GILBER SELDES, KRAZY KAT [DE GEORGE HERRIMAN] E A ARTE POPULAR: “SEMPRE EXISTIRAM COISAS EFÊMERAS. TEMOS QUE TENTAR QUE ELAS SEJAM BOAS”. NO FINAL, DEU TUDO ERRADO.



[MEMÓRIA #24]                                         * * *                                                 [14/3/2013]

Os quadrinhos, acredite, já tiveram um vocal defensor de CREDIBILIDADE: Gilbert Seldes, considerado um dos principais jornalistas americanos do início do século passado [e capaz de ACOTOVELAR-SE e TROCAR FARPAS com pessoas do quilate de H. L. Mencken e Ernest Hemingway], editor da revista The Dial em sua fase modernista [quando publicou pela primeira vez The Wasteland, um dos principais poemas de T. S. Elliot] e precursor da crítica cultural às cultura popular, dedicou às hqs dois capítulos de um de seus principais livros, The Seven Lively Arts [de 1924, do qual tirei a FRASE TÍTULO e disponível em sua integralidade aqui].

O primeiro deles, no entanto, já começou reconhecendo que a situação não era NADA FÁCIL: Seldes começa afirmando que...

De todas as artes vivas ["lively arts", pra você sacar a traquinagem do título do livro], a dos quadrinhos é a mais desprezada, e, talvez com a exceção dos filmes, é a mais popular. Aproximadamente vinte milhões de pessoas acompanham com interesse, curiosidade e diversão o destino diário de cinco ou dez heróis das histórias em quadrinhos, e que eles façam isso é considerado por todos aqueles que tem alguma pretensão de ter bom gosto e cultura como um sintoma de crassa vulgaridade, de estupidez, e, pelo que sei, de uma vida derrotada e inibida. Nem preciso acrescentar que aqueles que acham isso das histórias em quadrinhos apenas raramente tem alguma consideração sobre o objeto de seu desgosto.

...para depois TECER COMENTÁRIOS sobre tiras em quadrinhos que hoje são consideradas PRECURSORAS DO MEIO, como Mutt e Jeff, de Bud Fisher, e Katzenjammer Kids, de Rudolph Dirks e Harold H. Knerr.

O segundo texto, praticamente um PANEGÍRICO, é dedicado àquela que Seldes considerava a principal obra em quadrinhos da época: Krazy Kat, de George Herrimann, que chegou a ser publicada no Brasil na revista Tico Tico com o nome de Gato Maluco.



A trama é que Krazy (andrógino, mas conforme o seu criador disposto a ser qualquer um) está apaixonado pelo rato Ignatz [Ignatz Mouse, que, aliás, deu nome ao Prêmio Ignatz]; Ignatz, que é casado, mas um vadio, despreza Kat e a alegria de sua vida é "Krease that Kat's bean with a brick" [tocar um tijolo na cabeça de Kat", pra traduzir de forma LIVRE], com um tijolo da olaria de Kolin Kelly. O tolo Kat [...] toma o tijolo, por uma lógica e uma memória cósmica a ser explicada, como um símbolo de amor; não pode, portanto, apreciar os esforços do policial B. Pupp para protegê-lo e obstaculizar as atividades do rato Ignatz [...]. Uma guerra mortal é travada entre Ignatz e Pupp, esse último apaixonado por Krazy; e frequentemente existem tiras nas quais Krazy e Ignatz conspiram juntos para despistar o policial, ambos desejando a mesma coisa, mas por motivos cruzados. Essa é a trama principal; é óbvio que o tijolo tem pouco a ver com os finais violentos de outras tiras, já que está sobrecarregado de emoções. Muitas vezes ele não vem ao fim, mas ao início de uma ação; outras, ele não vem. É um símbolo.

