziu alguns mangás de Shigeru Mizuki para a Drawn and Quarterly [como Showa: A History of Japan], escreveu um artigo para o The Comics Journal descrevendo as dificuldades enfrentadas para se traduzir um mangá para o inglês. O mote é a “Regra de Rubin”: “ela vem de Jay Rubin, que traduziu as obras de Haruki Murakami e é um dos mais conhecidos tradutores de japonês para inglês. Ele disse em uma entrevista: 'quando você lê Murakami [em inglês], você está me lendo, pelo menos 95% do tempo”.

É que, ao traduzir do japonês para o inglês, “a tradução direta produz um papo furado impossível de se ler. Até mesmo reorganizado as palavras conforme a gramática inglesa resulta em uma bobagem vazia”. O problema é que “o japonês não é fácil de se traduzir. É um idioma altamente contextual, ao contrário de um idioma pouco contextual como o inglês. Isso significa que um japonês pode usar menos palavras, e apostar mais no contexto cultural, para comunicar o que está acontecendo em cena. Já se disse que na literatura japonesa, para cada palavra na página existem três não escritas. Se espera que os leitores preencham os espaços vazios”.

No processo, Davisson dá insights sobre alguns mangakas que ele traduziu, como Mamoru Oshii: “os diálogos dele são, de longe, os mais difíceis. Oshii se esforça para usar frases obtusas e kanji difícil”.

Também vale a pena dar uma olhada nos comentários. Vários tradutores/comentaristas de mangá passaram por lá [como Andrew Cunningham, Federica Lippi, Diana Schutz, Ryan Holmberg e Joe McCulloch]. Holmberg faz um comentário interessante sobre Mizuki: “existem questões importantes sobre a autoria de Mizuki até mesmo nos originais japoneses. Não estou falando só da origem de Kitaro, mas do fato de que, ao final dos anos 60, não é claro o quanto Mizuki colaborou pessoalmente para obras individuais. Aparentemente, nos 80, a situação era tão extrema que ele contratava artistas razoavelmente conhecidos [mas enfrentando dificuldades] para produzir histórias para ele do zero, do conceito à arte final”. [QUADRINHOS]

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