O HOMEM DE AÇO, DE ZACK SNYDER: O EVANGELHO SEGUNDO A CÂMERA TREMIDA

O Homem de Aço
Zack Snyder, Christopher Nolan e David S. Goyer
[Warner, 2013]

Depois do sucesso da trilogia do Batman, dava para se supor que a dupla formada por Christopher Nolan [+] [produtor] e David S. Goyer [+] [roteirista], que aportaram primeiro à equação que resultou em O Homem de Aço [o "x" faltante é o diretor, Zack Snyder [+]], tentaria repetir o acerto. E por “acerto” nós queremos dizer a abordagem pela via "relacionável", construir um universo cujo "cheiro", nas palavras de Nolan, o espectador pode sentir.

Ainda que um milionário vestido de morcego que espanca criminosos durante a noite não seja, exatamente, a coisa mais concreta do mundo, a tarefa aqui é consideravelmente mais difícil: o Super-Homem pode não estar vestido de morcego, mas é um alienígena. E voa.


Essa tentativa de conciliar a abordagem e o personagem é a primeira grande característica de O Homem de Aço. Ao menos é o que eu tiro do APPROACH SCI-FI: é como se Nolan/Snyder/Goyer tivessem dado ao  personagem um VERNIZ científico, "como seria se". Passo um: o filme dá ênfase ao fato de que esse é o primeiro contato entre humanos e alienígenas: a mensagem pela qual o General Zod [o vilão, uma espécie de Hitler ambientalista] se anuncia ao mundo começa com "vocês não estão sozinhos" e é distribuída em escala planetária e em diversos idiomas.


O design da tecnologia alienígena foi em grande parte tirado dos filmes de Ridley Scott [+]: é aquele negócio arredondado e irregular que parece futurista, mecânico, orgânico, místico e medieval ao mesmo tempo, que mistura elementos de ficção-científica pré e pós Guerra nas Estrelas e que hoje em dia é visto como realista.

O Homem de Aço é uma espécie de Alien/Prometheus [+] com esteróides e de classificação etária livre. Saem os estupros-faciais e a genitália disfarçada no background, entra TROCA DE SOCOS, explosões a rodo e destruição em grande escala.

Excelências, a "PROVA A"...

...e "PROVA B".

Se o design vem dos filmes de Ridley Scott, a direção de fotografia [de Amir Mokri: se você tiver uma namorada CULT, tente convencê-la a ver o filme dizendo que o diretor de fotografia é iraniano] deve muito a J. J. Abrams [+]. O objetivo é deixar o filme com cara de gravação por amadores [uma forma de derrubar a quarta parede e, consequentemente, tornar o filme "relacionável"]: com isso eu quero te dizer que você vai ver lens flare, câmera tremida e carregada na mão, e movimento de câmera que acaba em algum objeto, para então nele dar um zoom. É o tipo de gravação que chegaria aos nossos olhos vinda do meio de um combate entre alienígenas super-poderosos.

Tipo, até os POSTERS do filme são atulhados de lens flare

Não pense que isso PASSA IMPUNE. As cenas de ação são confusas e a crítica de Kyle Baker, pela via desse joguinho, é PERTINENTE: a destruição causada pelo Super-Homem é absurda, de forma inclusive a diminuir o impacto do controverso final do filme e sem que o herói salve [ou sequer reconheça a existência de] espectadores inocentes. Quanto a confusão, pelo menos ajuda se você for ver o filme em 2D: o 3D certamente foi ideia do estúdio, aumenta a confusão de tudo e é incoerente com a proposta [não é "relacionável" que uma gravação amadora/documental seja feita em 3D].

Tudo isso é colocado em favor de uma trama que é bastante direta [e expositiva]: ela pode ser resumido com a frase "o Super-Homem e o General Zod brigam. Há ranger de dentes. Logo, choro" [se vê o dedo de Snyder: o General Zod, assim como o Leônidas de 300, só fala aos gritos] sem que se cometam grandes injustiças.

