THE DEMON, DE HUBERT SELBY JR.: POSSUÍDO

* * * *
The Demon, 
Hubert Selby Jr.
[Penguin Classics, 2011]

Em The Demon, livro de Hubert Selby Junior originalmente publicado em 1976 [e ainda sem edição no Brasil, alô alô mercado editorial], acompanhamos a jornada de Harry White: de jovem executivo promissor que a narrativa se esforça pra nos convencer de que é uma boa pessoa, a pesar de sua fixação por mulheres casadas [insira aqui a sua própria piada O Bairrista relacionando a capa do livro à música do TNT], a executivo de família perfeita [esposa amorosa, um casal de filhos, Harry Jr. e Mary, uma casa afastada da cidade] com uma compulsão auto-destrutiva por sexo sórdido, depois por roubo e, finalmente, por matar pessoas.

Parece simples, e de fato é: as três principais dicas interpretativas para o significado desse punhado de fatos, uma epígrafe e dois trechos bíblico, estão nas três páginas que seguem à dedicatória [cheia de alegria, como o título e a capa: “a Bill, que me ajudou a aprender que devo me render para ganhar”].

A epigrafe, facilmente compreensível mesmo em inglês:

A man obsessed
is a man possessed
by a demon

O primeiro trecho é Tiago 1:12-15, que Selby cita na versão da Bíblia do rei James e eu no que a Internet me diz que a é a versão católica, em português:

Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam.
Ninguém, quando for tentado, diga: É Deus quem me tenta. Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém.
Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia.
A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.

Dessuas duas dicas você tira o seguinte: White, o protagonista, não é um psicopata yuppie como Patrick Bateman, de American Psycho. Ele está, literalmente [bom, ao menos tanto quanto um personagem de ficção pode está-lo] possuído pelo demônio. E o resultado final disso só pode ser um.

A parte “possessão demoníaca” pode ser constatada através das referências mais ou menos explícitas que o próprio narrador faz a esse fato ao longo da história. No primeiro grupo [mais explícitas] estão as três vezes em que a expressão “demônio” é utilizada no livro, descrevendo o mal que impulsiona as ações do personagem principal. É um grupo sem graça, então não vou me alongar.

O segundo grupo não só é mais divertido, como tem maior VALOR PROBATÓRIO: as referências à origem da compulsão auto-destrutiva de Harry são unânimes em descrevê-la em termos REBUSCADOS, mas demoníacos. O MAL QUE LHE AFLIGE curte uma BLASFÊMIA: quando perde o controle, Harry se apega a reclamar de “krist”; a sua crise final é detonada primeiro pelo desfile de St. Patrick’s Day, depois ao ver o Cardeal de Nova Iorque ser adorado pela cidade. É algo fora do seu controle e com vontade própria: “[Harry] sentia dentro dele outro Harry que enxergava o que estava acontecendo e querendo querer parar”.

Causa-lhe um mal físico [“o seu corpo doía e ardia com febre”], sem explicação [“no entanto, a sua cabeça estava fria”; em determinado momento, já mais pra lá do que pra cá, o personagem vai ao médico, que descarta qualquer doença], e é OMINOSO [“estava envolvido nessas ações algo não apenas desconhecido, mas absolutamente mortal”; “ele continuava engolindo, não por causa da bile que amargava a sua boca, mas por causa da coisa que estava tentando rastejar para fora das trevas do seu interior. Ele continuava engolindo e empurrando esse demônio para dentro sem reconhecer a sua existência”]. E não se trata de uma paranoia do próprio personagem: Linda, a sua esposa, logo após uma crise descreve o seu aspecto físico como “bom, assombrado. Ela não sabia exatamente porque a palavra apareceu em sua mente, mas ela teve que admitir que descrevia a aparência dele”.

Não pense, no entanto, que The Demon é O Exorcista. Talvez seja uma resposta: o primeiro é de 1976, o segundo de 1971 [o livro; o filme, de qualquer forma, é de 1973]. Harry White não mora em um mundo em que exista um padre capaz de salvá-lo. Isso revela uma diferença entre os livros que é a mesma, só que em outro registro, que a que existe entre os filmes Tropa de Elite e Máquina Mortífera: desmembrados, os dois filmes tratam de dois amigos policiais, um excêntrico [“moleque”] e outro certinho, com um chefe durão. Só que no primeiro o chefe durão tortura pessoas e o moleque acaba com um tiro na cara.

O que isso quer dizer é que The Demon é O Exorcista com um approach realista e irônico: não temos heróis, o protagonista é uma vítima e a possessão demoníaca não lhe faz caminhar como uma aranha, vomitar gosma verde ou a sua cabeça girar ao redor de seu pescoço. O que isso não quer dizer é que o livro não tem simbolismo, especificamente religioso [você sabe: ainda estamos falando de uma POSSESSÃO DEMONÍACA].

Como se fosse o protagonista de uma história de Kafka, White é uma vítima das circunstâncias; a sua história é uma espécie de teste expiatório [o que dá para a sua história contornos RITUALÍSTICOS]. O resto é mais evidentemente cristão. A principal esperança de regeneração de White é a sua esposa, uma mulher idealizada. O “pecado definitivo” cometido pelo personagem é o assassinato de um cardeal no Domingo de Páscoa. Um cardeal que, no Domingo de Ramos, foi recebido por uma multidão nova-iorquina como um profeta. A casa de Henry e Linda, de vegetação exuberante, é expressamente chamada pelos personagens de Jardim do Éden, e a sua harmonia é quebrada pelo comportamento de Harry.

Selby, como você vê, tem a sutileza de um zagueiro uruguaio. Um bom exemplo disso é o seu deboche à psicanálise freudiana, no momento em que ele chega o mais próximo que consegue de ser engraçado [não se engane, é desesperador]. Surtado e sinceramente em busca de ajuda, Harry White é encaminhado para um psicólogo – a fixação desse pela seu desempenho sexual e pela sua infância, no entanto, é exasperante:

Você tem algum problema ao manter relações com essas mulheres?
O quê? O que...
Você é impotente? E com a sua esposa?
Não, não, esse não é...
O que a sua mãe te disse sobre infidelidade? Ela te disse que era um pecado?
Quê???? Eu não sei, não sei, não consigo...
Você já foi pego se masturbando?
Masturbando? Não sei o que...
Te disseram que isso te deixaria gago ou cego?
Não lembro de nada do...
Você lembra quando aprendeu a ir no banheiro?
O quê? Não sei o...
Você era obrigado a sentar no vaso depois de cada refeição até que você tivesse movimentos intestinais?
Jesus, eu...
Quando você deixou de molhar a cama?
                                                                                                         Harry queria gritar e chorar e se enrolar como uma bola e rolar para fora ou desaparecer na parede e quando a sessão acabou ele pegou um táxi até a estação de metrô mais próxima e se trancou no banheiro público e chorou e chorou, sob o rugido dos trens, até que ele ficou exausto e já não haviam lágrimas, e energia e recursos para fabricar mais.

O que me permite chegar à outra característica marcante do livro: a escrita PECULIAR de Selby. Como no início do último parágrafo desse trecho aí de cima, algumas frases começam no meio da linha, reforçando a impressão que você está chegando na metade de um raciocínio. É um dos recursos usados em um texto bastante dramático e exagerado, mas que simplesmente FLUI pela página, patrolando regras gramaticais e oscilando entre diversos pontos de vista, até mesmo dentro do mesmo parágrafo. Via de regra, o narrador é em terceira pessoa, mas mesmo nesse caso é bastante subjetivo e acompanha os humores dos personagens. Ajuda para emprestar para a história a volatilidade, a confusão e o exagero de um pesadelo. Um bom exemplo de tudo isso:

Ó Deus o que está acontecendo? Tudo que ele queria era ir para casa e colocar os seus braços ao redor de sua família e abraçá-los e beijá-los e tirar o cabelo de seu filho dos olhos e segurar as mãos de sua esposa e beijar a ponta de seus dedos – isso era tudo que ele queria fazer. Jesus, kristo, isso é pedir muito? O que tem de errado nisso? Por quê???? Por quê???? POR QUÊ???? posso fazer isso? Por que eu fico com medo e tenho que afastá-lo?

Selby também é mestre em dar ritmo da história. Em determinados momentos [como os de desespero ou fúria demoníaca], as frases são curtas e agressivas [mais ou menos como aí em cima]. Noutros, em especial no final do livro quando o personagem é praticamente um zumbi, as frases são longas e letárgicas – a sua última página inteira, umas 35 linhas, tem umas quatro vírgulas [três delas emendadas: “lentamente, lentamente, lentamente,”] e nenhum ponto final [e prepare-se, a partir desde momento, para spoilers]:

[...] tomando conhecimento sobre como ele seria finalmente capaz de silenciar a voz dentro dele e cada vez que ele acreditava que ia cair ele escutava vozes e podia sentir os rostos atrás dele e ele continuou até que ele finalmente estava em uma balsa movendo-se pelas águas [...] e lentamente ele começou a rir e então gargalhar quando ele se deu conta de como seria simples e ele gargalhou mais alto e mais alto [...] e ele esticou os braços e se inclinou para frente e lentamente, lentamente, lentamente foi adiante e para baixo [...] e subitamente caiu na água [...] e involuntariamente tentou se mexer e tentar voltar para a superfície mas o peso de sua roupa molhada e pesada [...]

É aí que chegamos à TERCEIRA DICA INTERPRETATIVA. Você deve ter sacado onde esse parágrafo aí de cima vai parar: no final do livro, Harry se mata jogando-se em um rio. O segundo trecho bíblico, terceira página depois da dedicatória, é Salmos 34:4-6:

Busquei ao Senhor, e ele me respondeu; livrou-me de todos os meus temores.
Olharam para ele, e foram iluminados; e os seus rostos não ficaram confundidos.
Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias.

O seu lado depressivo pode ler isso, ver o final do livro e pensar: a salvação enviada a Harry foi o suicídio, decisão que tomou em um último momento de lucidez. É uma conclusão possível. MAS você também pode tirar disso que a terceira dica interpretativa é, na verdade, uma PEGADINHA e o que vale mesmo é a promessa de Tiago 1:12-15: a histeria da risada do personagem, a simplicidade da solução, uma que não é exatamente biblicamente VÁLIDA, e o simbolismo de jogar-se na água, elemento que não é desprovido de significados [se é um símbolo de renascimento, também tem seu aspecto DEMONÍACO; pra ficar na Bíblia: a Igreja Católica é conhecida como A Barca de Pedro; na literatura, temos monstros aquáticos que vão do Leviatã a Moby Dick, nenhum deles é exatamente um REDENTOR].

Tome nas paletas um final ambíguo: a morte de White foi a salvação do personagem possuído ou o momento em que essa possessão se tornou definitiva? Pensando bem, não sei mais qual o que o seu lado depressivo vai tirar desse final. [PARA OS FORTES]

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