“NÃO EXISTEM GODZILLAS RADIOATIVOS OU SUPER-MUTANTES, APENAS REALIDADES TRÁGICAS”



[MEMÓRIA#20]                                        * * *                                                  [28/12/2012]

Morreu, na semana passada e de câncer de pulmão [diagnosticado em 2009], Keiji Nakazawa, mangaká japonês responsável por Gen, Pés Descalços, e hibakusha, sobrevivente do bombardeio atômico de Hiroshima.

Gen não é apenas o principal relato em quadrinhos sobre a o primeiro ataque nuclear da história, mas também um gibi de DESTACADA QUALIDADE TÉCNICA.

Você não precisa acreditar em mim: em setembro de 2010, a Kyoto Seika University International Manga Research Center publicou a Global Manga Studies vol. 1, coletânea de artigos acadêmicos sobre mangás, TRÊS dos quais foram dedicados a Gen.


Pra ficar em dois, Kawaguchi Takayuki escreveu em Barefoot Gen and ‘A-bomb literature’: re-recollecting the nuclear experience sobre a abordagem anti-imperialismo japonês do gibi...

Perceba a presença de Gen e a falta de
uma criança gritando
"MAMÃE, TÁ QUENTE".
A responsabilidade do imperador pela guerra e as críticas ao sistema imperial (tennōsei) são dois temas que ocorrem ao longo de todo Gen, Pés Descalços, e é óbvio que a intenção política do autor ou do respectivo meio (especialmente aqueles posteriores à serialização na Shōnen Jump, como Shimin, Bunka Hyōron, e Kyōiku Hyōron) se torna particularmente clara quando serve para criticar o sistema imperial. Desse ponto de vista, é possível interpretar Gen, Pés Descalços como um mangá que foi usado como propaganda por uma ideologia específica. No entanto, nós também precisamos considerar a possibilidade de que o próprio mangá foi recebido como um trabalho que utilizou propaganda e ideologia para os seus próprios propósitos.

...e Kajiya Kenji [How emotions work: the politics of vision in Nakazawa Keiji’s Barefoot Gen] não fica muito longe disso também:

As imagens visuais retratadas em Gen, Pés Descalços tem um efeito performático não apenas na narrativa dos personagens, mas também nos próprios leitores, fazendo brotar as suas emoções mais profundas. Usando enquadramentos em primeira pessoa que mostram o que o autor de fato testemunhou, assim como retorcendo o olhar e as posturas dos personagens para indicar as suas emoções e as suas consciências pessoais, Gen, Pés Descalços estimula o leitor a compartilhar as memórias e emoções inesquecíveis de Nakazawa teve na Hiroshima de 1945. Relações de múltiplas camadas entre as imagens, emoções, e memórias, combinadas com retratos chocantes dos desastres, encorajam emoções ambivalentes, além de contemplações complexas e intensas que podem até mesmo ser traumáticas para jovens leitores.

Agora, se você quer saber de CREDIBILIDADE ARTÍSTICA, e não ACADÊMICA, o que eu posso te dizer é que a introdução para a edição americana do gibi foi escrita por Art Spiegelman [+]. Você pode ler ela na íntegra aqui, mas te digo o seguinte:

Tudo isso acabou de ficar
consideravelmente mais SINISTRO.
Gen lida com o trauma da bomba atômica sem hesitação. Não existem Godzillas radioativos ou super-mutantes, apenas realidades trágicas. [...] No final, Gen é um trabalho otimista. Nakazawa acredita que o seu trabalho pode ter um efeito preventivo, que a humanidade pode ser melhorada ao ponto de agir no seu genuíno interesse próprio. De fato, Gen é um pequeno herói destemido, que encarna virtudes como a lealdade, a coragem, e a laboriosidade. A fé de Nakazawa na possibilidade do Bem podem marcar o seu trabalho para alguns olhos cínicos como verdadeira literatura para crianças, mas o fato é que o artista está retratando a sua própria sobrevivência -- não apenas os  eventos pelos que ele passou, mas a base filosófica/psicológica para a sobrevivência. O seu trabalho é humanístico e humano, demonstrando e ressaltando a necessidade de empatia entre os humanos se nós vamos sobreviver a outro século.

Gen, Pés Descalços, no entanto, é um retrato fictício do pós-bomba, ainda que inspirado nas experiências reais de Nakazawa. O próprio comentou, em entrevista ao The Asia-Pacific Journal, em 20/8/2007, algumas diferenças entre Gen e os "fatos verdadeiros" – prepare-se para o pior:

O que difere entre a morte do meu pai e o mostrado em Gen é que eu não estava lá. Minha mãe me contou depois, com detalhes sangrentos. Estava na minha cabeça, então no mangá eu decidi fazer que o Gen estivesse lá para tentar salvar o seu pai.

Minha mãe sempre teve pesadelos sobre isso. Ela disse que foi insuportável, ela podia escutar o meu irmão chorando. Dizendo "Vou morrer com você", ela agarrou o meu irmão, mas, não importava o quanto ela puxava, não conseguia soltá-lo. Enquanto isso, meu irmão dizia, "está quente!", e meu pai dizia "faça alguma coisa!". Minha irmã mais velha, Eiko, talvez porque estivesse presa entre duas vigas, não disse nada. Na hora, minha mãe disse, ela mesmo já estava maluca. Ela estava chorando, "vou morrer com você". Por sorte, um vizinho passando por ali disse para ela "por favor, pare; não adianta. Não tem porque você morrer com eles". E, levando ela pela mão, fez com que ela fugisse do lugar. Quando ela voltou, as chamas eram ferozes, e ela podia escutar claramente o meu irmão chorando "mãe, tá quente!". Era insuportável. Minha mãe me contou essa a cena, a mais amarga possível. Uma forma cruel de matar alguém.

Aí tu pensa que isso foi ruim e eu te digo que ele acha que tem coisa pior:

O que mais me deixou horrorizado foram os vermes que se reproduziam e viravam moscas. Tantas moscas! Tudo ficou tão negro que você quase não conseguia abrir os olhos. E elas te atacavam! A pesar da bomba atômica, as moscas se reproduziam. É estranho, mas os vermes são muito rápidos. Em nada de tempo eles estão por todos os lugares. Horrível, de verdade. E que vermes podiam se reproduzir assim em corpos humanos! Se você se perguntava o que era algo se movendo pelo céu, era um enxame de moscas. As únicas coisas que se mexiam em Hiroshima eram as chamas dos corpos que queimavam e as moscas em seus enxames.

Mais detalhes sobre a vida de Nakazawa e a sua vida você pode encontrar em sua autobiografia em prosa [sem o intuito fictício-ilustrativo de Gen], Hiroshima: The Autobiography of Barefoot Gen. A introdução de Richard H. Mineare o primeiro capítulo do livro você encontra, de novo, no The Asia-Pacific Journal. Da introdução, as diferenças entre OS FATOS E A FICÇÃO:

A presença de Gen naquele momento crucial, quando Keiji Nakazawa estava ausente, não é a única diferença. Para sustentar as duas mil e quinhentas páginas de Gen, Pés Descalços, Nakazawa inventou sub-tramas. Um exemplo é o personagem Kondō Ryūta, que não aparece na autobiografia.


Compare  no Buscapé

                  

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