JOHN ROMITA SR., 86 ANOS: "SE O STAN LEE ME LIGAR, DIGA PARA ELE IR PARA O INFERNO"

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Ontem foi aniversário de John Romita Sr., um dos mais marcantes desenhistas do Homem-Aranha e a personificação do estilo visual padrão da Marvel por quase 25 anos. A fase dele em The Amazing Spider-Man foi a minha porta de entrada para os gibis clássicos da Marvel. Esses fatores justificam um MEMÓRIA. Ajuda que grande parte da entrevista que ele deu para a revista Comic Book Artist #6, da TwoMorrows Publishing, esteja on-line. Ela foi conduzida por Jon B. Cooke [criador e editor da revista] e originalmente publicada em 1999.

Romita começou a sua carreira nos quadrinhos na primeira encarnação da Marvel: trabalhou brevemente na Timely, no final da década de 40, e depois foi contratado por Stan Lee para trabalhar na Atlas, no início dos anos 50 [entre os dois trabalhos, foi recrutado pelo exército, onde fez o layout de pôsters de recrutamento].

Ficou lá até 1957, quando a editora começou a desmoronar. Acabou demitido pelo próprio Lee. Já naquela época, no entanto, trabalhava [sem receber créditos] nos gibis de romance da DC. Demitido da Atlas ["se Stan Lee me ligar, diga para ele ir para o inferno", teria dito para a sua esposa Virginia], passou a assinar as suas histórias e fez um nome: permaneceu no gênero, do qual é um dos artistas mais marcantes [o seu trabalho no período marcou Charles Burns] até a metade da década de 60.

O gênero, no entanto, murchou. Romita saiu da DC e procurou Lee, em busca de um emprego. Lee, bastante feliz por poder contar com o seu trabalho, colocou ele para desenhar algumas edições de Demolidor por cima de layouts de Jack Kirby: o seu estilo, influenciado pela narrativa cinematográfica de Noel Sickles, Milton Caniff e Alex Toth, precisava ganhar dinâmica e impacto. 

Saiu da série para assumir The Amazing Spider-Man na edição #39. Romita Sr. foi o homem encarregado de asfaltar o Homem-Aranha [ou "Os Homens-Aranha"?] de Steve Ditko: depois de desistir de emular o estilo de Ditko, se livrou da paranóia, deu para o personagem um queixo mais quadrado, namoradas bonitas [o background em gibis de romance certamente ajudou] e um pouco de sol para o cenário. Transformou a série no gibi mais vendido da Marvel. O padrão visual que ele deu para o personagem permaneceu intocado até a década de 90, quando Todd McFarlane se tornou seu desenhista.



Anos depois, também foi encarregado de substituir Kirby no Quarteto Fantástico, quando ele deixou a série [e a Marvel] no início dos anos 70. Se transformou no art director da Marvel em julho de 1973. Quase que dá para dizer que também substituiu O Rei nessa função: o cargo era de Lee, mas Kirby funcionava como um diretor de arte extraoficial. 

Na posição, virou alvo de Jim Starlin em Warlock: virou um palhaço conformista, encarregado de patrolar individualidades e pasteurizar o visual da linha Marvel, em Strange Tales #181, de 1974. Ele era, no final das contas, um quadrinista das antigas: sempre foi trabalhar de gravata e camisa branca bem passada.


Como art director, Romita praticamente deixou de desenhar as séries [tirando, é claro, os retoques que fazia sobre as artes dos outros desenhistas]. Ficou encarregado da tira de jornal do Homem-Aranha [o que foi a sua ocupação principal durante um período]. Saiu da editora em 1994, na época que ela foi a falência [junto com a sua esposa, que também trabalhava por lá], estressado por ter que demitir os seus amigos – um trauma não muito diferente daquele que Lee sofreu na Timely.

A entrevista chega até o momento que ele aceita fazer a tira de jornal do Homem-Aranha. É bastante detalhada e cheia de anedotas dos bastidores do tempo que Romita passou na DC e na Marvel. Por exemplo, Romita conta porque o seu padrinho no mundo dos quadrinhos foi Carmine Infantino: ele conseguiu que o irmão de Carmine, Jimmy Infantino, trabalhasse com ele nos pôsters do exército, evitando a sua ida para a Guerra da Coréia. “Carmine me disse: 'qualquer coisa que você precisar, me diga. Quer trabalhar na DC? Vou te indicar uns editores'. Ele ligou para Stan Lee e disse: 'qualquer trabalho que você tiver reservado para mim, dê para John Romita, eu devo um favor a ele'”.

Romita, aparentemente, também levou muito esporro. Na DC: “eu trabalhava muito com as coisas de Bob Kanigher. Ele me cumprimentou um dia no elevador, gostava do que eu estava fazendo com os gibis de romance. Na minha ingenuidade estúpida, eu disse: 'espero que você não se importe com as mudanças que fiz na história'. Ele quase pulou pelo teto do elevador! Ele disse: 'do que diabos você está falando?' Eu engoli seco e disse: 'as vezes eu coloco um quadrinho, ou tiro um quadrinho'. Ele me despedaçou antes de que nós chegássemos no lobby”.

Na Marvel: “algumas vezes, eu ligava para John Buscema (que é como seu eu ligasse para Milton Caniff e dissesse 'Milton, os teus pincéis estão velhos'). Tinha que dizer para John que os artistas filipinos não entendiam os rascunhos dele, não tinham certeza do que significavam algumas formas. John, é claro, gritava ao telefone, dizendo 'que tipo de babacas vocês tem trabalhando aí?'”. [MEMÓRIA] [QUADRINHOS]

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