EC COMICS: OS RESENHISTA PIRA, PARTE 2


[NFN DIÁRIO #180]                                        * * *                                                [21/2/2013]

Mais calma.

Antes da resenha de Chris Mautner que gerou a discussão do OS RESENHISTA PIRA, PARTE 1, o Hooded Utilitarian republicou uma análise de Ng Suat Tong para os gibis da EC como um todo. O texto, de novo, é longo [de fato, tem duas partes: uma e duas]: vou me concentrar em dois trechos representativos, um de cada parte, cada um falando de uma história diferente.

Primeiro, vamos a Master Race, clássica história desenhada por Bernard Krigstein [+], com roteiros de Al Feldstein, publicada em abril de 1955 na revista Impact.

Em um determinado momento de seu famoso ensaio sobre a história "Master Race", de Bernard Krigstein, Art Spiegelman [+] deixa passar um comentário revelador entre seus elogios efusivos pelas maravilhas técnicas da história de Krigstein: ele chama o assunto de "Master Race" de "tematicamente maduro para um gibi". Depois de trinta anos, essa observação parece quase um pedido para os leitores dar a Krigstein algum crédito porque ele e Feldstein estavam abordando algo um pouco mais desafiador do que o gibi para crianças normal. 

O próprio Feldstein era mais realista em relação à história, chamando ela apenas de "boa", com Krigstein "[melhorando] o lado artístico da história tanto que acho que realmente fizemos algo revolucionário". No entanto, uma história fraca, não importa que tenha sido magistralmente executada, não deveria ser desculpada com base em maturidade temática, a base mínima de qualquer obra de trabalho adulta.



"Master Race" é, no entanto, uma história para crianças. Talvez uma boa história (e isso não é indiscutível) para crianças, mas ainda uma história para crianças. Como uma história para crianças, não contém um iota da humanidade encontrada no diário de uma famosa garota de treze anos, escrito durante a Segunda Guerra Mundial em Amsterdam. É patético que ainda seja considerada uma das melhores histórias criadas em quadrinhos.

Depois, comentando as histórias de caças desenhadas por Alex Toth [+] e escritas por Harvey Kutzman [+], para os gibis de guerra da EC, Thunder Jet e F-86 Sabre Jet:

Essas duas histórias conhecidas são belamente ilustradas com aviões desenhados de forma clara e precisa no minimalismo geométrico típico de Toth. "Thunder Jet" se propõe a fornecer ao leitor uma carona com um piloto de um Thunder Jet através do 'Vale dos Migs' [...].

Enquanto a história retrata um nível alto de realização artística, a sua narração esperneia com maneirismos hard-boiled insípidos, que não pareceriam fora de lugar em um gibi moderno de super-heróis. A história é desprovida de qualquer emoção humana reconhecível, seja medo, remorso ou coragem. Talvez exista um quê de arrogância, mas nada mais. Nada além além da simples afirmação dos fatos: em outras palavras, é um manual técnico sem qualquer interesse humano. Se o trabalho for avaliado como um conto de aventura, o leitor vai procurar em vão por evidências de heroísmo ou qualquer traço de emoção visceral. É um prazer para os olhos e isso é tudo.

Senhores, que tudo!

Eddie Campbell [+], no The Comics Journal, leu o artigo de Ng Suat Tong, a resenha de Chris Mautner e os comentários de Jeet Heer à resposta de Gary Groth a Mautner e não se conformou

Com a chegada dos quadrinhos, depois de quarenta anos, ao mundo da aceitação de verdade, as chances são que agora alguém não vai ser expulso a risadas de uma sala por colocá-los no mesmo patamar que a literatura. O lado ruim desse reconhecimento do meio é que ele também ganhou uma nova espécie de crítico que exige que as histórias em quadrinhos sejam avaliadas com os parâmetros da LITERATURA. Desde que começou a invasão desses "literaries", observei uma tendência a se fazer as seguintes perguntas: se isso não fosse uma hq, seria digna de nota? A história seria boa se fosse em prosa e se colocada para competir com o lado do mundo da prosa? Se nós tirássemos todas essas malditas imagens, o que sobrou valeria a pena?

