O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA 2, DE MARC WEBB: QUANTAS TRAMAS CABEM EM UM FILME?

* * * *
O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro
Marc Webb, Alex Kurtzman, Roberto Orci e Jeff Pinkner, com Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Sally Field, Dane DeHaan, Chris Cooper e Paul Giamatti.
[Sony, 2014]

A principal característica da franquia O Espetacular Homem-Aranha, como 99% do resenhismo mundial vai te dizer, é o ATROLHO: os dois filmes dirigidos por Marc Webb e protagonizados pelo casal Capricho Andrew Garfield e Emma Stone, a pesar de longos [136 e 142 minutos], poderiam protagonizar um episódio de Acumuladores: edição dos roteiristas.

Pro que nos interessa, saca só a minha hábil contagem de tramas de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro [até o título é longo e atrolhado]: 1] Peter Parker e Gwen Stacy: relacionamento em crise; 2] Os pais de Peter Parker; 3] A Oscorp e as suas operações secretas; 4] De Max Dillon [Jamie Foxx] ao Electro, passando por “o homem picado por enguias radioativas” ou: quantas motivações um vilão pode ter?; 5] Peter Parker e Harry Osborn [Dane DeHaan, o Leonadro DiCaprio do mau]: bromance; 6] O pai de Peter Parker: herói ou vilão?; 6] A família Osborn; 7] Tia May, muito mais do que um rostinho enrugado; 8] Oscorp: o golpe administrativo-corporativo; 9] Homem-Aranha: a cura; 10] Gwen Stacy vai a Oxford; 11] Electro e Duende Verde: why can’t we be friends?; 12] spoiler; 13] Sexteto Sinistro [e o retorno de Rino]. Deu tempo ainda de colocar uma Felícia como assistente de Harry Osborn [interpretada por Felicity Jones] e e um Alistair Smythe [B. J. Novak, de Bastardos Inglórios e The Office] circulando pela Oscorp [o hub dos vilões do universo Marvel-Sony].

Até mesmo as sequências que formam essas tramas são atrolhadas: no clímax do filme, o Homem-Aranha e a Gwen Stacy lutam contra dois vilões na sequência, durante um blecaute geral em Manhattan, com dois aviões prestes a colidir, com controladores de vôos acompanhando tudo de forma histérica.

Isso não acontece por acaso. Poucas coisas que custam 250 milhões de dólares têm o seu resultado final determinado pelo acaso. A pergunta é: mas por quê? A resposta nos dá RESENHISMO.




O primeiro motivo é estrutural. Nenhum dos dois filmes de Webb é apenas uma jornada campbelliana típica, como seria de se esperar de um filme de super-heróis para adolescentes [mais sobre isso logo]. O filme de 2012 tem isso, mas também usa o mito da Bela e a Fera -- que, para Jung, é a jornada heróica feminina, o mito que simboliza a sua auto-consciência. Isso é um jeito meio rebuscado de dizer que o filme é tanto sobre a jornada de Peter Parker rumo à formação de sua personalidade, quanto à de Gwen Stacy no mesmo sentido [como, aliás, Robbie Collins, no The Telegraph, falou na época].

Era o esforço de Webb em transformar a Gwen em um personagem protagonista, mais do que a simples namorada do herói, se manifestando já então. É interessante, mas também exige uma narrativa própria -- ou seja, mais elementos para o roteiro, que ainda tinha que suportar a presença de um vilão e um exército de lagartos.

O que envolveu alguns atalhos no roteiro.

É o mesmo problema de O Espetacular Homem-Aranha 2. Aqui, o caminho foi transformar o núcleo central da história [a relação entre Gwen Stacy e Peter Parker que tantos críticos viram como o “coração” do filme] em uma comédia romântica: em essência, o filme é sobre um casal de pombinhos separados por adversidades injustas, representadas frequentemente por um figura paterna que faz uma imposição injusta [como, no caso, o pai de Gwen]. A graça está em resolvê-la -- o que teve que ser conciliado, agora, com DOIS super-vilões [com tudo que isso implica: origens, motivações, etc].

E esses vilões estão lá pelo MOTIVO 2: tanto esse filme como o anterior tem um público alvo bem definido; e esse público alvo tem entre 10 e 12 anos e, consequentemente, um attention span de 10 minutos que exige que o filme tenha 500 sub-tramas entre as quais oscilar. Metade da tese é puro preconceito; mas é a segunda metade. Tem uma pá de coisas que nos mostram que essa franquia é, entre as de super-heróis em andamento, a que apostou pelo público infantil/pré-adolescente. 

O filme é tão pré-adolescente que não dá nem pra reclamar da falta de sessões legendadas. Pra ficar no óbvio: o relacionamento entre Peter Parker e Gwen Stacy é do tipo “todos os públicos”; a violência é inócua [no sentido de que não existe sangue, não no sentido de Homem de Aço]. O Rino é um BONEQUINHO dos Transformers. Mais: o jeito, digamos assim, POUCO SUTIL do filme. Diálogos expositivos, trilha sonora expositiva [de Hans Zimmer!], grandes dramas, o significado facilmente reconhecível de elementos na trama...

E, principalmente, a composição dos personagens. Os vilões transbordam em angústia raivosa de adolescente e não poderiam ser mais caricatos. Todos viram isso no penteado e no figurino de Max Dillon, o Electro. Mas o Duende Verde, uma criança minada que precisa de uma Luminous White, não é lá muito melhor.

O filme teria durado 15 minutos se o seu protagonista fosse um dentista.

Não é, no entanto, o caso dos mocinhos, o centro da comédia romântica. Webb se esforça bastante, de novo, em transformar Gwen em um personagem com valor próprio [aliás, falando em diálogos expositivos: na reta final do filme tem um diálogo que consiste basicamente nela dizendo “não sou apenas para decoração”]. Isso tem o seu valor. Pena que, por outro lado, Peter seja inseguro e gaguejante -- mais ou menos como o protagonista de 500 dias com ela e o oposto exato do confiante Homem-Aranha deste mesmo filme, que mostra como Garfield pode ser engraçado e carismático em momentos de diversão. 

O filme é perceptivelmente menos dark que o anterior...



...mas Peter é igualmente banana: estamos falando de um cara que toma um pé da namorada e vai para casa escutar Gone, Gone, Gone, de Phillip Phillips, nos fones de ouvido -- literalmente, chorar na cama que é lugar quente. Que o emo-Aranha de Homem-Aranha 3, de propósitos evidentemente caricaturais, tenha atraído tanto ódio e incompreensão, enquanto que o Peter de Andrew Garfield tenha recebido toneladas de “óooooin”, é algo que me deixa um pouco mais triste com o mundo: o personagem foi adaptado para uma nova geração; uma que vai se inspirar nele para ir chorar no cantinho. [PARA OS FORTES]

P. s.: O filme tem uma cena pós-créditos. Isso está ficando com tanta cara de formalidade obrigatória que, no caso, é exatamente isso.

Nenhum comentário: