BREAKING BAD, DE VINCE GILLIGAN: O MAIS FINO RESENHISMO

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A essas alturas do campeonato, a Internet deve estar URRANDO, em ÓDIO ou AMOR, pelo final de Breaking Bad [+], a série de Vince Gilligan [que refinou previamente o seu TALENTO TELEVISIVO em Arquivo X [+]] protagonizada por Bryan Cranston – considerada uma das melhores séries de televisão dos últimos, diabos, SÉCULOS.

O NEW FRONTIERSNERD, no entanto, não é um SITE IMEDIATISTA: eu nem vi o último episódio [ou última temporada] da série ainda. Mas uma coisa eu posso garantir: no último ano, a ela foi dedicado O MAIS FINO DO RESENHISMO sofisticadô. É um bom motivo para um COMBO MEMÓRIA anti-nerdismo tarja-preta e pró-TODOS NÓS, formado por quatro artigos.


O primeiro da lista é esse, de James Meek, no London Review of Books, uma resenha do box com as quatro primeiras temporadas da série. O artigo é uma obra por si só: pra começo de conversa, vai de elogios a Cranston [“o seu talento é a capacidade de retratar a habilidade de Walter para se auto-enganar, para mostrar um relance do espírito feral por baixo da máscara de nobre eloquência adotada pelo homem do Iluminismo que se sente mal-interpretado”] à jornada do seu personagem [“de simpático a odioso”, com uma mudança “de comédia negra para escuridão”, em direção “a uma verdade terrível”: “na medida em que as suas elaboradas justificativas pessoais para a sua violência cada vez mais sangrenta se tornam menos significativas, a sua maldade essencial, formadas pelo seu egoísmo e malícia, se torna mais clara até mesmo para ele”].

Meek, ainda, argumenta que Breaking Bad é um novo passo na evolução do gênero policial iniciada por The Wire [+], a série de David Simon. Tradicionalmente, a hierarquia do conhecimento sobre o desdobramento de história policial tinha, no topo, o escritor [o sabe tudo]; seguido dos criminosos [um passo adiante dos policiais]; seguida dos policiais e do detetive-protagonista; em, na rabeira, o leitor: “todo mundo sabe mais do que ele sobre o que está acontecendo”.

Em The Wire, o espectador foi promovido ao segundo escalão daquela pirâmide: “assistimos a série para descobrir o que eles vão fazer quando descobrirem o que nós já sabemos” – o que, em Breaking Bad, vai adiante, com o jogo de “sabe ou não-sabe entre o espectador, Walter, Skyler e Hank servindo como uma agônica provocação ao longo da série”.

Michelle Kuo e Albert Wu, no Los Angeles Review of Books, também comparam Breaking Bad a The Wire – no entanto, foi para descrever o primeiro como uma tragédia grega [“a sociologia é um deus onipotente e inclemente que brinca com o destino dos mortais”] e o segundo, com o seu vilão humano [“o que destrói os mortais não é o sistema, mas outro mortal”], como uma história do Antigo Testamento [“uma visão centrada no homem da origem do mal”].

A partir daí, Kuo e Wu, comparam a série com Paraíso Perdido, o clássico poema de John Milton sobre a queda do homem, discutem a lógica pré-moderna da série [“dirigimos a nossa fúria moral à filosofia particular do herói”, pela qual “o mundo é 'simples caos'”, desejando que ele se arrependa e reconheça o mal que causou; julgamento que faz de nós “moralistas pré-modernos”] e voltam ao Antigo Testamento [“em Breaking Bad, a realidade não pode ser construída pelo homem -- existe uma verdade metafísica que envolve “o bem, o mal, moral e imoral, ação e consequência”].

No próprio Los Angeles Review of Books, Andrew Lanham escreveu uma resposta ao artigo de Kuo e Wu: o que ele faz é tirar as categorias bíblicas da equação para descrever a série como uma resposta para a pergunta “ainda existe espaço para o julgamento moral em uma cultura como a nossa, construída ao redor da irredutibilidade da experiência individual?”. A resposta [sim] está no foco da série: “Breaking Bad insiste em dirigir o nosso olhar para as consequências violentas das escolhas de Walt”. Enquanto o protagonista e seus colegas “tentam minimizar as suas reações viscerais à morte de uma criança, apenas nos convidam a senti-las por eles”.

James Bowman, no The New Atlantis [republicado depois no seu próprio site], escreveu o maior artigo de todos. Ele repisa alguns dos argumentos de Meek – o que dá um jeitão CÍCLICO para essa postagem, um bom ponto final. O que Bowman diz é que Breaking Bad se sustenta pela tensão entre o Iluminismo liberal moderno e a cultura da honra pré-Iluminista: a ciência Iluminista [na série, representada pelo apego de White ao formulismo químico] “abarca parte do que vemos no mundo natural e social, mas, como Walt aprende, existe mistérios que ainda desafiam a mente racional. Viver com esses mistérios significa olhar além da visão racionalista do mundo do Iluminismo em direção a outras, mais primitivas, fontes de sabedoria”. [NFN 100MG/MEMÓRIA]

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