O MESTRE, DE PAUL THOMAS ANDERSON: OS FATOS, A FICÇÃO, O OBJETIVO, O RESENHISMO


[NFN 100MG #41]                                         * * *                                                  [23/1/2013]

Nesta sexta-feira estreia finalmente no Brasil O Mestre [+], novo filme de Paul Thomas Anderson [+] que já tinha sido alvo de um NFN 100MG. Uma nova postagem é algo que se mostra mais DIGNO e NECESSÁRIO, tanto pela a credibilidade de Anderson, um dos grandes diretores de cinema em atividade nos EUA, quanto pelo TIMING oportuno e pela repercussão que o filme ganhou entre a crítica articulada.

Parto, novamente, da relação entre a seita retratada no filme [A Causa], comandada pelo personagem interpretado por Philip Seymour Hoffman, e a Cientologia do não menos excelente ator L. Ron Hubbard. Nessa entrevista para Miguel Mora, do El País,  um Paul Thomas Anderson na defensiva  [várias respostas são perguntas dirigidas ao entrevistador; outras tantas são secas e diversionistas] e em versão politicamente correta [defende a Cientologia como religião, ataca... o Vaticano] comenta qual a ligação entre uma coisa e outra:

P. Você quis contar a fundação real da Cientologia?

R. É a parte de trás da história. Fiz o mesmo com a pornografia em Boogie Nights. Disseram, "vai fazer um filme pornô", mas quando assistiram entenderam que não era um filme pornô. A mesma coisa com o petróleo em Sangue Negro, também não era um documentário. Parece inevitável que as pessoas esperem que eu faça uma espécie de documentário. Se você quer aprender sobre algum tema, assiste um documentário. Eu faço ficção.

P. Mas Dodd, o Mestre, é o fundador da Cientologia.

R. Sim, ainda que tenha coisas inventadas. Não sou um escritor bom o suficiente como para criar do nada. Necessito roubar, colecionar peças e juntá-las; roubo de mim mesmo, das coisas que um amigo me conta, do que leio, das figuras históricas... Nesse caso, o personagem é o princípio de tudo. É uma figura muito polêmica, as pessoas sentem muita curiosidade e eu entendo isso. É uma história única no nosso tempo, ao menos na história recente: assistir a criação de uma religião. Um cara criando uma religião: é uma grande história!

"L. Ron Hubbard, por exemplo, nunca contracenou com
alguém indicado ao Oscar!"

Para apresentá-lo em outra entrevista, agora no New York Times, Dennis Lim deu detalhes sobre o MODUS OPERANDI de Anderson em sua EMPREITADA CRIMINOSA:


Para se preparar para "O Mestre", [...] ele [P. T. Anderson] rastreou tantos livros quando conseguiu encontrar sobre os ensinamentos do fundador da Cientologia, L. Ron Hubbard. Eles incluem "Dianetics in Limbo", o relato pessoal de Helen O'Brien, uma das primeiras seguidoras do movimento (e inspiração para o personagem de Laura Dern no filme) e "Mission Into Time" (1973), do próprio Hubbard, sobre uma viagem marítima envolvendo caças a tesouros e vidas pregressas ("ele realmente perdendo o juízo nessa altura", diz o Sr. Anderson). Passou os olhos sobre vários escritos de ex-cientólogos e de pioneiros de movimentos derivados como Dianology and Dianotes, e segui por vários anos The Aberree, um boletim de notícias da Cientologia.

Se você quer seguir por essa VERTENTE, em busca de uma comparação mais detalhada sobre a Cientologia real e A Causa do filme, recomendo esse artigo, de Robert Dean Lurie, no American Conservative. Lá você aprende que:

O Mestre é realmente muito mais do que um "filme da Cientologia". Mesmo assim, Anderson claramente estudou "os inícios do movimento" de perto; quase todos os aspectos da história de Dodd/A Causa fecham com os da história da Cientologia, entre eles o temperamento volátil do seu criador e a sua recusa em debater com seus críticos abertamente; à sua devoção incansável à sua esposa crente; o problemático sósia do seu filho, que vê a questão no que ainda é anseio pela aprovação de seu pai; o grupo de esfarrapados que pulam de um lugar para outro (Filadélfia, Phoenix, Inglaterra); e a metátese do movimento de auto-ajuda em religião com sotaque de ficção científica.

Por aqui, nós partimos para o filme e o seu ENCAIXE na filmografia de Paul Thomas Anderson: O Mestre faz parte de um projeto maior do diretor. É o que explica, pelo menos, o próprio Dennis Lim, na entrevista ao New York Times referida ali em cima:

Mas as suas inclinações cinéfilas foram alcançadas recentemente por um mergulho profundo na história americana, uma imersão detalhada no passado que busca descobrir o funcionamento misterioso da mente americana. Juntos, "Sangue Negro" e "O Mestre" falam alto sobre a relação entrelaçada deste país com o trabalho, o status, o dinheiro e a crença. O Sr. Anderson diz que ele não tem certeza sobre como explicar o seu papel como historiador da psique nacional. "É que existe alguma coisa sobre essas eras", ele diz. "Quero dizer, falando sobre vidas passadas. É como se você tivesse negócios para terminar lá".

