ABISMO DO MEDO USA O IMAGINÁRIO DO CINEMA E TAMBÉM DE MITOS E SONHOS [TENTE NÃO SER UM NERD TARJA PRETA POR UM SEGUNDO]



[NFN 100MG #34]                                           * * *                                                   [5/12/2012]

Nicolas Labarre, no The Hooded Utilitarian, escreveu um excelente artigo sobre Abismo do Medo [The Descent, no original], filme de terror dirigido por Neil Marshall e lançado por aqui em 2006.

Na TRAMA, um grupo de mulheres decide explorar uma caverna pelo amor à adrenalina -- uma péssima idéia para se ter em um filme de terror. Ficam presas lá dentro e como desgraça pouca é bobagem, encontram um NINHO DE MONSTROS CARNÍVOROS.

Sobre a primeira metade do filme [o "presas lá dentro"] e os seus recursos narrativos, Labarre comentou:

Marshall nos mostra todas as mulheres passando por um túnel estreito até que a heroína, Sarah, entra em pânico e causa o colapso do túnel. Repetição é a palavra chave aqui, e a tensão cresce junto com cada mulher, precisamente porque nada de alarmante acontece. O recurso invoca a sensação de que a caverna é uma ameaça não pelo que pode acontecer, mas pela sua própria existência. A presença continua do ambiente é, em si mesmo, uma fonte de perigo, até mesmo quando as descontinuidades violentas do gênero de terror ainda não apareceram. Além disso, nesse caso, a repetição aparentemente desmotivada de ações parecidas -- é até mesmo difícil dizer quem está rastejando pelo túnel em um momento especifico -- tem uma qualidade falso-naturalista que pode lembrar às táticas dos populares filmes de "filmagens encontradas" e as suas tentativas de provocar terror com uma forma altamente codificada de realismo [...].

No que se refere à forma, a ambientação na caverna também tem conseqüências interessantes ao freqüentemente funcionar como um tipo de máscara, já que vastas áreas do frame ficam totalmente negras, mantendo uma relação espacial ambígua com o lugar da atuação. Este efeito peculiar -- um recurso cinematográfico pré-moderno que aqui é naturalizado pela ambientação -- não apenas produz imagens inusitadas, mas também funciona para abrir espaços de terror potencial, sustos potenciais. Os conhecedores do gênero esperam efeitos que causem sobressaltos e tem plena consciência da necessidade de se observar espaços mortos. Em Abismo do Medo, isso é anulado pela impossibilidade de se enxergar esses espaços.

É tipo a imagem que vale por mil palavras, só que sem que você consiga enxergar quase nada.

Tudo isso é uma forma particularmente inteligente de se dizer que Abismo do Medo é um filme de terror DIGNO, LIMPINHO e MALANDRO. Mas também se pode dizer mais que isso: também é PLAGADO DE REFERÊNCIAS.


Ao menos, essa é a tese de Jim Emerson, do Chicago Sun Times, em sua resenha CONTEMPORÂNEA ao lançamento do filme:

Marshall conhece bem o seu público alvo. Ele estudou vários dos filmes favoritos deles (e, sem dúvida, também seus), especialmente thrillers clássicos dos anos 70, e deliberadamente faz referências a eles -- de forma destacável, sem te afastar do filme no processo. Parte da diversão está em reconhecer essas referências visuais quando elas aparecem, e então ver o que Abismo do Medo faz com elas. Elas incluem referências explícitas a [...] Picnic na Montanha Misteriosa [Picnic at Hanging Rock, de 1975, de Peter Weir], Carrie [a Estranha, de Brian De Palma de 1976], 2001 [esse tu sabe, né?], O Terceiro Homem [The Third Men, 1949, de Carol Reed, mas você deve conhecê-lo pelos roteiros de Graham Greene ou pela interpretação de Orson Welles], O Quarto Homem [The Fourth Man, filme de 1983 dirigido por Paul Verhoeven], Inverno de Sangue em Veneza [Don't Look Now, de 1973, dirigido por Nicolas Roeg e protagonizado por Donald Sutherland], The Blair Project, Um Corpo que Cai [sim, o do Hitchcock], Apocalypse Now... e vários outros.

Abismo do Medo funciona (e brinca) não apenas com o imaginário do cinema, mas também com o de  mitos e sonhos. Invoca visões infernais, de pinturas famosas (as pinturas negras de Goya, “O Pesadelo” de Fuseli), a gárgulas góticos e as gravuras de Doré para o Inferno de Dante. Essas referências quase subliminares conduzem “Abismo do Medo” e lhe dão uma poderosa energia mítica. Ele sabe quando e como usar essa imagens para criar o tom certo de medo alucinatório, e colocá-lo para reverberar dentro da tua cabeça. O filme não é pretensioso nem derivativo, apenas incrível no seu conhecimento sobre o que pegar emprestado e como usá-lo.

Emerson não parou na resenha: ao longo de agosto daquele ano, fez uma série de artigos precisamente para destrinchar essas referências. Você já faria bem em acessá-los apenas pelas gravuras do Gustavo Doré, tiradas da Divina Comédia, que FUNDAMENTAM parte da tese...

Acho que os caras ali estão numa ruim.
Deixou, no entanto, de fazer O LINK com a fotografia de Salvador Dali que serviu de referência para o poster do filme [aquele lá em cima, entre o monstro distraído e a moça ensanguentada], In Voluptas Mors. Mas para que servem os amigos, CERTO?

Aliás: BOOM!

Se nada disso ainda te foi suficiente, TE OFEREÇO essa ANÁLISE do AV Club, escrita por Scott Tobias, que incluiu o filme em sua seção The New Cult Canon -- com um argumento que meio que sintetiza tanto o de Emerson, quanto o de Labarre.

A estratégia visual rigorosa de Marshall foi restringir as fontes de luz para apenas o que os personagens tinham a mão -- coisas como lanternas de capacete, glowsticks, sinalizadores, tochas artesanais, e a visão infravermelha de uma câmera de mão. Naturalmente, isso significa uma grande confiança no som e no espaço fora da tela para persuadir o público para preencher essas áreas completamente escuras com a maior ameaça que a sua mente consegue criar. Ainda que não seja tão esteticamente severo como The Blair Witch Project, o filme tem o mesmo jeito tateando-no-escuro. É assustador em um sentido primitivo, ficar sozinho lá em baixo naquele espaço claustrofóbico, sem uma saída evidente e sem uma percepção clara do tamanho do perigo. E isso é antes do agônico barulhos de click-click-click das criaturas inundar a trilha sonora.

A imagem principal de Abismo do Medo...



...[...] é emprestada de Apocalypse Now (e de Carrie, A Estranha, de certa forma), da parte em que o  Willard de Martin Sheen aparece emerge das profundezas pantanosas com um olhar de determinação inabalável. Os paralelos são inconfundíveis: Abismo do Medo segue a jornada pessoal de Sarah ao coração das trevas, jornada que começa com ela já abalada e termina com ela cedendo à loucura, até mesmo calejada por ela (também não é um erro que Marshall faça uma referência a O Iluminado, que tem basicamente o mesmo arco). Ainda que seja tentador simplesmente admirar a sua força diante do terror, da traição, e da morte -- a sua vingança a sangue frio de Juno entrou para os anais dos personagens durões -- a sua "descida" não é para a redenção, mas o contrário.

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