CÍRCULO DE FOGO, DE GUILLERMO DEL TORO: MITOS, ARQUÉTIPOS, SOM E FÚRIA

* * * *
Círculo de Fogo
Guillermo del Toro
[Warner, 2013]

É difícil traçar uma árvore genealógica-referencial de Círculo de Fogo [+], o novo filme de Guillermo del Toro [+] [e que poderia ter o título mais simpático de Robôzão vs. Monstrão].

Começamos pela trama: ela se desenvolve 12 anos após o início de uma série de ataques à humanidade por parte de uns monstrengos, vindos do Círculo de Fogo do Pacífico. A reação da humanidade veio através de uns robozões gigantes, os Jaegers, pilotados por duas pessoas ao mesmo tempo [ligadas por uma "neuroconexão" que as faz compartilhar memórias]. No momento em que a história transcorre, a solução parece ter-se revelado um fracasso: os monstrengos são cada vez maiores, e a sua chegada é cada vez mais frequente; os Jaegers perderam o GLAMOUR, as derrotas se tornaram habituais. 

A opção é construir uma espécie de MEGA-MURO na costa do pacífico: o orçamento, no entanto, é um só, o que faz com que só existam quatro Jaegers disponíveis [o principal, Gipsy Danger, pilotado por um americano e uma japonesa, é o único sem identidade nacional definitiva; os outros são formados por um grupo multicultural: são da Rússia, China, sendo que os pilotos desses dois nem tem fala, e da Austrália], para os nossos protagonistas e a sua missão final, um ataque direto ao Círculo de Fogo.

Desse resumo, você, NERD, já deve ser capaz de EXTRAIR a mais óbvia: Neon Genesis Evangelion [+], o animê de Hideaki Anno. Mas resumir Círculo de Fogo a essa comparação é um erro; as semelhanças entre o filme e o anime são tão óbvias quanto enganadoras. De fato, as duas histórias estão enquadradas no gênero Mecha vs. Kaiju. Esse, no entanto, mesmo antes do lançamento do filme de Del Toro, não se resumia a Evangelion; e, ainda que dentro desse gênero, os dois são mais do que isso, e o são de jeitos diferentes. E o "jeito diferente" de Círculo de Fogo é exatamente referencial e arquetípico, o que é colocado a serviço do mais colorido espetáculo visual que um nerdista já pariu.



Por partes: não há nada na trama do filme que você não tenha visto em algum outro lugar. 

Esse cara, por exemplo, você já viu em Hermes e Renato.




Acompanhe comigo e prepare-se para spoilers leves. O trio protagonista do filme é formado por Raleigh Becket [Charlie Hunnam, o rastafári furioso de Filhos da Esperança] e Mako Mori [Rinko Kikuchi, da adaptação para o cinema do livro de Haruki Murakami, Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood], os pilotos do Jaeger Gipsy Danger. A relação existente entre eles é uma espécie de versão desprovida do humor e romance [explícito], e recheada de MONSTRENGOS, de uma comédia arquetípica: feitos um para o outro Raleigh e Mori vivem em um mundo injusto que não aceita a sua união e que, ao final, é superado.

Esses ELEMENTOS são preenchidos em Círculo de Fogo com "uma combinação perfeita para a neuroconexão [que, para funcionar, exige uma afinidade especial entre os pilotos], Raleigh e Mori não podem pilotar o Jaeger juntos pela oposição do marechal Stacker Pentecost [Idris Elba, de The Wire [+] e Prometheus [+]]; no final, as circunstâncias o forçam a aceitá-los, os mocinhos ganham e o mundo se torna um lugar melhor [o céu, pelo menos, fica ensolarado e azul pela primeira vez no filme] com a derrota dos Kaijus.

Nesse quadro, perceba como Pentecost é um senex iratus, arquetípico cômico da comédia grega: uma figura paterna em posição social favorável que se opõe a união do herói e da heroína. Por outro lado, Chuck Hansen [Robert Kazinsky], o piloto do Jaeger australiano Striker Eureka, também é um típico personagem de comédia clássica: o miles gloriosus, o soldado arrogante que se orgulha abertamente de sua suposta grandeza e "bullyna" o herói da história.

Mais: se visto do ponto de vista de Mori, a história se encaixa no junguiano mito A Bela e a Fera. Mori, em resumo, precisa superar o repúdio paterno ao seu monstruoso pretendente -- que no final se revela um príncipe. Ou, traduzido, Mori encontra a objeção de Pentecost à sua neuroconexão com Raleigh, o seu bruto e mal-educado candidato a co-piloto.

Tá difícil? Te traduzo tudo em nerdismo: Raleigh, Mori e o Pentecost funcionam como Logan, Mariko e Shingen de Wolverine: Imortal [+] ou Peter Parker, Gwen Stacy e o Coronel Stacy em O Espetacular Homem-Aranha [+]; Chuck Hansen é a versão piloto de robô de "Iceman" Kazensky [feliz coincidência o nome do ator], de Top Gun.

E tirando a tensão sexual "subliminar".





Por outro lado, o arco maior do filme forma uma arquetípica de uma aventura de herói: Raleigh [um herói trágico: arrogante, tomou uma rasteira do destino e caiu em desgraça] tem que matar o leviatã devorador de inocentes. Ou: Raleigh [partiu para o confronto com um Kaiju certo da vitória, levou um laço e perdeu o irmão] é um piloto de Jaeger top-top que tem que enfrentar o Kaiju [demoníacos monstros aquáticos como o leviatã] que ameaça a humanidade.

