OS RESENHISTA PIRA, PARTE 5: "AS MÃOS MORTAS DO PASSADO"

* * * *
Gene Philips, do The Archetypal Archive, é um LOBO SOLITÁRIO.

Partindo de um ensaio de Walter Cerf sobre Hegel [ui ui ui] e passando pela introdução de Northrop Frye para Anatomy of Criticism e pela crítica literária acadêmica [“a maior parte dos teóricos da literatura ainda faz uso do que eu chamei de 'aqueles sofisticados titãs do tédio, Sigmund Freud e Karl Marx'”], Philips escreveu uma série de quatro artigos, e um apêndice, para “criticar a crítica” dos quadrinhos.

Philips se concentra, especialmente, em Noah Berlatstky, do Hooded Utilitarian, Julian Darius, do Sequart, e Gary Groth, do The Comics Journal [e editor da Fantagraphics], trinca que forma o grosso da crítica sofisticadá dos quadrinhos americanos.

No primeiro artigo, Philips deita as bases do que virá: enquanto ele considera Freud e Marx como “as mãos mortas do passado”, “mortos vivos” de “influência persistente”, outros críticos “olham para eles e enxergam grandes libertadores que podem livrá-los da maldição que eles encontram em 'fantasias colonialistas' ou 'imagens sexualizadas' ou o que quer que seja”, enquanto se dedicam, de forma crescente, a “reduzir as fantasias pulp das gerações passadas enquanto exaltam os trabalhos supostamente mais sofisticados da atualidade”.

Para mostrar a sua tese em funcionamento, no segundo artigo Philips comenta um texto de Noah Berlatsky para a revista Wired, tratando sobre um eventual filme sobre a Mulher Maravilha. Nele, Berlatsky argumenta que ele seria desnecessário, já que ninguém conseguiria capturar a “brincadeira lésbico pacifista submissiva bondage feminista” do personagem como criado por William Moulton Marston – enquanto que o Super-Homem e o Batman seriam “personagens pulp, ponto”.


A isso, Philips retruca: ninguém adapta o trabalho de outro artista, qualquer que seja, para “honrar” o original [como Berlatsky deseja que se faça com Marston] e, ainda que “a Mulher Maravilha de Marston seja única em ter uma temática mais organizada que em outros gibis da época, não é isso que faz com que os outros sejam ruins”, e que a “maluquice visual” elogiada pelo crítico também está presente em outros gibis do período. A crítica à crítica conclui assim: “suspeito que Noah goste do lado 'ideológico' da Mulher Maravilha, não de seus elementos imaginativos. Esse é o lado 'irreflexivo' da 'crítica reflexiva' ideologicamente orientada, a incansável ausência de habilidade de ver a continuidade entre trabalhos de gêneros inter-relacionados”.

O terceiro tem por ponto de partida um artigo de Darius sobre “gibis que são sobre algo, em vez de ser o simples escapismo que normalmente precede ao revisionismo”. Darius tem em mente Marvels, Astro City [+], Supreme [+], Planetary [+] e The Authority. A ele, a crítica de Philips é mais terminológica: Darius usa termos, como escapismo, revisionismo e reconstrucionismo “de aplicação limitada. Não podem ser usados para nada que não esteja dentro de um período no qual os quadrinhos comerciais começaram a cortejar um tipo específico de realismo”.


E complementa: “vários críticos de quadrinhos acreditam que eles podem apenas apreciar até mesmo os baixos super-heróis quando eles parecem tratar de temas sócio-políticos importantes. Isso me parece mais uma forma de 'busca por status' do que a aspiração por formular críticas adequadas”.

Pra fechar, Philips fala de outro artigo, de Harvey Pekar [+], publicado no Comics Journal #123, de 1988 com o título The Potential of Comics – um marco, diz Philips, “sobre tudo que existe de errado com o Journal: argumentação fraca, elitismo auto-engrandecedor e distorções retóricas”.

Para Philips, nesse artigo Pekar se revela um “elitista da forma”, no sentido de que ele “apenas pode defender um gibi de gênero se ele se enquadra em alguns critérios que ele associa com a forma da arte/literatura highbrow”: “Pekar menciona apenas aqueles gibis que ele considera ‘esteticamente superiores até mesmo se analisados com critérios” “bastante rigorosos” [e não especificados]. Ou, como diz Philips, apenas “cataloga as coisas que ele gosta e faz um esforço apenas elusivo para unificá-las sob um guarda-chuva teórico. No mundo highbrow que Pekar tem em tanta estima, essa seria uma forma ridícula para qualquer crítico de praticar a crítica”. [NFN DIÁRIO]

Nenhum comentário: