OZ: MÁGICO E PODEROSO, DE SAM RAIMI: OS BASTIDORES, AS FOFOCAS, O RESENHISMO E A POLÍTICA MONETÁRIA DO INÍCIO DO SÉCULO XX



[NFN 100MG #46]                                         * * *                                                  [19/2/2013]

Estreou no cinema nesse final de semana Oz: Mágico e Poderoso, novo filme de Sam Raimi [+], diretor da primeira trilogia do Homem-Aranha [+] e de Evil Dead [um NFN-FAVORITE] e protagonizado por um elenco FORNIDO encabeçado por James Franco, Mila Kunis e Rachel Weisz.

É uma espécie de prequela de 200 milhões de dólares de O Mágico de Oz, clássico da MGM dirigido por Victor Fleming e protagonizado por Judy Garland em 1939, uma adaptação do livro de L. Frank Baum que você a vida deve ter te ensinado a associar à frase "Toto, acho que não estamos mais no Kansas!".

Você conseguiu associá-la às suas lembranças infantis? Pois bem, conforme esse artigo de Bilge Ebiri, no The Vulture, o filme original pode ter interpretações menos inocentes do que você se lembrou [um Leão Covarde nunca é apenas um Leão Covarde]: o texto de Ebiri resume sete teorias sobre o filme, elaboradas por pessoas que tem tempo demais para pensar e repensar a cultura pop -- nossos AMIGOS e IRMÃOS, portanto, que trabalham com isso para que possamos deixar de fazê-lo.

A primeira é que o filme seria uma parábola sobre populismo e a política monetária dos Estados Unidos do início do século XX...



Eles viajam pela Estrada de Tijolos Amarelos (o padrão-ouro) para encontrar o Mágico, que representa o presidente Grover Cleveland ou William McKinley [ambos políticos que lutaram pela manutenção do padrão-ouro; se você não sabe o que é isso, comece por aqui -- NFN também é CULTURA ECONÔMICA] ("Oz" mesmo é abreviação de "onça", que é a unidade de medida padrão para o ouro. O verde da Cidade Esmeralda representa o dólar). Essa teoria, originalmente criada por um professor de escola chamado Henry Littlefield (você pode ler o seu ensaio original aqui) já foi desmentida, mas ainda atrai a muitos.

Mais: John Maynard Keynes e a Bruxa Malvada nunca foram vistos
no mesmo lugar ao mesmo tempo.
...o que faz com que seja PARADOXAL que o Oz do filme de Raimi seja Mágico, Poderoso e Subsidiado: de fato, um dos filmes que mais recebeu incentivos fiscais da história [40 milhões de dólares, principalmente do governo de Michigan, equivalente ao preço de um ingresso de cinema por morador do estado, garantidos pela grana de FUNDOS DE PENSÕES].

Mas me desvio: as TESES INTERPRETATIVAS SEGUEM, e passam por alegoria religiosa ["A Estrada de Tijolos Amarelos é o caminho para a iluminação, com os personagens encontrando diversos símbolos de pecado e tentação no caminho à cidade Esmeralda, que é tipo o paraíso"], para o ateísmo ["Deus, ou seja, o Mago, não é real, existe um mortal atrás da cortina, e todo o papo-furado espiritual é ilusório"], para o feminismo ["Primeiro, considere o fato de que todo mundo que tem algum tipo de poder em Oz, Dorothy e as bruxas, é uma mulher. E, talvez tão importante, perceba que a todos os homens falta alguma coisa"], e à TEORIA JUNGUIANA ["Dorothy, a sonhadora inocente, está em uma jornada de individualização/auto-realização, e os seus acompanhantes correspondem aos três primeiros estágios da concepção de Jung sobre o Animus"].

FOTO: Símbolo feminista  acompanhado dos três primeiros estágios do Animus,
o mais brilhante dos quais é um símbolo freudiano carregando outro símbolo freudiano,
pisoteia a política monetária do século XX em busca de uma catarse religiosa.
Jesus, isso costumava ser mais simples.