De novo, te dou mais MITOS: no caso, o monomito de Joseph Campbell, só que protagonizado por um herói que já traz algumas cicatrizes de batalha. 

Na Jornada do Herói de Campbell, um herói parte do mundo normal para uma terra mágica; há um enfrentamento fantástico e uma vitória decisiva; o herói retorna de uma terra misteriosa com o poder necessário para distribuir dádivas aos seus pares. Em termos círculo-de-foguianos, Raleigh, que vivia como pedreiro, é convocado para voltar a pilotar o Gipsy Danger [o que, de início, recusa], em sua nova base no Shatterdome [o lugar onde estão reunidos todos os Jaegers remanescentes: o momento em que essa "garagem" é apresentada é um ótimo exemplo do que Campbell chama de "travessia do primeiro portal"]; em uma batalha épica, se joga para o mundo dos Kaiju, do qual volta com os monstrengos derrotados [esse retorno, aliás, é um renascimento que inclui uma viagem por um CANAL que faria um crítico freudiano escrever LAUDAS] para encontrar o mencionado CÉU AZUL FINAL.

Tradução em nerdismo: tudo.





Até a subtrama protagonizada por Newton Geiszler [Charlie Day disfarçado de J. J. Abrams [+]] e Gottlieb [Burn Gorman, o puxa-saco de Dagget em O Cavaleiro das Trevas Ressurge [+]], os cientistas do Projeto Jaeger [e que envolve um dos elementos mais legais do filme: uma espécie de vila misteriosa construída sobre a carcaça de um Kaiju, comandada por Ron Perlman, um traficante de órgãos dos monstrengos, e habitada por Santiago Segura, o gordo metaleiro de El Dia de la Bestia] deve ter sido tirada de algum lugar -- mas vou parar por aqui porque o artigo já tá na terceira página e eu nem cheguei à parte "o mais colorido espetáculo visual que um nerdista já pariu".

Parei, parei!





Então: a partir disso tudo, você deve ter chegado à conclusão de que Círculo de Fogo é uma repetição de um montão de histórias que você já viu/leu mil vezes, e ficado convencido de que não deve assisti-lo -- ao menos, não no cinema, muito menos desembolsado os trinta reais que custam uma entrada de IMAX [ao menos em Porto Alegre]. Ao que eu te respondo: [um] o que não é [perceba a ironia: com tudo isso, estamos falando de um dos poucos blockbusters dos últimos anos que não é a adaptação direta de nada]? E [dois] pense em Avatar.

Se eu posso me referir a Círculo de Fogo em termos de arquétipos e mitos, Avatar somente pode ser descrito em termos de pensamento politicamente correto e clichês bom-mocistas -- o que faz desse um filme substancialmente pior do que aquele. Vê-lo no cinema, no entanto, foi desbundante: o uso que James Cameron deu ao 3D [é, disparado, o filme que melhor soube usar o recurso na história] me deixou tão impressionado que eu fui mais do que capaz de aguentar todo o resto.

Assim como Avatar, Círculo de Fogo se justifica pela TÉCNICA colocada a serviço desse desbunde visual. Del Toro habitou o seu mundo futurista com os maiores monstros da história do cinema...

...claro que alguém fez um gráfico disso...


...e só no cinema você pode assistir isso em uma tela IMAX de 15 metros de altura. Isso joga uma papel fundamental na própria narração: a alternância entre planos abertos [e grandiloquentes] e fechados [confusos e brutais] na cena de luta; o som, que sozinho dá gravidade [no sentido NEWTONIANO mesmo] para o andar dos Jaegers [aliás: design tecnologia futurista envelhecido; referência obrigatória: Guerra nas Estrelas]; a colorização forte [baseada nas cores primárias, cada uma associada a um ambiente] e o amontoado de neons, tudo isso afastando a escuridão habitual dos filmes 3D...

ÉPICO e COLORIDO.


Não sou o primeiro a fazer essa constatação: pelo menos nos Estados Unidos, a televisão, com Sopranos, Breaking Bad [+], The Wire e companhia, parece ter substituído o cinema como LAR do entretenimento popular MADURO, ADULTO e POPULAR, enquanto que as produções pra tela grande concentram o seu APELO precisamente no FATOR TÉCNICA. A inovação tecnológica, o espetáculo e todo esse biriri. Desse novo cinema, Círculo de Fogo é o atual exemplo máximo: com seus robôs cheios de armas secretas, é o comercial de brinquedos mais espetacular da história. [PARA OS FORTES]

4 comentários:

bruno zartu disse...

ótimo filme para assistir, espetáculo de luzes e som, boa história. curta sem criticar.

bruno zartu disse...

discordando de toda a crítica acima que só faz a pessoa ficar com dúvida de ir ao cinema ou não digo; ótimo filme divertido e com bastante cenas de ação, efeitos especiais de ótima qualidade. vi e fiquei com vontade de assistir de novo.

spyder disse...

Assista o filme sem susto é pura diversão.


Vicente [NFN] disse...

E aí, bruno e spyder!

Peraí, eu curti o filme também! A resenha é uma forma verborrágica de dizer "filme divertido e com bastante cenas de ação, efeitos especiais de ótima qualidade" e "pura diversão".