SHIGERU MIZUKI, 1922-2015

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Morreu Shigeru Mizuki, vítima de problemas cardíacos. Ele estava hospitalizado desde o dia 11/11 por ter batido a cabeça em um acidente doméstico. Mizuki tinha 93 anos.

Nascido em Osaka em 1922, Mizuki foi recrutado pelo exército japonês e participou da Segunda Guerra Mundial -- para a gloriosa função de corneteiro. Foi transferido para Rabaul, na Papua-Nova Guiné, onde foi o único de sua companhia depois de um bombardeio Aliado. 

Quando finalmente conseguiu retornar para uma base japonesa, foi tratado como um desertor e condenado a um ataque suicida. Foi salvo por uma crise de Malária. Essa também colocou Mizuki em um hospital que foi igualmente bombardeado pelos Aliados: ele sobreviveu novamente, mas, canhoto, perdeu o braço esquerdo [em uma cirurgia conduzida por um... dentista].

Convalescente, conheceu membros da tribo Tolai. Acabou adotado pela tribo, que lhe chamava de Paulo [uma referência ao apóstolo]. Problemas na mal realizada amputação, no entanto, obrigou Mizuki a voltar para o Japão. Ele retornaria diversas vezes para Papua-Nova Guiné, inclusive em seus mangás: a vida entre os Tolai é um dos temas de Showa: A History of Japan, publicado nos EUA pela Drawn and Quarterly. 



A série rendeu diversos prêmios: nos EUA, ganhou o prêmio Eisner de Melhor Edição Americana de Material Estrangeiro – Asia; no Japão, as duas condecorações governamentais mais prestigiadas: Shiju Hosho, o Laço Púrpura, em 1991, e Kyokujitsu Sho, a Ordem do Sol Nascente, em 2003.

Showa: A History of Japan é um bom exemplo do trabalho de Mizuki pós-anos 80, quando ele se voltou para a sua experiência na guerra para enquadrá-la no contexto da história moderna do Japão. Antes disso, Mizuki já tinha se tornado popular nos anos 60 tanto como mangaka mainstream [graças à série Gegege no Kitaro] e alternativo [com Hitler, uma biografia debochada sobre os anos do ditador nazista como artista em Viena].

Gegege no Kitaro é o seu mangá mais marcante: foi fundamental para tornar o folclore japonês [yokai] novamente popular. Desde o seu lançamento nos anos 60, foi alvo de pelo menos uma adaptação para o animê por década e consolidou Mizuki não apenas como um dos mangakas mais importantes da história, mas também como um estudioso de yokai.

Mizuki, a pesar de sua avançada idade, ainda desenhava mangás: terminou Watashi no Hibi, que também trata sobre a segunda guerra, em maio. Era um dos mangakas de mais idade ainda em atividade e costumava postar fotos no seu Twitter comendo Big Macs.



Links? É claro. São dois: um de Zack Davisson, que traduziu Mizuki para a Drawn and Quarterly, publicado no seu próprio blogue, Hyakumonogatari Kaidankai. É sobre a passagem de Mizuki pela guerra e a sua relação com a tribo Tolai. E outro de Matthew Penney no Japan Focus, sobre os seus mangas de não-ficção.  [MEMÓRIA] [QUADRINHOS]

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