O seu próximo projeto, que vai levá-lo a outro capítulo do século, o final dos anos 60 e início dos 70, é uma adaptação de "Vício Inerente", o livro de 2009 de Thomas Pynchon. O livro é uma saga drogada de um detetive, e o Sr. Anderson encontrou uma valiosa "bíblia para pesquisa", ele diz, no gibi underground Fabulous Freak Brothers.

Philip Seymour Hoffman seria
um bom Fat Freddy.
Jacob Mikanowski, em artigo para o Los Angeles Review of Books, também fez comentários nesse sentido:

Sangue Negro estava ambientado no fechamento da fronteira. Os anos 50 de O Mestre são um momento parecido, quando outro tipo de liberdade estava de saída. Freddie é apenas outro vagabundo, mas ele também passa por todo um continente de liberdades americanas sem restrições e traumas de guerra, um país sem vigilância no qual você podia ascender de lugar nenhum ou fugir e desaparecer. É um país qe na década de 50 estava em processo de desaparecimento, e a Cientologia, ou A Causa, estava ajudando ele nisso. O movimento de Dodd foi o herdeiro de dois séculos de revivalismo religioso e exploração espiritual, que começou com Shakers e Seventh Day Dunkers, passou por Esalen e a Unification Church (para uma vislumbre desse mundo, nada se equipara ao livro de Paul Johnson The Kingdom of Matthias, no qual um carpinteiro nova-iorquino muito parecido com Hubbard subidamente abandona o seu ofício para pregar a transmigração de almas e praticar o amor livre).


O próximo filme de Paul Thomas Anderson
é uma adaptação de um livro de Thomas Pynchon
pela via de Fabulous Freak Brothers.
Achei que o teu cérebro precisaria  de uns
2 parágrafos para ASSIMILAR O CONCEITO
Feliz? Situado? Então tome resenhismo NEGATIVO, porque para elogios bastam os artigos já linkados: o Paul Johnson recomendado por Jacob Mikanowski é Paul E. Johnson, historiador americano. A correção me serve de gancho porque Peter Whittle escreveu uma resenha do filme para a britânica Standpoint Magazine, revista que publica [esporadicamente] as colunas de Paul Johnson, o historiador inglês, e é editada por seu filho, Daniel Johnson. 

Te dou o link não apenas pra fazer esse QUEM É QUEM da genealogia JOHNSON, mas pela crítica de Whittle, que acusou o filme de confundir vazio e lentidão com substância e profundidade:

[…] Alguns diretores, como Ridley Scott, têm sido desculpados, por costume, pela sua narrativa algumas vezes fraca, por causa da beleza de seus visuais. Mas a exuberante fotografia de O Mestre não compensa da mesma forma, pela impressão que gradualmente se forma de que Anderson considera uma narrativa inteligente e compreensível como algo abaixo dele. Você começa a ficar ressentido com a sugestão implícita de que é vulgar esperar que a história tenha um objetivo.

Fazer sentido é para os fracos.

Mas até mesmo Whittle fez concessões, como você viu, à fotografia do filme. Essa também foi elogiada por Geoffrey O'Brien, no New York Review of Books [o artigo tem apenas a sua versão resumida disponível de forma gratuita no site]:

O Mestre foi filmado em 65 milímetros, o primeiro filme de ficção nesse formato desde o Hamlet de Kenneth Branagh, de 1996, e possivelmente o último, e as cores saturadas e os pequenos detalhes do filme dão para cada sequência a profundidade e a solidez de um mundo real e frequentemente assustadoramente belo. As sequencias mais curtas, e a história inicial de Freddie é contada em uma sequência assim, parece totalmente cheia, totalmente realizada. A sequência na loja de departamento por si só conjura com extraordinária fidelidade a textura e coloração de uma revista de fotografias do pós-guerra, tirada das páginas de Life e Vogue, com todos os desejos elusivos que elas prometem cumprir. Nesse episódio, algumas mostras rápidas da iluminação extravagantemente irreal dos retratos de Freddie fornecem um panorama da família americana dos anos 50 da forma mais honestamente grotesca: não é uma avaliação sobre a família americana, mas uma medida do quanto Freddie está distante desta vida doméstica. Esses atalhos fotográficos sempre foram uma marca dos filmes de Anderson, mas aqui estão mais integrados do que nunca, produzindo uma abundância de expressividade por todos os lados, e não efeitos chamativos, mas mais significados do que você é capaz de compreender.

Perceba: além de dois jornais com credibilidade entre o público SOFISTICADÔ, tirei os links do NEW YORK REVIEW OF BOOKS, LOS ANGELES REVIEW OF BOOKS e do AMERICAN CONSERVATIVE. Mesmo que o filme seja ruim, nada tirará a sua CREDIBILIDADE HIGH BROW.

Um comentário:

Anônimo disse...

Cara, já tava louco pra ver o filme, a tua postagem só aumentou meu interesse. Parabéns pelo trabalho!