A Disney, produtora do filme de Raimi, tenta faz bastante tempo tirar leite dessa vaca: nesse artigo de 2006, o historiador Joe Hill repassou todos os filmes que a produtora lançou [ou tentou lançar] até a época. Acredite: foram vários. Drew Taylor, do The Playlist, blogue da revista Wire, deu mais detalhes sobre a relação entre todos os fatores, culminando em detalhes da produção do próprio Oz: Mágico e Poderoso:

Muito embora eles não pudessem fazer referências diretas a nada do "O Mágico de Oz" original da MGM (os advogados da Disney avisavam para os cineastas quando eles chegavam muito perto do original, ao ponto de colocar restrições no verde da pele da Bruxa Malvada), Raimi conseguiu fazer pequenas referências legalmente permitidas. A mais destacável é que, como no filme original, os primeiros trinta e poucos minutos foram gravados em preto e branco (e na proporção 4:3 original). Quando o mágico chega a Oz, as coisas se abrem, se tornando de um colorido que quase te deixa cego (apropriadamente em widescreen). A Bruxa Malvada está lá, assim como macacos voadores, linhas de diálogo e referências casuais ao original (pelo menos um ator da versão original faz uma aparição). E com Raimi combinando alguns dos elementos mais sinistros de "O Mundo Fantástico de Oz" com a genuína mágica do filme original, parece que, de fato, não existe nenhum lugar como Oz.

No que se refere ao seu lado TÉCNICO, o filme recebeu bastante atenção. Tem esse artigo, de Steven Zeitchik, do Hero Complex [blogue de nerdismo do Los Angeles Times] sobre o 3D do filme:

Para compensar isso, Raimi construiu sets do tamanho de campos de futebol em seu estado natal, Michigan, e banhou eles com enormes quantidades de luz, conseguindo até mesmo uma permissão especial da empresa de energia elétrica que abastece a região de Detroit.

Tinha muita gente da equipe de produção dizendo 'Sam, não posso deixar tudo isso no foco' disse Raimi, rindo.

"F#D@-SE O FOCO. BWAHAHAHAHA"
[todo mundo tem seu dia Bruce Campbell]

E esse outro, de Peter Sciretta, do /Film, sobre como Raimi usou marionetes sobre as quais foram posteriormente inseridas as versões digitalizadas de alguns dos personagens do filme [uma boneca de porcelana e um macaco de roupa azul, interpretado por Zach Braff, diretor/roteirista/ator principal de Garden Stante, A Hora de Voltar no Brasil, mais conhecido por ser o personagem banana de Scrubs], que pode ser facilmente resumido assim:



Ainda no /Film, German Lussier assistiu o filme e leu a matéria de seu colega e chegou à óbvia conclusão de que tudo isso é cara do Sam Raimi, ainda que um amarrado por trabalhar para a Disney [imagino que não vamos ver nada de amputações e serras-elétricas ._.]: Não existe um frame de Oz: Mágico e Poderoso que não tenha a marca de Raimi. 

E isso é uma das poucas resenhas positivas que o filme recebeu. Te mando para o Metacritic para um PANORAMA das outras. Atalho: o adjetivo mais usado é "CHATO" [alguns são mais drásticos, como Manohla Dargis, do New York Times: Ainda conseguem os grandes estúdios produzir mágica? Depois de olhar Oz: Mágico e Poderoso, um amontoado confuso e desanimador de muito dinheiro, poucas idéias e imagens feias, a resposta parece ser não]. Sinta-se livre para pensar que a esses críticos-blasés falta o ESPÍRITO NERD necessário para sacar um filme de Sam Raimi, mesmo que seja para odiá-lo. 

Todos podemos concordar, no entanto, que a entrevista de Mila Kunis para Chris Stark, da BBC Radio 1, que ganhou alguma repercussão durante a semana pela sua espontaneidade, foi um negócio massa. Deixo o vídeo como um paliativo para aqueles que se sentem defraudados por um texto que não diz se o filme é bom ou não!

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