CÍRCULO DE FOGO, DE GUILLERMO DEL TORO: ESCUTE A CRIANÇA DENTRO DE VOCÊ


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Círculo de Fogo, o filme de Guillermo Del Toro sobre robôs gigantes que lutam contra monstros gigantes que estréia amanhã nos cinemas do Brasil, é o filme mais esperado do ano pelo meu lado "guri de nove anos".

Com essa resenha de Matt Zoller Seitz, do site de Roger Ebert, descobri o óbvio: que o meu lado guri de nove anos tem razão na sua expectativa. De fato, ela começa dizendo isso, "se eu tivesse nove anos de idade, eu veria Círculo de Fogo, a aventura de monstros contra robôs, 50 vezes".

Isso pode fazer você pensar que Círculo de Fogo é apenas um ajuntado de cenas divertidas. Bom, você tem razão [Seitz: "as lutas são incríveis. Elas marcam a diferença entre uma cinematografia clássica e o estilo moderno mais borrado e caótico, de uma forma que me fez apreciar as virtudes das duas coisas. Parte da ação tem uma beleza geométrica que é levemente Cubista"]. Mas também é mais do que isso.

A. A. Dowd, do AV Club, destacou o aspecto autoral do filme: "e mesmo com toda a sua cara grandiloquência, quase que épico demais até mesmo para a vasta tela do IMAX, Círculo de Fogo é inegavelmente uma criação de Del Toro". Por exemplo, o Dowd viu na ambientação do filme, doze anos depois do início da guerra, "quando várias cidades já foram destruídas", algo que "fala muito sobre as sensibilidades do diretor. Diferentemente de Michael Bay ou Roland Emmerich, mestres da destruição em grande escala, Del Toro está mais interessado em criar novos mundos do que em destruir os antigos (ele poderia fazer um filme inteiro ambientado em The Bone Slums, uma favela de Hong Kong construída ao redor e por dentro do esqueleto de um monstro caído)".



Dowd e Seitz, além de Robbie Collins, também viram uma pá de referências nerds no filme. O terceiro diz que "Círculo de Fogo deve para cada agiota de pulp, trash e ficção científica que existe na cidade. Os contos estranhos de H. P. Lovecraft, os filmes de monstro do estúdio Toho, o anime de mecha Neon Genesis Evangelion, até mesmo O Gigante de Ferro de Ted Hughes estão em seu DNA". Dowd cita a evidente influência dos filmes de monstro da Toho e os animês de mecha, mas também "Top Gun, filmes de desastre da década de 90, Starship Troopers, Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança e a própria obra de Del Toro". Seitz, pra fechar, além de Evangelion e H. P. Lovecraft [+], menciona referências a George Lucas, Independence Day, "Philip K. Dick, Ray Bradbury, o Frankenstein original de Mary Shelley, 2001, Projeto Brainstorm e A Origem".

Claro que a crítica não foi unanimemente positiva. Anthony Lane, da The New Yorker, descascou o filme, que descreveu como "assistir a duas catedrais furiosas em uma luta". Lane aponta para o título do filme [o Círculo de Fogo da tradução é uma referência ao Círculo de Fogo do Pacífico, limite entre placas tectônicas que abriga 75% dos vulcões do mundo e lugar do qual emergem os monstros do filme – NFN também é cultura geográfica] como a sua razão de ser: "representa não apenas um lugar importante para a trama, mas uma referência de cortesia para o mercado no qual filmes como esse tem o objetivo, ou foram feitos para, se dar bem". "É possível aplaudir Círculo de Fogo pela eficiência do seu modelo de negócios ao mesmo tempo em que se deplora o conto que ele criou: longo, barulhento, escuro e muito molhado. Seria melhor assistir o parto de um elefante". [NFN 100MG]

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