CINDER E ASHE: "UM DRAMA BÉLICO COM TOQUES POLICIAIS MAIS DO QUE O CONTRÁRIO"

[NFN DIÁRIO #138]                                         * * *                                                  [17/12/2012]

Javier Agrafojo, do Zona Negativa, "artigou" Cinder and Ashe, minissérie investigativa que Gerry Conway [+] escreveu e José Luis García López desenhou, dos anos 80, surfando na onda dos quadrinhos adultos. 

As aventuras do ex-soldado americano (Ashe) e a jovem ladra aposentada das ruas de Saigon (Cinder), uma dupla de investigadores mais próximos do Esquadrão Classe A do que a A Gata e o Rato, não teria destoado nem um pouco se fosse serializada em uma revista de Toutain ou encadernadas em um volume da Bonelli. Ainda que os seus autores, Gerry Conway e José Luis García López (os quais já tinham se encontrado em Atari Force, uma atípica space opera inspirada nos jogos da Atari), sejam profissionais curtidos entre os heróis de pijama, o resultado é uma mistura entre a ficção de televisão ortodoxa e o gibi autoral de gênero. Conway, mais conhecido por ser o responsável pelo roteiro que levou ao túmulo Gwen Stacey, sem dúvida aproveitando a sua experiência na tela pequena (escrevia na época séries como Diagnosis Murder e Perry Mason), elabora uma trama atrativa inspirada nas convenções clássicas do gênero (a corrupção institucional, o passado escuro que regressa, a violência contra o inocente, etc), mais contundente desde o ponto de vista formal do que emocionalmente significativo, ou, se você preferir, mais aprendido nos livros e no cinema do que na vida. Porque eu digo isso? A trama, do seu jeito noir, segue os padrões do gênero, ou seja, nos dá o que esperamos encontrar e isso é bom, mas avança graças a tópicos consolidados (muito oitentistas) que tiram a sua efetividade. Por exemplo: buscam a uma garota sequestrada e uma testemunha diz que ela foi levada por um cara grande com uma tatuagem e um furgão turbinado, o que deixa bem clara a posição da América bem-pensante sobre o assunto (a tatuagem, a propósito, é um morcego sobre a cara, o que nos remete a Dark Knight Returns); ou a demagógica comparação entre a Saigon dos anos 60 e a Nova Orleans dos anos '80, mensagem nada sutil de que os EUA estavam em guerra contra a delinquência, ideia muito do agrado do Justiceiro (quem, que coincidência!, também é uma criação de Conway).

O que é que coloca Cinder and Ashe, então, por cima da média? O lado gráfico, sem dúvida, com um José Luis García López em sua plenitude. Garcia López é um mestre nascido na Espanha, revelado na Argentina e abrigado no diversificado catálogo de publicações da DC, onde o seu prestigio chegou a tais cotas que a empresa lhe confiou o desenho institucional de seus personagens principais. A imagem que temos da empresa nos anos 70 pertence a ele, inclusive mais do que a Neal Adams, e as capas mais representativas da época brilhavam com a sua linha clara, com suas proporções clássicas e a sua composição elegante. [...] Ainda hoje vemos os seus desenhos em camisetas e propagandas de personagens tão icônicos quanto Super-Homem, Batman, Aquaman e Arqueiro Verde. Não deixa passar nenhuma ousadia: Plongée e Contra Plongée, cenas cinéticas, gestos e expressões corporais, profundidade de campo, detalhes e roupas de rua, etc., desenhando com tanta naturalidade que você nem se dá conta. Destaque especial para as capas, com grandes painéis que nos lembram da guerra, dando a entender o que eu disse acima: que o fio detetivesco é apenas o acompanhamento do que talvez deveria ter sido tratado como um drama bélico com toques policiais do que ao contrário.

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