EC COMICS: OS RESENHISTA PIRA, PARTE 1


[NFN DIÁRIO #178]                                        * * *                                                [19/2/2013]

Te acalma aí que isso pode demorar um pouco.

Qualquer coisa como quatro meses atrás, linkei aqui uma resenha de Chris Mautner, no CBR, sobre Corpse on the Imjin! and Other Stories [+] e Came the Dawn and Other Stories [+], coletâneas lançadas pela Fantagraphics com histórias de Harvey Kurtzman [+] e Wally Wood [+] para a editora EC.

Você pode conferir aqui: na época, já dizia que o resultado final não era favorável às histórias:

Teve uma época na minha vida (a minha adolescência, pra ser exato) na qual eu concordava com o consenso geral em relação à EC, na forma em que dito por Groth, "uma referência em quadrinhos de qualidade". Relendo eles agora, no entanto, me pergunto exatamente o que me chamou tanto a atenção. Fora alguns momentos estelares em Imjin, é difícil tratar isso aqui -- especialmente as história de Came the Dawn -- como digno dos elogios recebidos.

Aí Gary Groth, editor do The Comics Journal e da Fantagraphics, escreveu um artigo em resposta no próprio TCJ [você não pode exigir de toda a INTERNERD a mesma agilidade do NEWFRONTIERS]. O texto é gigante e eu não poderia te resumir aqui nem seus pontos principais [e isso que não vamos nem entrar na caixa de comentários, onde o próprio Chris Mautner se somou à discussão, junto com gente como Jeet Heer e Kim Thompson]. Ficamos com um PONTO POSITIVO da linha da EC...

Já disse que Gaines e Feldstein tinham um gosto excelente para escolher seus artistas, mas isso é dizer pouco. [William] Gaines [+] e [Al] Feldstein nunca pediram para seus artistas que imitassem outros artistas (ao contrário de tantos outras ordens de editores nesse sentido) e encorajavam eles a estabelecer a sua própria "voz". 

Pra você que está aí se perguntando qualéqueé a do
proverbial CORPO NO IMJIN
...e algo assim como OS PONTOS NEGATIVOS:

[...] os defeitos da EC são bastante óbvios: até mesmo quando os artistas estavam buscando uma seriedade maior que a do gore irônico das histórias de terror  e das revoltantes tramas das primeiras histórias de ficção científica, ou até mesmo das inteligentes, mas previsíveis, histórias de crime e suspense, a escrita era cansativa, prolixa e desajeitada, e os artistas estavam amarrados pela grade visual rígida (que Kurtzman e Craig evitavam escrevendo as suas próprias histórias, e em relação a qual Krigstein se rebelava de tempos em tempos).

"Escrita cansativa, prolixa e desajeitada" é um
eufemismo para dizer que o roteirista
queria soterrar a página com PALAVRAS
Daí Gene Philips, do Archetypal Archive [e ex-colaborador do próprio TCJ e uma espécie de OMBUDSMAN do RESENHISMO QUADRINÍSTICO], escreveu uma série de quatro artigos sobre a CONTROVÉRSIA: na verdade, uma METACRÍTICA aos parâmetros pelos quais Gary Groth PAUTA o seu resenhismo que incidentalmente passa pelos gibis da EC.

O primeiro chama de BLEFE POLITICAMENTE CORRETO a opinião de Groth sobre William Gaines, o editor da EC na sua fase gibis-de-gênero. O ponto de partida é uma entrevista de Groth para Tom Spurgeon [ex-editor do TCJ, atualmente por trás do Comics Reporter], na qual comenta como Gaines era "generoso":

A palavra chave "politicamente correta" desse parágrafo é "generoso". De que forma Gaines era generoso com seus artistas? Ele deu para eles o direito de ser proprietário de suas histórias? Ele devolvia os originais? Ele ocasionalmente oferecia banquetes luxuosos e coisas do tipo?

Dos exemplos retóricos que eu apresentei acima, ouvi uma afirmativa em relação a apenas um deles: Gaines de fato aparentemente  distribuía benesses para *alguns* de seus colaboradores.



No entanto, não acho que simples benesses sejam o parâmetro pelo qual Groth ou a maior parte de seus colaboradores do Comics Journal julgaram editores. A posição comum expressa no Journal é que qualquer editora que não apoie totalmente a propriedade dos autores está no degrau mais baixo de todos.

No segundo, e com base em uma entrevista de Shelly Moldoff [que fez aquelas histórias com um jeito de ficção científica para o Batman na década de 60] feita por Roy Thomas [+] para o Alter Ego, Philips continuou argumentando sobre a diferença do tratamento dado a Gaines e aos editores da Marvel e da DC:

Mas acho que os elitistas são seletivos de forma inconsciente no que se refere as infrações supostamente cometidas pelos seus heróis. As infrações de Gaines, mesmo se forem verdadeiras, são notícia velha, ninguém se importa se ele passou para trás ou não um personagem secundário como Moldoff. Mas os erros de Stan Lee sobre Jack Kirby, os da DC contra Siegel e Shuster, esses são sempre novidade, porque a Marvel e a DC ainda são "o inimigo", hoje e sempre, em um mundo sem fim.

A bem da verdade, somos todos obrigados a simpatizar com um
homem que consegue manter esse grau de organização.


O terceiro é dedicado à resenha original de Mautner: especificamente, para definir MELODRAMA, um dos elementos que Mautner viu como CRÍTICO nos gibis.

[...] Mautner não leva em conta que a alegada misoginia, como os finais exageradamente melodramáticos, eram principalmente um artificio para entreter o público, e não para revelar as tendências pessoais dos autores. Isso não significa que não exista nenhuma relação entre as coisas, mas Mautner não se deu ao trabalho de avaliar o público que os criadores da EC aspiravam cativar, e nem a prevalência desses artifícios no entretenimento mainstream do período.

Finalmente, o quarto se concentra nesse último artigo de Groth. O ponto de partida é uma de suas afirmações no curso da DISSERTAÇÃO: "devo dizer aqui o óbvio, que é que não existe um consenso sobre o que constitui exatamente valor literário".

Em poucos, se é que em algum, ensaio, Groth admite essa falta de consenso. Uma e outra vez, dependendo do veredito que Groth produz, ele ressalta o "argumento do gosto": que uma pessoas de bom gosto são uma frente unida contra as hordas vagantes dos sub-alfabetizados. [...] Arte é arte e o Justiceiro é lixo e os dois nunca se encontrarão.


Gene Philips que se cuide!
Essas resenhas dos gibis da EC tiveram AINDA MAIS desdobramentos, mas isso é link pra outro dia.

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