"ERAM REUNIÕES IDIOTAS, NAS QUAIS CADA IDEIA TÍMIDA, FRACA E INSÍPIDA TINHA A PREFERÊNCIA SOBRE ALGO REVOLUCIONÁRIO OU NOVO"


[NFN 100MG #36]                                         * * *                                                  [19/12/2012]

Um espectro ronda HOLLYWOOD. É o espectro TELEVISIVO. Essa é a tese de Michael Ceply, do New York Times, e esses são os NÚMEROS que servem para sustentá-la:

Enquanto a época dos prêmios se desdobra, os filmes ainda estão ficando menores. Depois de seis semanas nos cinemas, The Master [+], um estudo de personagem em 70 milímetros que foi muito elogiado pelos críticos, foi assistido por mais ou menos 1.9 milhões de espectadores. Isso é significativamente menos que a audiência de um episódio de sucesso de um programa da tv fechada de sucesso como "Mad Men" e "The Walking Dead".

“Argo”, outro candidato ao Oscar, teve aproximadamente 7.6 milhões de espectadores no final de semana. Se o interesse se mantém, talvez consiga empatar com a audiência em uma noite de um episódio de "Glee". [...]

A venda de entradas para filmes de gênero como "Taken 2" ou a comédia do Sr. MacFarlane, "Ted", ainda são fortes. E um público internacional crescente, especialmente na China, abrilhantou o panorama de blockbusters de super-herós, como o dos Vingadores da Marvel ou "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" [+].

Mas o número de filmes lançado por divisões especializadas de grandes estúdios, que sustentaram filmes ganhadores de Oscar como "Quem Quer Ser um Milionário?", da Fox Searchlight, caiu para apenas 37 filmes no ano passado, uma queda de 55 por cento dos 82 de 2002, de acordo com a Motion Picture Association of America. 

Ceply está preocupado: ao final do seu artigo, você quase se pergunta se não é a hora de começar a estocar ÁGUA e COMIDA diante da IMINÊNCIA DO APOCALIPSE. Mas essa é apenas a forma pessimista de ver as coisas:  argumento de Ceply, ao final, é que o cinema perdeu espaço para a TV -- e talvez isso tenha alguma relação com o fato de que a CAIXA BURRA não apenas deixou de ser quadrada, como também não é mais tão, bom, BURRA.

Essa, por sua vez, é a TESE de Alan Sepinwall, blogueiro e escritor do livro The Revolution Was Televised , uma retrospectiva dos últimos quinze anos do PROGRESSO TELEVISIVO que passa por séries como Oz, Battlestar Galactica, The Sopranos, The Wire [+], Mad Men e Breaking Bad [+].

O resumo do argumento de Spinewall, conforme a resenha de Sunny Bunch, do Wall Street Journal, é o seguinte:

Foi o excesso de confiança de cineastas de Hollywood em filmes de grande orçamento sem cérebro [...] que levou os espectadores à tela pequena: "onde antes haviam blockbusters, filmes de arte, e uma vasta gama de filmes entre os dois (muitos desse último grupo voltados para adultos), o século 21 lentamente viu a extinção do filme médio". Se um estúdio estava disposto a afundar dinheiro em um filme, ele precisava ter certeza de uma grande estréia, e isso significava grandes gastos -- e aversão ao risco. 

Enquanto os produtores de filmes escalavam em busca do público o mais amplo possível, as redes de TV fizeram o caminho contrário. "Por 50 anos, a TV funcionou com base em uma política de teto amplo: você tentava colocar o maior número de pessoas de baixo do mesmo teto, e, uma vez que eles estavam lá, você dava para eles a mesma coisa que eles queriam uma e outra vez, até que eles ficassem de saco cheio", o Sr. Sepinwall observa. A filosofia mudou: "Você pode fazer dinheiro com um programa assistido por 3 milhões de pessoas, se eles são os 3 milhões "certos", e estão prestando atenção". Essencialmente, os filmes e a televisão trocaram de lugar na cabeça do público. 

O ponto de partida do livro é Oz, série de presidiários lançada pela HBO em 1997. Não sou eu quem diz isso, mas o próprio Spinwall, conforme Emily Nussbaum, da revista New Yorker:

[...Oz,] a brilhante série da HBO do final da década de 90, criada por Tom Fontana, sobre uma prisão masculina, anterior a "The Sopranos" e criou grande parte do modelo de anti-heróis que dominou os últimos quinze anos de drama, de forma ao mesmo tempo excelente e problemática. Muitos criadores se orgulham da famosa abordagem não intrusiva da HBO, incluindo Fontana, que conta uma história de quando a rede de televisão pediu para que ele suavizar visualmente uma cena na qual uma criança é assassinada: "Pensei que um toque desses a cada cinco anos, eu seria um babaca de não mudá-la". Um por um, Sepinwall descreve [...] os homens (quase todos são homens: um fato tratado por Sepinwall ao longo de seu caminho em notas de rodapé) que queriam romper com os costumes mais preguiçosos da TV, motivados por experiências anteriores e frustrantes sobre trabalhar para redes de televisão. David Chase, por exemplo, descreve que tinha que aguentar "reuniões idiotas, nas quais cada ideia tímida, fraca e insípida tinha a preferência sobre algo revolucionário ou novo".

Me dá a impressão que não estamos falando da mesma coisa.

Pra acabar, Mark Tapson, do Acculturated, escreveu um bonito EPÍLOGO para tudo isso: atacou o problema e SUMULOU a questão, no segundo [e último até o momento] de uma série de quatro artigos sobre o declínio da importância do cinema, dedicado precisamente ao livro de Sepinwall:

The Revolution Was Televised é uma diversão constante, uma leitura fascinante para qualquer um interessado no processo por trás das câmeras, de episódios-pilo ao final de séries, dos melhores e mais influentes programas de hoje em dia, e da revolução no entretenimento que eles criaram. O colega de crítica Tim Goodman escreve que "até mesmo se você conhece as histórias, até mesmo se você discorda de suas opções, a forma de contá-las é aditiva e varre com a sensação de que você já as escutou antes". Serve como um excelente contraponto do livro sobre o qual eu escrevi da última vez, Do the Movies Have a Future? De seu jeito, a resposta de Spinewall à questão é "com uma televisão tão boa, quem se importa?".



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