"ALAN MOORE DESILUDIDO COM AS CONVENÇÕES DA INDÚSTRIA" + "OSCAR ZARATE NA METADE DO CAMINHO ENTRE BEROY E MATTOTTI"


[NFN DIÁRIO #137]                                         * * *                                                  [14/12/2012]

Javier Agrafojo, do Zona Negativa, resenhou A Small Killing [+], de Alan Moore [+] e Oscar Zarate [+], originalmente publicada pela VG Graphics em 1991 e que teve a sua última edição pela Avatar Press, em 2003.

Essa joia para degustadores atentos nasce da surpreendente colaboração entre o Moore desiludido com as convenções da indústria e o desenhista argentino Oscar Zarate, um artista na metade do caminho entre Beroy e Mattotti (se é que isso é possível), conhecido na Grã Bretanha pelas suas ilustrações para as obras Geoffrey the Tube Train and the Fat Comedian e Introducing Freud. Em essência, se trata de uma novela gráfica de quase cem páginas, parecendo um falso slice of life, entre a literatura de viagem e a introspecção psicológica de tintes psicoanalíticos com um toque de mistério (mais devido à estrutura formal do que à trama). Seu protagonista, Timothy Hole (Hole é "buraco", em inglês, mas aqui se pronuncia Holly, como "sagrado") é um profissional bem sucedido do mundo da publicidade. Mas desde a sua própria imagem já intuímos que algo não encaixa, porque ele é mais parecido a uma criança desnutrida do que ao aspecto normal de alguém que triunfou. Zarate, muito longe [...] do que associamos tradicionalmente à escola argentina (Salinas, Zanotto, Altuna, Oliveira, etc, mestres da figura de cânon clássico), prende em seu traço, mais do que delinear, a carne do personagem, encurralado em uma humanidade suja e caricaturesca, revelando as suas fraquezas físicas e psicológicas. A palavra e pensamentos que Moore atribui ao personagem o descrevem como uma pessoa confusa, artificial, no sentido de que esmaga, consciente ou inconscientemente, a sua natureza. Devemos lembrar: é um publicitário de uma empresa importante, vive da aparência das coisas, não do que elas são, das necessidades criadas, não das satisfeitas. Existe uma tensão evidente entre os criadores que é importante sinalizar. Timothy é tão alheio à simples realidade das coisas, à sua beleza intrínseca, que para descrever um céu bonito "quase perfeito" afirma que "quase parece pintado com aerógrafo", uma chocante inversão de valores, que nos deixa definitivamente estabelecido o personagem e a sua alienação. E isso na terceira página do gibi [...], antes mesmo de que a trama tenha começado a andar. 

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