FREAKS AND GEEKS: ENTREVISTA MULTITUDINÁRIA


[NFN 100MG #35]                                          * * *                                                   [12/12/2012]

A Vanity Fair reuniu os atores, diretores e escritores de Freaks and Geeks para um ENTREVISTÃO. 

Vamos de novo: a Vanity Fair reuniu Jason Schwartzman, Natasha Melnick, John Francis Daley, Jason Segel, Linda Cardellini, James Franco, Busy Philipps, Sarah Hagan, Stephen Lea Sheppard, Samaire Armstrong, Lizzy Caplan, Becky Ann Baker, Joe Flaherty, David Krumholtz, Samm Levine, Martin Starr, Seth Rogen, Dave Allen, e Thomas F. Wilson [o eterno Biff, de De Volta para o Futuro], para conversar sobre uma série que pariu grande parte desses [incluindo aí James Franco, Seth Rogen, então 16 anos, e Jason Segel, o primeiro das três fotos aí de cima] para o mundo HOLLYWOODIANO, além de ser o primeiro grande sucesso de Judd Apatow [O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos] e Paul Feig.

"Excelência, eu gostaria de apresentar a PROVA A".
Se isso não atraiu a sua atenção, talvez a introdução da própria matéria tenha melhor sorte:

Ainda que você não imaginasse isso de um programa ambientado no subúrbio de Detroit durante o ano escolar de 1980-81, Freaks and Geeks, que estreou na NBC no outono de 1999, é uma das séries de televisão mais ambiciosas e bonitas já feitas. Mas as suas belezas não são cosméticas, e as suas ambições são sutis. Tanto na frente quanto detrás das câmeras, a história de Freaks and Geeks é de uma comunidade que vai contra a probabilidade e fica mais forte por isso.

Uma comédia de uma hora com um núcleo de drama (uma "dramédia", para usar o termo atual), a série tem por foco uma irmã e seu irmão, Lindsay Weir, de 16 anos, e Sam, de 14, e, ampliando o quadro, a turma de desajustados com a qual os Weirs andam, freaks mais velhos para Lindsay, e os jovens geeks para Sam, enquanto todos eles lidam com a triste e hilária injustiça da vida.


Adivinha quem é quem.


Agora que você está no SEXTO parágrafo do artigo, o melhor seria continuar até o fim: o que segue é um FAST FOWARD pelos melhores momentos do ENTREVISTÃO. 

Sobre a TEMÁTICA da série, Apatow e Feig comentaram:

JUDD APATOW: O episódio piloto tinha uma ideia muito ousada e experimental, de que uma jovem e inteligente garota senta ao lado de sua avó moribunda e pergunta se ela vê "a luz", e a avó diz que não. E todas as regras somem. A garota decide passar pelo ensino médio de forma mais experimental  porque ela não sabe mais no que acredita. Sempre me surpreendeu que a rede de televisão não tivesse percebido sobre o que o nosso episódio piloto era.

PAUL FEIG: Também queria que o programa fosse sobre o medo ao sexo. Me cansei de ver todos os adolescentes serem retratados como pessoas excitadas que se dão bem com o sexo, porque essa não é a minha experiência. 

JUDD APATOW: Paul achava que a maioria dos jovens não estão tentando fazer sexo, mas tentando evitar esse momento. Você pode dividi-los entre jovens que estão tentando constantemente parecer mais velhos e jovens que estão tentando desesperadamente se agarrar à sua imaturidade. 




Sobre o CASTING de Alisson Jones [que ganhou o único Emmy da série], é bonito destacar a PERSPICÁCIA de Apatow na contratação de James Franco...

JAKE KASDAN: A primeira impressão foi "esse cara vai ser uma estrela de cinema. Nós devemos agarrá-lo imediatamente".

JUDD APATOW: Não achamos que ele fosse bonito. Nós achamos que a boca dele era muito grande e que a cara dele parecia perfeita para um cara legal de uma cidade pequena que não era tão legal quanto ele achava que era. Quando todas as mulheres do escritório começaram a falar como ele era lindo, eu e Feig começamos a rir porque nós não víamos isso. 

...e como Seth Rogen era um pirado:

JUDD APATOW: Tudo que ele disse nos fez rir. Não era a pessoa esperta, doce e realista que nós conhecemos agora. Ele parecia um lunático canadense maluco e criador de problemas que era quieto e raivoso e poderia te matar. 


