ENSAIO DO VAZIO

[NFN DIÁRIO #122]                                        * * *                                                  [23/11/2012]

Pedro Moura, do Ler BD, resenhou Ensaio do Vazio, adaptação aos quadrinhos do livro do mesmo nome escrito por Carlos Henrique Schroeder. A adaptação correu por conta de cinco quadrinistas diferentes, cada um com um capítulo: Diego Gerlach [+], Pedro Franz, Berliac, Manuel Depetris e Leya Mira Brander.

Vamos um a um:

Diego Gerlach dá o mote, com as suas vinhetas austeras fechadas em torno de personagens cujo espírito parece estar sob o signo da inércia, da apatia e do desencanto. O seu uso da tinta-da-China em traços expressivos e aparentemente de um fôlego, juntamente com as tramas obsessivas e a atenção particular para com os fluidos do corpo humano apenas sublinham essa ideia de enclausuramento.

Pedro Franz, por sua vez, parece ter na sua abordagem de linhas ruidosas, e que procuram uma desarmonia propositada e significativa uma excelente forma de explorar não somente as memórias que temos da nossa infância, mas as dúvidas que embrulham ou constituem essas mesmas memórias. A educação sexual de Ricardo, divertidamente conduzida em parte pelo seu pai, é mostrada assim de uma forma crua, feroz, ou mesmo paradoxalmente: um riso de escárnio ou um fascínio pelo abjecto é que o surge nessas linhas.

O trabalho de Berliac, que aparenta caracterizar-se por um aturado trabalho de texturas e de poses hieráticas das suas personagens que recordam fotografias de um Doisneau (isto é, a de um “acaso trabalhado”) – e por isso em diálogo com artistas como José Muñoz ou Andrea Bruno -, é empregue para consolidar os confrontos directos entre Ricardo e algumas das personagens que o rodeiam, quase como se se quisesse confirmar em particular essa dimensão do protagonista de Schroeder nessas páginas.

Contrastadamente, o capítulo nas mãos de Manuel Depetris (companheiro de percurso de Berliac), que domina uma abordagem dada a aguarelas de cores suaves, apontamentos com outros materiais cromáticos que texturam e vivificam as imagens, uma figuração clara, com bastos pormenores físicos dos rostos das personagens, e uma desembaraçada composição de vinhetas e espaços na representação, insufla sobre todas elas uma acalmia e expressividade que está ausente no resto do livro. [...]

Pensamos, todavia, que a última parte, de Leya Brander, é a menos conseguida em todos os aspectos. O currículo de artista plástica não é suficiente argumento para proteger as fraquezas da sua intervenção, e até parece querer confirmar o preconceito generalista que se examina na própria diegese. Em termos de figuração, ritmo e coerência do projecto parece algo desfasada e, como está no término do livro, levanta questões que acabam desequilibradas.

Nenhum comentário: