"FOSSE PAPAI NOEL ÀS AVESSAS UM SUTIL E CUIDADOSAMENTE MODULADO ESTUDO DE PERSONAGEM, COM ALGUMAS PIADAS NA RECEITA, ESSE SERIA O INÍCIO IDEAL"


[NFN 100MG #37]                                          * * *                                                   [2/1/2013]

Todos nós ganhamos um presente de natal nesse final de ano: um PRETEXTO para eu linkar aqui artigos sobre Papai Noel às Avessas, obra natalina de Terry Zwigoff [+], lançada em 2003 e protagonizada por Billy Bob Thorton, um Papai Noel alcoólatra, ladrão e obcecado com mulheres gordas.

O filme, tão totalmente excelente quanto politicamente incorreto, teve problemas em sua produção, o que resultou na existência de TRÊS VERSÕES diferentes: a lançada nos cinemas, Bad Santa, uma versão estendida, Bad(der) Santa, e a versão do diretor, Bad Santa Director's Cut, a MAIS CURTA de todas.

Os fatos que levaram a esse desdobramento você encontra nesse artigo de Scott Tobias para a seção The New Cult Canon, do AV Club:

[...] a Disney ficou profundamente infeliz com Papai Noel às Avessas nos meses e semanas que antecederam ao seu lançamento. Ser proprietária da Miramax (e o seu selo de filmes de gênero, Dimension, que foi quem no fim lançou Papai Noel às Avessas) sempre deu ao estúdio algum grau de negativa plausível; poderia colher os benefícios dos filmes dirigidos a adultos como Pulp Fiction, sem manchar a sua imagem limpa, e apontar ao respeito à soberania de Bob e Harvey Weinstein no caso do surgimento de alguma controvérsia. Mas Papai Noel é uma figura sagrada, e nenhum filme nunca questionou isso antes, muito menos o transformou em um insaciável bêbado espertinho, fonte primária de quase 300 profanidades em 90 minutos. A disputa entre Zwigoff e os seus chefes resultou em um final apressado que tentou dar ao público um pouso mais suave, além de pelo menos três cortes diferentes em DVD, incluindo uma versão "unrated" mais longa, chamada Badder Santa, e uma versão do diretor que na verdade é três minutos mais curta que a versão dos cinemas. O filme resultou ser um sucesso, a pesar do evidente constrangimento da Disney, o que mostra o quanto as pessoas estavam sedentas por uma diversão de final de ano que não tivesse o obrigatório jeito meloso.


Mike D'Angelo, como eu se aproveitando da PAUTA NATALINA [ainda que em momento mais pertinente], de novo no AV Club, escreveu um texto comparando as cenas iniciais das diferentes versões: a conclusão é DESFAVORÁVEL à versão de Zwigoff.

Como um fã de Zwigoff, e como um acérrimo defensor da visão do artista quando quer que seja que ela bate de frente com interesses corporativos, eu gostaria muito de recomendar a versão do diretor. Mas eu não posso, porque ela não é tão boa. Em nenhum lugar a disparidade é tão aparente quanto na sequência de abertura do filme, que apresenta o misantrópico Papai Noel de shopping de Billy Bob Thoron sentando sozinho em um bar, acompanhado por um noturno de Chopin. Tanto na versão na versão do cinema quanto em Badder Santa, nessa sequência tem uma narração em off sardônica e profana, feita por Thorton, acrescentada pelos produtores contra a vontade de Zwigoff. A versão do excluiu o monólogo interno, permitindo que a nossa primeira visão desse lamentável espécime aconteça de uma forma mais sedada e visual. [...] É notável como a presença ou a ausência da narrativa em off marca o tom de todo o filme.

Ho.
No seu comentário de áudio para a versão do diretor, Zwigoff reclama que a narração em off entrega tudo mastigado para o espectador, verbalizando de forma desajeitada o que já é evidente pela expressão miserável do rosto de Thorton. O que é mais, ele gosta que não seja imediatamente claro se que o que nós estamos assistindo é uma comédia (na versão de Zwigoff, não se dá nenhuma risada até que Thorton vomita na rua, ao mesmo tempo em que o título aparece). Fosse Papai Noel às Avessas um sutil e cuidadosamente modulado estudo de personagem, com algumas piadas na receita, esse seria o início ideal. Mas nós estamos falando de um filme no qual Thorton dorme no seu trabalho e mija na sua roupa de Papai Noel; no qual uma piada recorrente é que ele gosta de sexo anal com mulheres gordas; no qual ele espanca um adolescente, dando repetidos socos na sua cara. A cada seis palavras, uma é "fuck" ou algum derivado dela. Não é um material sofisticado, fora do seu meta-sentido maior, de que é uma paródia dos filmes de final de ano sobre a improvável ligação entre adultos e crianças. E a última coisa que o filme precisa é uma cena de abertura sofisticada.

Tanto Tobias quanto D'Angelo encararam o filme pelo lado IRÔNICO, Papail Noel às Avessas como uma espécie de hino anti-natalino. Sean Higgins, um dia depois do natal, publicou no American Spectator um artigo no sentido contrário -- MEIO QUE:

Bons sentimentos.
A maioria dos clássicos filmes de final de ano transita entre o desespero e a misantropia, na verdade. Basicamente, existem dois tipos. O primeiro é formado por aquelas almas retorcidas e amargas que odeiam as festas de final de ano, e mesmo assim mudam o seu caráter por causa delas (pense no Ebenezer Scrooge de Charles Dickens ou o Grinch do Dr. Seuss).

O segundo tipo envolve pessoas decentes levadas ao cinismo ou ao desespero, mas que tem os seus problemas curados pelas festas (pense em Jimmy Stewart em A Felicidade Não Se Compra, que é impedido pelos seus anjos de cometer suicídio, ou o Charlie Brown, de Peanuts, que passa o seu episódio especial de Natal lamentando a sua vida).

Willie [protagonista do filme] essencialmente combina os personagens Scrooge/Grinch com os Jimmy Stewart/Charlie Brown: ele odeia as festas de final de ano e é levado ao desespero por elas, em determinado momento inclusive tentando o suicídio.

[...] no final do filme, tem até mesmo uma cena acolhedora e nostálgica onde Willie, o garoto, e a namorada de Willie se transformam em uma família, decorando a casa enquanto a versão de "Have Yourself a Merry Little Christmas" de Bing Crosby toca na trilha sonora. É a primeira vez no filme em que uma música de final de ano não é usada de forma irônica.

No final, VATICINOU:

Suspeito que nos próximos anos, o brilho da nostalgia e da familiaridade vai crescer em Papai Noel às Avessas, ao ponto de que as pessoas vão esquecer que ele foi um filme controverso. Lembre-se, até mesmo A Felicidade Não se Compra foi um fracasso quando lançado em 1946.

Se o vaticínio é correto, podemos nos preparar para finais de ano mais INFÂMES -- e acostumarmos com silêncios incômodos durante a CEIA NATALINA.

Compare no Buscapé
Compare no Bondfaro

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