Eu sei que a pergunta era retórica, mas
CALABOCA E JACK KIRBY

[...] Os quadrinhos tiveram diferentes tipos de críticas em épocas diferentes. Lembro de uma fase anterior, na qual o crítico francês Maurice Horn (acho que era ele) fazia o esforço de comparar os quadrinhos (ele escrevia sobre Tarzan e Buck Rogers e Flash Gordon) a óperas do século XVIII. Estudando a ópera, pela sua teoria, não é inteligente dar muita atenção crítica à história, com todos os seus temas pastorais agradáveis, com os pastores e as ninas. A nossa atenção é mais adequadamente aplicada para o uso dramático da música, e as belezas que o ouvido atento pode encontrar nela. Perceba que se você isolar a música, a ópera não deixa de ser música dramático-narrativa. Permanece bastante diferente em forma e propósito da música mais abstrata de uma sonata instrumental. Aplicando os mesmos princípios aos quadrinhos, a arte pode ser encontrada na história que o cartunista conta com seus traços gráficos, o uso de uma série de efeitos gráficos e nas formas de se ver e representar. No trabalho de um artista excepcional pode existir toda uma outra história acontecendo. Isso foi bem explicado por Robert Fiore em sua resposta para Ng Suat Tong, embora eu não ache que ninguém até agora tenha compreendido:

O que os quadrinhos nos dão, mais do que qualquer outra coisa, é a experiência dos quadrinhos. O que eu quero dizer é que a forma pela qual um determinado quadrinista retrata o mundo, a subjetividade meio que particular que é o privilégio especial do quadrinista, e a forma pela qual o quadrinista conta a sua história de quadrinho em quadrinho. Você pode tirar essa experiência de quadrinhos cujo conteúdo intelectual é bastante insignificante.

Kim Thompson apareceu nos comentários e tentou SUMULAR o argumento, de forma CONFUNCIANA: "reclamar que um gibi não é bom porque a história é ruim é como reclamar que a água não é um bom líquido porque o oxigênio não é algo molhado".

Jack Davis teve mais sucesso sumulando a questão GRAFICAMENTE,
o que diz muito sobre a própria discussão.

O Hooded Utilitarian, que curte uma discussão, dedicou um roundtable ao tema. São mais SEIS artigos, incluindo uma resposta do próprio Ng Suat Tong. Se você estiver interessado, esse é o caminho.

Mas existe uma SAÍDA PELA TANGENTE: Gene Philips, do Archetypal Archive, novamente abordou a questão com base no RIGOR TERMINOLÓGICO. São todos uns ELITISTAS, é o que ele diz, só que de RAMIFICAÇÕES DIFERENTES. Para explicar a sua tese, foi ao texto de Ng Suat Tong [NST] e, de novo, ao de Gary Groth:

Na crítica literária, essa "superioridade percebida" [um dos elementos que formam a MENTALIDADE ELITISTA] se manifesta na devoção do sujeito a um parâmetro uniforme de medida, ao contrário de um parâmetro multivalente de medidas, que é a marca do pluralismo [crítico]. Os elitistas medem todas as coisas com a mesma régua. No entanto, em vez de escolher medir os objetos com o lado dos "centímetros da régua, ou do lado com os "metros", o crítico literário elitista mede em termos ou de "forma (o "katholou" de Aristóteles) ou "conteúdo" ("hupothenta").

A citação de NST acima mostra que ele é um "elitista formalista". 

O "elitista formalista" está preocupado em ver se todos os trabalhos se enquadram no critério de serem excelentes por virtude de sua forma. Formas ingênuas de narrativas, isto é, narrativas que simplesmente contam uma história entretida, sejam elas "pulp" ou alguma forma popular parecida, não podem passar por essa porta de forma alguma. Se NST pratica "elitismo formalista" em todos os seus ensaios, nem sei, nem me importa. Mas na frase acima ele deixa claro que a forma que eles e outros chamam de "ficção pulp" não pode, sob nenhuma circunstância, passar pelo estrito exame que avalia o que NST considera "os melhores gibis já feitos".

[...] Por outro lado, nos temos o ensaio de Gary Groth defendendo as séries da EC de uma resenha contrária de Chris Mautner [...] Aqui, apenas pretendo mostrar que o ensaio de Groth também é uma prova de um outro tipo de elitismo, o "elitismo de conteúdo". 

[...] a sua defesa dos gibis da EC tem o seu fundamento não na defesa de sua forma artística, mas em colocá-los em um contexto histórico no que se refere a retratar "drama", ou, em alguns casos, "melodrama".

"Elitismo de conteúdo" é certamente um pouco mais palatável que o "elitismo formalista", onde um crítico como NST pode usar parâmetros ainda menos rigosos do que os apresentados por Groth. Mas, no fim, ambos tem mais em comum do que a crítica pluralista, que pode fazer as suas escolhas sem privilegiar apenas a forma ou o conteúdo.

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