Proverbial imagem que vale por mil palavras #242147

O tema é maior que o trama. John Alden Carpenter destacou [...] que Krazy Kat é a combinação perfeita de Parsifal e Dom Quixote, o bobo perfeito e o cavaleiro perfeito. Ignatz é Sancho Pança e, eu diria, Lúcifer  Ele despreza os desvios sentimentais e as divagações filosóficas de Krazy; ele interrompe com um tijolo bem dirigido os excessos românticos de seu companheiro. [...] Ignatz "não tem tempo" para bobagens; ele é um realista e Vê as Coisas como Elas SÃO. "Não acredito em Papai Noel", diz; "tenho a mente muito aberta e avançada para essas bobagens".

Mas o sr. Herriman, excelente na ironia, entende de compaixão. É o destino de Ignatz nunca saber o que o tijolo significa para Krazy. Ele não pode entrar na memória genética de Kat, que vai até os tempos da Cleópatra, de Bubastis, quando os gatos eram sagrados. Naquela época, em um belo dia, um rato se apaixonou por Krazy, o belo filho de Kleopatra, Kat; tímido, e aconselhado por um adivinho para escrever para seu amor, ele esculpiu a declaração em um tijolo, jogando a "missiva" que, embora aceita, quase matou Kat. [...] Mas apenas Kat sabe disso. Então, no final, é o romântico incurável, vítima de um Bovarismo agudo, que triunfa; pois Krazy desmaia todos os dias em plena posse de sua ilusão, e Ignatz, burramente jogando o seu tijolo, pensando em ferir, alimenta as ilusões que mantém Krazy feliz.

Ele tá falando do ORIGINAL, seu NERD.
Alguma das "lively arts" defendidas por Seldes de fato acabaram ganhando um certo PRESTÍGIO HIGHBROW [o jazz, por exemplo]. Outras [vaudeville] praticamente desapareceram. Mas de qualquer forma, tudo deu errado: o crítico foi acusado de ser o precursor do emporcalhamento da Arte com “A” maiúsculo nos EUA e, ao final de sua vida [retirado da vida pública desde o início dos anos 60 e sofrendo de diversos problemas de saúde, morreu em 1970], reconheceu que a cultura americana estava sendo "engolida por mediocridade produzida em massa".

Tudo isso é ruim para nós, que curtimos esse negócio que é a EXPRESSÃO CULTURAL HUMANA [:~~~~~~~], e seria causa de desespero para o próprio Seldes. É a tese, pelo menos, de Mark Steyn, do New Criterion, nessa resenha de Gilbert Seldes & the Transformation of Cultural Criticism in the United States, biografia escrita por Michael Kammen, publicada pela revista em 1996: desenvolveram-se critérios porcos para avaliar arte popular, que agora também são aplicados à arte highbrow, terminando por emporcalhar uma e outra -- o contrário do objetivo de Seldes:

De uma forma muito real, como Kammen diria, as vítimas do processo que Seldes colocou em marcha incluem tanto a disciplina da crítica e a própria alta cultura americana (reconhecidamente uma flor delicada). Mas a terceira vítima parece ser a própria cultura pop. Enquanto a cultura popular é estuda e analisada de forma ainda mais ávida, eles acabam se perseguindo em círculos. O garanhão cult do circuito dos estudos culturais é Quentin Tarantino, cujo filme Pulp Fiction é dissecado infinitamente em faculdades de todo o país. Mas o filme em si mesmo um produto dos estudos culturais: cada sequência, cada cena, é tirada de algum artefato pop-cultural dos últimos vinte anos. Na Vanity Fair, em 1922, Seldes escreveu que o vaudeville era "o único gênero que conheço que pode viver fazendo uma versão burlesca de si mesmo". Não pode, no entanto. Vaudeville morreu, assim como o pastelão, o revue, a comédia musical. Hoje em dia, Quentin e as horas de Taranteenybooppers apenas conseguem fazer filmes que parecem outros filmes, discos pop que parecem outros discos pop. Lutando para escapar do bombardeio incessante dos "estudos culturais", as artes vivas já não parecem tão vivas.

                  

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