ELMORE LEONARD, RIP: LADRÕES INEPTOS, COWBOYS JUSTICEIROS

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Semana passada, morreu o escritor de livros policiais Elmore Leonard. A admiração que Quentin Tarantino [+] tem pelo cara, por si só, justificaria a postagem, mas Steven Malanga, da City Journal, e Anthony Lane, da New Yorker, escreveram textos bacanas para me ajudar na tarefa.

O primeiro, com o evidente objetivo de me desqualificar, escreveu um artigo para te dizer que Leonard não pode ser reduzido aos seus livros policiais – antes dele, o escritor se dedicou a escrever westerns, onde nos deu, por exemplo 3:10 to Yuma [levado ao cinema em duas oportunidades, a última, de 2007, com direção de James Mangold [+], com Russel Crowe e Christian Bale]: “Leonard teve outra carreira de escritor como autor de dúzias de histórias e novelas de faroeste, nas quais o bem enfrentava o mal, os vilões eram realmente desprezíveis e antipáticos, e os heróis eram frequentemente altruístas, justos e taciturnos”.

Diz Malanga que são mais do que a nota-de-rodapé para a sua carreira que muitos pensam: o oeste selvagem de Leonard era “mais hobbesiano do que o submundo de Detroit e Miami retratado nos seus livros posteriores”; nele, “o governo estava distante ou ausente, e alguns poucos homens e mulheres da fronteira eram tudo que havia entre a ordem e a guerra de todos contra todos”.

A diferença entre umas e outras, conforme explica, é o relativismo moral da cultura americana: as histórias de faroeste foram inscrita nos anos 50 e no início dos 60, enquanto que as de crime são da década de 60 e, principalmente, dos 70 à metade dos 90. Naquelas, “poderosos agentes morais fazem justiça”; nessas, “justiça, se é que pode ser chamada disso, é feita através da lei das consequências não-intencionais, com as ações do vilão saindo do seu controle e terminado por engoli-lo”.

Anthony Lane foi mais TEXTUAL: falou de Leonard [que descreveu como “um dos melhores escritores, dando a coincidência que ele escrevia sobre o crime”, em livros que nos mostravam como o esse “permite que os homens de todas as idades se divirtam com todo o leque da ineptitude humana”] sob o ponto de vista dos diálogos e do vocabulário.

Sobre aqueles, comenta Lane que os personagens de Leonard, “enquanto vão de um erro para outro” conversam sobre coisas que “não tem nada a ver com o crime”. São diálogos que parecem “um jogo de ping-pong”, com frases secas e com um ritmo cômico, parecido com o das primeiras obras de Evelyn Waugh.

E sobre o vocabulário, Lane, depois de compará-lo com Iris Murdoch [que descreveu como “ser engolido vivo por um dicionário gigante”, argumenta que Leonard é direto, realista, com enfase nas “vozes da América”: “menos como Hemingway e mais como Dickens, outro garoto da cidade que tinha o seu nariz e o seu ouvido no chão”. “Pegue 52 Pick-Up, Joe La Brava, Swag ou Glitz, e sintonize as vozes da América, vindas, em alto e bom som, e em grande parte sem regras gramaticas, de Atlantic City, Miami, Hollywood, e de sua casa, Detroit”. [NFN 100MG]

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