"O QUE ISSO DIRIA SOBRE MIM, SOBRE MINHA VÓ, SOBRE MINHA MÃE, QUE TENTOU ME CRIAR DO JEITO CERTO?"


[NFN DIÁRIO #132]                                          * * *                                                  [7/12/2012]

Rookie Magazine segue elogiando Chris Ware [+]. Depois do artigo INTIMISTA e PESSOAL sobre o homem do outro dia, agora eles me aparecem com essa entrevista, obra de Tavi Gevinson. Pra ver o humano [neurótico] por trás do gênio, leia o comentário que Ware fez sobre a sua própria adolescência:

Isso é uma questão complicada, considerando que eu acho que mutava a cada três meses mais ou menos, mas uma sequência de adjetivos gerais poderia ser: insuportável, desesperado, magro, de pele ruim, manipulador, inseguro, autoconsciente, bruto e desagradável. Passei muito tempo assistindo televisão e seguindo um programa de desenvolvimento de bom gosto musical que um amigo sem saber criou para mim (no caso, eu copiava tudo que ele gostava), e tentei o meu cabelo naturalmente faceiro parecer mais cumprido ao endireitá-lo com um secador de cabelos. Frequentei uma escola privada até o último ano do ensino fundamental em Omaha, Nebraska, onde vestia um "uniforme formal" que eu tentei modificar para expressar o meu verdadeiro eu através do uso de tênis ou de relógios digitais que não eram oficialmente regulados pelos Episcopais. Era definitivamente não-atlético e estava aterrorizado pela ideia de que um dia eu poderia ter que tirar a minha camiseta em público. Para compensar essa suposta deficiência, me meti de forma estúpida com várias substâncias experimentais, um período que acabou em um momento de auto-consciência depois de comprar as referidas substâncias enquanto dirigia o Oldsmobile Toronado de minha vó -- provavelmente o momento mais estúpido e vergonhoso da minha vida -- quando me vi pensando, e se eu fosse preso? O que isso diria sobre mim, sobre ela, e sobre a minha mãe, que tentou me criar do jeito certo? Felizmente, abandonei esse caminho particular de inquirição.

Por causa desse breve período em que experimentei substâncias, fiquei "interessado" na ideia dos anos 60 (ou o que quer que "a ideia dos anos 60" significassem para um garoto de classe média do meio oeste dos anos 80) e acabei comprando um monte dos chamados gibis underground no quarto dos fundos da loja de quadrinhos na qual eu comprei gibis de super-heróis quando estava no ensino médio. Foi lá, buscando por pornografia...



...que eu descobri a revista RAW, Robert Crumb e Harvey Pekar, e de alguma forma através desses e outros artistas como Gary Panter e Charles Burns cheguei à conclusão que a única coisa pela qual eu tinha um interesse remoto -- desenhar -- poderia ser usada na criação de gibis, o que me pareceu um mundo inexplorado e um pouco de vanguarda de possibilidades de expressão e genuinamente honesto, e talvez até mesmo uma forma de conhecer garotas (não foi). Nos anos 80, a cultura popular estava tão comprometida e atolada em falsidade que os quadrinhos pareciam (e ainda me parecem, na verdade) um vasilhame potencial não pretensioso para autenticidade solitária. Foi Robert Crumb que primeiro me impressionou artisticamente, Harvey Pekar que me fez compreender que a vida normal poderia ser algo sobre o que se escrever, e Art Spielgman que me forneceu o primeiro (e ainda o melhor) exemplo de como tudo isso poderia ser sintetizado em um meio artístico pensado e legível.

Além de claramente fazer tudo de caso pensado, o que DÁ ENSEJO para perguntas como essa:

Normalmente, as suas hqs são cuidadosamente montadas, e lê-las pode ser como resolver um labirinto -- a ordem e a disposição dos painéis tem propósito e é muito importante. Building Stories é uma caixa de livros e panfletos e coisas do tipo, mas você não fez recomendações sobre por onde se começar e terminar. Por quê?

Queria fazer uma hq que não tivesse início ou fim, e, apesar de como isso parece incrivelmente pretensioso, tentar e alcançar a tridimensionalidade das memórias e das histórias -- como nós somos capazes de contar elas começando por esse ponto ou por outro conforme as circunstâncias, e separá-las e reuni-las, seja para tentar dar sentido as nossas vidas ou simplesmente contar mentiras reconfortantes para nós mesmos. Também queria fazer um livro que parecesse divertido de se ler, e a ideia de uma caixa de folhetos não ameaçadores sempre me atraiu. Além disso, eu tive uma ideia sobre um objeto exatamente assim.

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