Se você procurar por "angry canadian" no Google Images, esse é o primeiro resultado.
Achei que seria justo fornecer um PARÂMETRO DE COMPARAÇÃO
antes de que vocês se impressionem com a coragem do diretor de elenco.
SETH ROGEN: Na época, eu era agressivo porque ainda não tinha conseguido que nenhuma garota dormisse comigo. Eu era incrivelmente raivoso e reprimido, e acho que eles me viram como um cara tipo estranho e sarcástico e começaram a escrever nessa direção. Mas daí eles me conheceram e me viram como um cara legal, e isso apareceu na medida em que o programa avançou.

A série tinha como PARADIGMA INICIAL a AUTO-HUMILHAÇÃO. É justo:

PAUL FEIG: Nós tivemos duas famosas semanas com os escritores trancados conosco em uma sala e contando as suas histórias pessoais. Escrevi uma lista de perguntas que todos deviam responder: "qual foi a melhor coisa que te aconteceu no ensino médio? Qual foi a pior coisa que te aconteceu no ensino médio? Por quem você se apaixonou e por quê?"

JUDD APATOW: “Qual foi a sua pior experiência com drogas? Quem foi a sua primeira namorada? Qual foi a primeira coisa sexual que você fez? Qual foi a coisa mais humilhante que te aconteceu durante o ensino médio?"

GABE SACHS: Nós pensamos que o questionário era uma coisa privada entre nós e Judd e Paul, então nós fomos muito sinceros. No dia seguinte no trabalho nós vimos todos eles juntos. Nós rimos com todos, mas era tipo "Ahh, não!".

JEFF JUDAH: Um monte de pessoas disseram "Ei, li o teu questionário, foi mal".

JEFF JUDAH: Muitas coisas dolorosas que aconteceram na vida real foram usadas no programa, como quando eu estava doente em casa, e não na escola, assistindo ao Donahue falando sobre "como saber que o seu marido está traindo você". E eles tinham uma lista de sinais e eu lembro de ter pensado "Ooooooh". E esse foi o ponto de partida de “The Garage Door” [episódio no qual Neal se dá conta de que o seu pai está traindo a sua mãe]. 

JUDD APATOW: Paul lembrava de cada detalhe de tudo que aconteceu com ele no ensino médio: cada momento feliz, cada humilhação. A piada que nós tinhamos na sala dos escritores é que Paul contava uma história horrível e eu dizia "quantos anos você tinha quando isso aconteceu?". Pensava provavelmente em 12 anos, e sempre era 17. Via ele como um comediante legal. Não tinha me dado conta que ele tinha todas essas histórias incrivelmente engraçadas e escuras. Ele é o cara que usou o "parisian night suit" na escola [o mesmo que Sam faz no episódio "Looks and Books"].

PAUL FEIG: Tinha uma loja na qual eu costumava fazer compras durante o ensino médio, uma loja de roupas para homens com um jeito de discoteca. Um dia, um dos vendedores me arrastou. Ele disse "isso aqui é quente, cara", e me mostrou um macacão gigante de denim, com as calças boca de sino e a gola grande. Até hoje em dia, quando eu compro uma roupa nova, não consigo esperar para usá-la. Então nada poderia me impedir de usá-la para ir à escola, e no minuto que eu entrei pela porta da frente me dei conta de que tinha cometido um grande erro. Foi divertido, no programa, recriar os momentos mais terríveis do meu passado. 



No final, tudo deu errado:

Entre o momento em que a NBC aceitou o piloto e o início do programa, Garth Ancier chegou da Warner Bros. (lar de Dawson's Creek) para se tornar o presidente da NBC Entertainment.

DAN McDERMOTT: Lembro de receber uma ligação que dizia "Garth não entende o programa. Ele foi a um colégio interno e a Princeton, ele não entende a escola pública". E esse foi o primeiro sinal que apareceu. 

PAUL FEIG: Nós voamos para Nova Iorque para os up-fronts [apresentação anual de novos programas para anunciantes potenciais]. Fui nessa festa da NBC no '21' e Garth estava lá. E eu disse "ei, Garth, muito obrigado por escolher o nosso programa". E ele está falando com outro cara e olha para mim e diz "faça o que tem que ser feito, cara. Apenas faça o que tem que ser feito". E então aponta para o outro cara com o dedão e diz "não termine como esse cara ". Não sei quem aquele cara era, mas ele deu uma risada meio triste. E eu sai dali pensando "nós estamos mortos".

JUSTIN FALVEY: Você ouve sábado às oito e pensa, quem está em casa no sábado assistindo televisão? Mas também pensavamos que era uma oportunidade: a competição era muito baixa. Era como chegar em segundo ou terceiro lugar, era passar para a próxima fase.

JUDD APATOW: Nós nos enfrentamos com a décima temporada de Cops. Pensei, se nós não conseguimos ganhar da décima temporada de Cops, não merecemos estar no ar. E, é claro, Cops arrasou conosco.

Você deve se lembrar. É aquela temporada em que meia cidade é
destruída para que um motorista bêbado seja preso e não coloque
em risco a vida dos outros.
SETH ROGEN: Você é obrigado a concluir que as pessoas preferem assistir caras sem camisa sendo jogados no chão do que um programa de TV que é sobre merdas emocionais de um jeito divertido

PAUL FEIG: As resenhas eram ótimas, a estréia recebeu notas muito altas. A primeira segunda-feita eu sentei em uma mesa e li as resenhas e todo mundo comemorou. E na semana seguinte nós tivemos uma queda gigante. E disseram que Joe Flaherty disse "É, Paulo nunca mais apareceu e leu as resenhas para nós depois da primeira semana".

Mas, daí, né, F#D$-SE:

JUDD APATOW: Em alguns momentos eu diria para os atores "nós vamos fazer uma versão mais longa disto. Não me importa com as palavras, só quero que seja verdadeiro". Em "The Little Things", o episódio em que Seth descobre que a sua namorada tem "genitália ambígua , era importante para nós que fosse legítimo e bem pensado. Levei ele para o meu escritório com Jessica Campbell [que interpretava a namorada] e perguntei "como seria se ela te contasse essa informação?".

SETH ROGEN: Ele nos fez improvisar e rescreveu os diálogos na forma em que tínhamos improvisado. Foi a primeira vez que vi que você pode fazer momentos estranhos funcionarem se você tratar eles de forma totalmente honesta.

JON KASDAN: Lembro de Judd e Mike White e eu sentando no escritório de White discutindo o episódio. Não foi ideia minha. No início, pensei que eles estavam brincando. Mas ficou claro que eles não estavam. 

JUDD APATOW: Se tornou um dos nossos episódios favoritos. De certa forma, era um "vai se ferrar" para a NBC, tipo "agora nós vamos ficar realmente ambiciosos e agressivos com tramas que você nunca aprovaria se o programa tivesse alguma chance de sobreviver".

JAKE KASDAN: Percebíamos que o programa não ia durar, então a rede de televisão não estava na verdade tentando arrumá-lo. Não sei se você poderia fazer esse tipo de coisas com um programa que não vai ser cancelado. 



...ou, no caso, F#D$-TE:

PAUL FEIG: Nós passamos por duas semanas, depois ficamos de fora por quatro semanas por causa da World Series, daí passamos por outras seis semanas e ficamos de fora por dois meses, mudaram o nosso horário, colocaram no mesmo horário que Who Wants to Be a Millionaire. E então a pá de cal foi definitivamente o programa de reencontro de Mary e Rhoda [um filme para a TV da ABC, continuação de The Mary Tyler Moore Show, que passou no mesmo horário que o décimo episódio de Freaks and Geeks].

JUDD APATOW: Nós fizemos uma página da Internet, mas a NBC se recusou a nos deixar colocar o endereço em qualquer um dos nossos anúncios porque eles não queriam que as pessoas soubessem que a Internet existia. Eles estavam com medo de perder espectadores. 

JASON SEGEL: Ninguém precisava nos dizer que seria cancelado. Nós vimos a mesa: começou com embutidos e salgadinhos deliciosos, e foi reduzido, no fim, para meio negócio de creme e alguns Corn Pops. 

PAUL FEIG: Minha mãe morreu repentinamente, e uns dois dias depois o programa foi cancelado. Estava sentado com advogados quando Judd ligou. 

LINDA CARDELLINI: Me convidaram para ir no David Letterman, o sonho da minha vida. Então eu voei para Nova Iorque e na limusine a caminho do programa recebi uma ligação da minha agente, e ela disse "sinto muito, amor, mas o programa foi cancelado". E eu disse "David Letterman foi cancelado?", e ela disse "não, Freaks and Geeks". Não me dei conta até que eu estava sentada na frente de Dav e ele disse que sentia muito que o programa tivesse acabado. 

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