"ELE SUGERIU QUE ELE TINHA UMA OUTRA OPÇÃO, OUTRO EDITOR QUE ACEITARIA O TRABALHO DE ESCREVER A SÉRIE SE NINGUÉM MAIS PUDESSE FAZÊ-LO, MAS, DE VERDADE, QUE TIPO DE APOIO É ESSE?"



[MEMÓRIA#21]                                         * * *                                                   [4/1/2013]

No meio das festividades de final de ano, Peter David sofreu um pequeno derrame que paralisou parte do lado direito do seu corpo. O escritor está em franca recuperação [sua esposa tem atualizado o seu site, PeterDavid.net, diariamente para informar da evolução do problema], mas o MEMÓRIA do NEW FRONTIERSNERD lembrou de outro golpe que ele sofreu no passado -- o fim de sua primeira passagem pela série do Hulk, em 1998 [sim, você é velho].

Além de quadrinhos, Peter David escrevia a coluna BUT I DIGRESS, no Comics Buyer's Guide. Nessa, escrita à época, ele deu a sua versão dos fatos – em tom bastante MAGUARI.

De vez em quando, eu encontro Chris Claremont e Chris diz de forma bem intencionada como ele estava cuidando como a minha fase na série se estendia ano depois de ano, e que ele estava preocupado que eu ia bater o seu recorde em X-Men. Garanti para ele que isso nunca aconteceria porque, se não por qualquer outra coisa, a sua fase foi consecutiva e eu tive duas histórias de fill-in, então eu não poderia chegar à sua década e meia de qualquer forma. Mesmo assim, existe algum grau de ironia nisso, eu acho. Chris deixou os X-Men em circunstâncias cheias de pressão. Fans estavam reclamando acintosamente por computador em fóruns que ele não tinha mais nada a dizer sobre os personagens, e que era a hora de sangue novo. Os Poderes Que São queriam levar os personagens para caminhos que Chris não queria tomar, guiados pelo mesmo sangue novo. E então ele foi embora.

Acho que seria o auge do ego pensar que eu teria direito a um tratamento diferente desse.

Esperar ser tratado melhor que
o PAPAI SMURF: egolatria.
Porque o tempo passa, e chegou a um ponto em que, assombrem-se, Incredible Hulk não é mais um gibi no qual ninguém quer tocar nem com uma vara de dez metros. Não é mais uma série que eu possa escrever de forma a satisfazer os poderes que são. Mais é esperado dela, eu acho. Talvez seja porque os fãs mudam, ou talvez é porque eu aumentei as expectativas. Talvez o Hulk ter se tornado uma parte importante de Heroes Reborn e Heroes Return fez surgir o desejo de que o Hulk tomasse uma parte cada vez maior no Universo Marvel (muito embora esses tie-ins tenham levantado reclamações de leitores mais antigos, que estavam acostumados a ler Incredible Hulk sem ter que suportar o ônus de ler outras séries).

Não sei.

No final das contas, cabia a mim. Cabia a mim produzir as importantes histórias obrigatórioas centradas no Hulk que poderiam se estender por todo o Universo Marvel, de forma que mais crossovers pudessem ser feitos. Cabia a mim produzir um Hulk mais escuro, mais sórdido e mais selvagem (até mesmo mudo, foi sugerido) que o que estava sendo escrito. Eu não podia fazê-lo. Não podia, não iria, não deveria. O que for. Não faz diferença.
 
A mesma coluna nos oferece uma boa perspectiva sobre o que era a série mensal do Hulk, antes de David  [a época, funcionário do departamento de vendas] passar a escrevê-la. 

Peter David e Bob Harras, circa 1987.
No mesmo trecho, você ainda leva pra casa uma corneteada em Todd McFarlane [+], o que sempre é válido:
Então um dia, Bob Harras veio à minha sala -- depois das cinco, nisso eu sempre insisti, porque eu nunca discutia nada de natureza editorial enquanto eu estava no meu horário de trabalhar com as vendas -- e perguntou se eu estava interessado em escrever The Incredible Hulk.

Imediatamente soube que se Bob estava vindo a mim, o fundo do poço estava sendo raspado. Porque lidar com as bobagens e problemas politicamente incorretos de se contratar o cara das vendas se haviam outras opções. E Bob mais ou menos confirmou isso. Ele sugeriu que ele tinha uma outra opção, outro editor que aceitaria o trabalho de escrever a série se ninguém mais pudesse fazê-lo, mas, de verdade, que tipo de apoio é esse? Se existiam outras possibilidades no horizonte, eu certamente não sabia delas. Hulk era considerado um personagem de potencial limitado, e as vendas -- fora do pulo que deram quando John Byrne lidou com a série -- eram basicamente achatadas.

Não tinha o menor interesse em escrever a série. Não sabia o que fazer com ela. A única coisa que me pareceu remotamente interessante foi a noção de que o Hulk tinha se tornado cinza e astuto por Al Milgrom, e que eu poderia continuar usando essa incarnação do personagem se eu desejasse. Pensei que eu ficaria na série por talvez seis meses.

Ele também me perguntou se não me importaria trabalhar com esse artista que estava na série, Todd McFarlane. A sua arte tinha vários problemas, tantos que ao menos um outro escritor se recusou a trabalhar com ele, mas Bob viu algo nela e achou que tinha potencial. Ele estava relutante em tirá-lo da série para fazer um lugar para mim. Não tenho certeza se Bob teria demitido ele da série para me acomodar, mas não queria assumir o risco de custar a alguém o seu trabalho. Olhei para as páginas desenhadas de McFarlane para a última edição escrita por Al Milgrom, e era meio lamentável, mas eu já tinha visto coisas piores -- diabos, eu tinha trabalhado com coisas piores -- e concordei com Bob... Havia algum potencial ali. Então encolhi os ombros e disse, "claro, posso trabalhar com ele".

"Meio lamentável".
Absolutamente ninguém na Marvel se importava com o que eu ia fazer na série. Incredible Hulk sequer estava baixo a supervisão editorial de alguém. Era o suficientemente fim da várzea, acho, para evitar problemas eu fiz tudo que estava criativamente ao meu alcance para fazer com que a série chamasse a atenção dos fãs, e também fiz tudo que eu pude para deixar o artista a vontade. Todd quis desenhar máquinas grandes e robôs, então eu continuei fazendo cenas que precisassem disso. Todd queria desenhar o Wolverine, e eu movi montanhas -- incluindo muita negociação com o departamento-X, que realmente não queria emprestá-lo -- para que ele pudesse usá-lo em uma edição (#340). Todd me deu a capa dessa edição, a única arte original de McFarlane que eu tenho. Até hoje está pendurada na minha sala.

...tapando uma rachadura".
-- Peter David, nunca.

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