SINOPSE VISUAL

Só que o roteiro passa de forma quase que protocolar pelos elementos que formam uma típica jornada de herói grudada no arquétipo [o monstro devorador de inocentes, o mundo fértil transformado em estéril, o herói impoluto e a sua morte simbólica, etc]. O que faz com que O Homem de Aço é o filme do Super-Homem que mais abertamente abraça o simbolismo messiânico do personagem. É a esperada [desde o TERCEIRO PARÁGRAFO!] segunda grande característica do filme. Você precisa ser especialmente desprovido de perspicácia para não percebê-la: o protagonista desse filme é um Jesus Cristo alienígena. 

Acompanhe-me ao longo de SETE EVIDÊNCIAS. Clark Kent tem 33 anos. O Super-Homem aparece em posição de crucificação pelo menos duas vezes no filme:



Ele também tem dois pais: um adotivo e outro que o enviou para a Terra com o objetivo específico de "guiá-los" [os humanos], enquanto a sua mãe se preocupa que ele será MARTIRIZADO ["ele vai ser marginalizado. Eles vão matá-lo!"]. Decolar é invariavelmente precedido de um TEBOWING.

O que deixa o filme com uma vibe meio CRISTÃ 2011, mas ok.
Os dois primeiros salvamentos mostrados no filme acontecem em CONTEXTO AQUÁTICO ["pescador de homens"]...



...e, durante o segundo, o personagem aparece envolto em FOGO PURIFICADOR:

Super-barba.
Graças a alguma ginástica do roteiro, o Super-Homem se vê obrigado a voar para a Índia para lutar contra uma espécie de máquina kryptoniana do mal [é uma das sequências mais abstratas do filme]. Só que ela não parece uma máquina: ela parece um dragão de diversas cabeças. Dá pra ver por DOIS SEGUNDOS do terceiro trailer [a partir de 2 minutos e 5 segundos]...



...e eu tentei fazer um print screen:

NÃO ME JULGUEM
Se tudo isso não foi suficiente pra te convencer, tome essa nas paletas: em determinado momento, o Super-Homem tem que decidir se vai se submeter ao "julgamento dos homens" e ao eventual martírio dele decorrente [Kevin Costner, seu pai adotivo terráqueo, passava metade do filme dizendo que os humanos não estão prontos para aceitá-lo].

Talvez você já seja capaz de associar isso a alguma coisa. Mas Snyder/Nolan não prezaram pela SUTILEZA: ele toma essa decisão em uma igreja. Na sequência em que isso acontece, se vê continuamente atrás do personagem um vitral que a Internet nos diz exatamente qual é:

Cristo rezando no Horto das Oliveiras. Ó link pra ti que não fez catequese.

Tudo isso, para voltar à comparação inicial, faz de O Homem de Aço um ponto de partida melhor do que foi Batman Begins: a sua proposta é mais clara, constante e o filme, mais COESO com ela. Mais: Nolan teve o cuidado de deixar diversas CARTAS NA MESA coerentes com tudo isso [a inclusão do Professor Hamilton me pareceu especialmente FELIZ: ele, sozinho, pode garantir a continuidade da abordagem ficção-científica nos próximos filmes].

Todo esse simbolismo está AFINADO com o personagem e com a lógica interna do filme, formando, com a abordagem relacionável, um filme que me dá MOTIVOS PARA SORRIR -- ainda que a execução Snyderiana tenha seus problemas. O Homem de Aço vale pela PROPOSTA e, principalmente, pelo PROGNÓSTICO. [PARA OS FORTES]

4 comentários:

msbbw39 disse...

Não tenho muitas palavras para escrever além de: Excelente análise. Dizem qua toda unanimidade é burra, mas no presente momento não tenho como discordar dos seus argumentos. Parabéns e Obrigado.

Vicente [NFN] disse...

Opa, valeu!

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E até a próxima e obrigado pelos elogios.

msbbw39 disse...

Obrigado por responder meu comentário. Seguirei as atualizações. Obrigado.

Anônimo disse...

Ótima resenha. Pena que o início do filme seja tão chato e melodramático, de resto, é um bom filme, realmente.