"SE SUPÕE QUE OS LEITORES NÃO PODEM TIRAR DISSO OUTRA CONCLUSÃO QUE NÃO SEJA QUE CADA UM PODE PROJETAR O QUE QUISER?"


[NFN DIÁRIO #137]                                         * * *                                                  [14/12/2012]

Tá vendo essa página aí do lado? Ela saiu de Amazing Spider-Man #699, revista escrita por Dan Slott e desenhada por Humberto Ramos e é a prova definitiva de que, ao menos nas hqs, existem destinos piores do que a morte: repare nos últimos dois quadrinhos, nos quais Peter Parker tem um FLASHBACK inusitado enquanto está VASCULHANDO as memórias do Dr. Octopus [não pergunte] que em uma história da década de 70 quase se casou com a Tia May [não pergunte II].

Quem primeiro levantou o DETALHE SÓRDIDO foi Rich Johnston, do Bleeding Cool, que, estava lá, preocupado com seus próprios problemas, quando encontrou o momento tentacle-porn entre pessoas da TERCEIRA IDADE em um gibi do HOMEM ARANHA.

Como todas as pessoas que estão envolvidas na INDÚSTRIA DOS QUADRINHOS estão apenas esperando o momento oportuno para trocar FARPAS...

Na foto: todas as pessoas da indústria dos
quadrinhos.
...a QUESTÃO virou tema de debate em um forum do site de John Byrne [+]. Novamente conforme informou Bleeding Cool, agora pelas mãos de Graeme McMillan, Dan Slott apareceu com uma defesa:

A sequência se passa ENTRE painéis. [...] Como todas as sequências que acontecem ENTRE painéis, tudo fica por conta da IMAGINAÇÃO DO LEITOR. Toda a cena só é "doentia" ou "nojenta" na medida que A TUA PRÓPRIA MENTE faz com que ela seja.

Ao que Byrne respondeu: "Eu acho que isso diz mais sobre esse autor, desesperadamente tentando voltar a vender!". Slott tentou contra-argumentar recorrendo à AMBIGUIDADE:

Mas FOI essa cena construída para PERMITIR que os leitores chegassem ao pior resultado ao qual as suas PRÓPRIAS mentes poderiam levá-los? Não. Nós deixamos isso para eles mesmos. 

Como TODAS as cenas que acontecem ENTRE painéis, tudo está no olho de quem vê.

Parece sensato? 

John Byrne não concordou ["porque não MOSTRAR um beijo, se um beijo foi tudo que aconteceu?"] e Santiago García, do Mandorla, aproveitou a oportunidade para tecer considerações NARRATIVAS [o NEW FRONTIERSNERD não é a CONTIGO, amigão], que partem dessa história e chegam à identidade secreta do Duende Verde no PERÍODO DITKO:

O argumento é realmente cínico, mas o que nos interessa aqui são as regras de funcionamento dos mecanismos narrativos. Regras às quais, uma vez que o autor se submete, já não pode deixar de fazê-lo. Ainda que acreditemos que o autor é Deus e pode fazer o que quiser com a sua obra, desde o momento em que está decidindo como vai ser a sua obra, está limitando as possibilidades do que pode fazer com ela. Ou seja, desde o momento em que se recorre à elipse, é razoável dizer que o que aconteceu está na imaginação do leitor e eu não disse que eles tenham feito nada além de se dar um beijo? [...] 

[...] voltamos de novo à lei da narração: se o Duende Verde era alguém anônimo, porque não mostrar o seu rosto? Cada vez que Ditko usava um recurso tão forçado quanto tapar a cara dele com uma gaveta, estava dizendo aos leitores que não podiam ver a cara do personagem. Se supõe que os leitores não podem tirar disso outra conclusão que não seja que cada um pode projetar o que quiser? Não, a única conclusão que podem tirar os leitores é que não podem ver a sua cara porque, se for assim, reconheceriam ao personagem [...].

Cada regra é uma cláusula do contrato narrativo assinado pelos leitores com o autor. E o autor que ignora as cláusulas perde a confiança dos leitores [...].

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