GODZILLA, DE GARETH EDWARDS: QUANTO TEMPO ATÉ QUE COMECE A DESTRUIÇÃO?

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Em 2010, a Warner comprou os direitos sobre o Godzilla da japonesa Toho. Depois disso, colocou o kaiju-pai e 170 milhões de dólares nas mãos de Gareth Edwards [diretor do destruction-derby indie Monsters] com um objetivo: não, não é recriar o clássico de 1954, mas nos fazer esquecer do filme de 1998, dirigido por Roland Emmerich e monstruoso no sentido figurado, primeira tentativa de transformar o pisoteador de japoneses em uma franquia blockbuster. Pois bem, japas: corram desesperados pelas ruas. Amanhã [quinta-feira, aparentemente a nova data de estréia padrão dos cinemas brasileiros] o monstrengo volta para os cinemas em sua a versão mais simpaticamente gordinha da história.

O resenhismo oscilou em torno de uma variável: dá para assistir Aaron Taylor-Johnson [o Kick-Ass de Kick-Ass], Bryan Cranston [da série Breaking Bad] e o elenco de apoio [Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, Sally Hawkins e Juliette Binoche] por uma hora, enquanto o Godzilla não começa a derrubar prédios? Noutras palavras: consegue Edwards colocar em prática a proposta de Tubarão?

Só que muito muito grande?
Eric Kohn, da Indie Wire, e  Drew McWeeny, da HitFix, disseram que sim. Até demais. Conforme o primeiro, que chamou o filme de “fascinante tentativa de reconfigurar o cinema blockbuster”, um dos problemas do filme é precisamente perder o contato com os personagens quando a destruição começa: “apesar de toda habilidade na sua construção, é impossível que Godzilla satisfaça a curiosidade que gera. Assim que a primeira criatura sobrenatural ganha vida, o filme automaticamente perde o contato com os sofisticados personagens que estão no seu cento”. McWeeny também viu alguns problemas, mas enxergou “um nível subtextual” no filme, “além do caos monstrengo em larga escala”: “pode parecer uma coisa fácil dar vida ao Godzilla usando efeitos especiais modernos, mas não canso de dizer coisas boas sobre a forma que o personagem foi criado aqui”.

Redonda.
[tun tun tssssss]
No outro time jogam Peter Debruge, da Variety, e Jack Giroux, do Film School RejectsO primeiro desprezou olimpicamente a tentativa de Edwards: “muito embora o cineasta faça bom uso de sua habilidade de conjurar uma escala enorme através de ambientação e efeitos especiais inteligentes”, ele não dá “tempo na tela suficiente para o Godzilla”, desperdiçando-o com “personagens banais”. Já Giroux viu a referência [“claramente Edwards e o roteirista Max Borenstein foram inspirados por Tubarão e Jurassic Park”], mas considerou a execução mal-sucedida: “não tem Quint em Godzilla. Não tem Chief Brody. Não tem Hooper. Só tem personagens de cartolina”. Tirá-los de cena, de fato, quase salva o filme: “aqueles que estiverem apenas interessados em ver o Godzilla em um quebra-quebra épico não vão se desapontar”.

Que o filme original, dirigido por Ishiro Honda, o filme japonês mais caro da história na época, é inigualável: taí uma coisa na qual todos concordam. Andrew O'Hehir aproveitou o lançamento de Godzilla: The Japanese Original, a restauração digital do filme de 1954, e escreveu um artigo para a Salon para colocá-lo em perspectiva: apesar do seu contexto nuclear, e de “a sua inspiração em filmes americanos B da época como The Beast From 20,000 Fathoms”, o filme não é um ataque à “arrogância nuclear ianque”: “é uma parábola sobre a relação do Japão com ele mesmo mais do que sobre a América com o mundo”, “uma expressão da culpa e vergonha coletiva associada” aos eventos que colocaram o país na rota para a derrota na Segunda Guerra Mundial”, uma espécie de “vingança cármica pelos pecados arrogantes do império”. [NFN 100MG]

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