O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, DE WES ANDERSON: WIDESCREEN E STEFAN ZWEIG

* * * *
O Grande Hotel Budapeste, novo filme de Wes Anderson, é uma obra. A história de um hotel fictício, em um país fictício [Zubrowska, uma marca polaca de vodka] acossado por fascistas fictícios, é o mais engraçado, fantástico, narrativamente inventivo e literário filme de Anderson. Uma farsa com esteroides, também é o filme de Anderson que mais nerdismo analítico produziu na Internet, o que me deixa FELIZ.

Dois elementos foram alvo de análise em especial: a linguagem do filme, com o abundante uso dos planos perpendiculares que Anderson tanto gosta e a constante mudança no aspect ratio da imagem, e a sua dívida [expressamente reconhecida nos créditos finais] à obra do escritor austríaco Stefan Zweig [conhecido do lado de cá por ser o criador da expressão “Brasil, o país do futuro”].



No primeiro grupo temos David Bordwell, no seu próprio site, e David Haglund e Aisha Harris, na Slate. Bordwell falou sobre o que ele chama de “estilo planimétrico”, "a apresentação frontal da ação": “você enquadra as pessoas contra um cenário perpendicular, como se eles estivessem em um reconhecimento policial”. Bordwell falou como Anderson usa esse ângulo em seus filmes, com o objetivo de invocar “um mundo infantil” onde “os adultos parecem bonecos organizados” -- e os problemas que enfrenta ao fazê-lo, bem como as soluções adotadas.


Já Haglund e Harris trataram do aspect ratio usado: em O Grande Hotel Budapeste, Anderson usa diferentes proporções de tela conforme o momento histórico em que a história está ambientada -- refletem, conforme argumentou a dupla, a história cinematográfica do período [sequências ambientadas no presente utilizam a proporção 1:85:1, o atual padrão; aquelas ambientadas nos anos 30, 1.37:1, padrão naquela época].



Se você quer algo MAIS TÉCNICO, recomendo também esse artigo de Iain Stasukevich, no site da ASC Magazine, que entrevistou Robert Yeoman [diretor de fotografia e colaborador frequente de Anderson] e deu detalhes técnicos sobre câmeras, lentes e lâmpadas de iluminação ambiente.

No GRUPO DOIS, temos Kevin Nguyen que, na Paris Review, escreveu sobre os pontos em comum entre o filme e a obra de Zweig: ambos “enxergam comédia no cenário mutável da Europa dos anos 30”, usam “metonímias materiais” [“exibir objetos, lugares ou peças de roupa que definem personalidades, relações e conflitos por inteiro”], tratam sobre “privilégio” e “abraçam a ilusão”, além da “sensação de perda”.

O Grande Hotel Budapeste não é baseado em um livro, mas em toda a obra e em trechos da própria vida de Zweig. Anderson leu o seu primeiro livro do escritor há seis ou sete anos: fascinado, selecionou os escritos que foram incluídos na recém-publicada coletânea The Society of the Crossed Keys, da Pushkin Press, formada pelos seus livros favoritos do autor. Conta também com uma introdução de Michael Chabon e uma longa entrevista com Anderson, conduzida por George Prochnik, biógrafo de Zweig [que teve trechos publicados no The Telegraph e na revista Dazed]. Se você ficou curioso para conhecer mais sobre Zweig, o caminho das pedras está nesse texto de  Matthew Anderson para o site da BBC, que inclui até mesmo um quadro do tipo “Zweig para iniciantes”.

Para fechar temos esse artigo, da Portland Monthly Magazine, em que Matt Zoller Seitz [editor do RogerEbert.com e autor de The Wes Anderson Collection] descreve e em cinco pontos o local em que o filme se encaixa filmografia de Anderson. Dentre outras coisas, falou exatamente do aspecto farsesco [“já usou esses elementos antes”, mas agora “eles começam rápido e ficam mais rápidos ainda”] e a sua meta-temática [é uma história sobre histórias: fala sobre “porque nós precisamos de histórias e que função elas tem”, como “uma tentativa de acertar um conjunto atribulado de experiências e dar sentido para algo que provavelmente não tem sentido em longo prazo”]. [ETCETERA]

Nenhum comentário: