MEMÓRIA#14: CRUMB E WOLVERTON, BÍBLICOS



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Em 2009, Robert Crumb lançou a sua adaptação aos quadrinhos de Gênesis, o livro bíblico – você deve lembrar, saiu aqui pela Conrad em uma edição capa dura bastante digna. Não foi, no entanto, o primeiro quadrinista underground a fazê-lo: entre 1952 e 1974, Basil Wolverton [que já deu as caras aqui no NFN duas vezes] foi além, e adaptou todo o Antigo Testamento.

A abordagem dos dois não é idêntica: Crumb tentou ser mais literal, ainda que abordando a Bíblia pela linguagem dos quadrinhos; o approach de Wolverton é o contrário nas duas pontas: menos literal e mais próximo do relato ilustrado. Em 27/10/2009, Santiago Garcia, do Mandorla, não se deixou dobrar por essas DIFICULDADES TÉCNICAS e comparou os dois: o resultado é um digno artigo, ilustrado de forma ainda mais digna, que você pode ler nesse link.

[...] O Gênesis de Crumb é uma monumental ode ao desenho, ao desenho puro, ao prazer de desenhar, à necessidade de desenhar, ao prazer de se encher os olhos de desenhos gloriosos, abundantes e férteis. [...] Crumb declarou em algumas entrevistas que acabou esgotado e que não sabia se ia voltar a desenhar. [...]

E essa questão do desenho é o que liga o Gênesis de Crumb com outra obra de características inusitadas à qual tivemos acesso também nesse ano, a Bíblia de Basil Wolverton, editada em um bonito encadenardo pela Fantagraphics. Wolverton sempre foi considerado uma das grandes influências de Crumb, e sem dúvida que é uma. Ainda que Crumb tenha aprendido os princípios básicos dos quadrinhos principalmente com John Stanley, Carl Barks, Walt Kelly e Segar, foi [a revista] Mad que deu a ele o fundamental para desenvolver quadrinhos adultos de crítica social que utilizasse a própria forma dos quadrinhos para se explicar a si mesmo. E, ainda que descontinua, a presença de Wolverton na Mad foi notória. Existe uma semelhança aparente entre o resultado final dos desenhos de Wolverton e os de Crumb, ambos parecem ter levado uma proposta gráfica infantil e convencional a um território grotesco, e por isso sempre se considerou Wolverton um filtro fundamental para a reinterpretação que Crumb fazia das tradições comerciais.

Wolverton fez a sua adaptação da Bíblia entre 1952 e 1974 [...]. Depois de um período de ceticismo, Wolverton se viu atraído pela Worldwide Church of God do reverendo Herbert Armstrong, onde desenvolveu uma atividade intensa nos anos seguintes [...]. Um dos trabalhos de Wolverton foi ilustrar o Antigo Testamento, já que o Novo foi vetado por Armstrong interpretar que os mandamentos proibiam a representação de Jesus Cristo. Ainda que Wolverton pensou, no início, na possibilidade de fazê-lo em quadrinhos, no final optou por um texto ilustrado. Nesse caso, ao contrário do que no caso de crumb, o texto não é literal e completo, mas adaptado e resumido, e as imagens tem certa sequencia narrativa, ainda que não sejam páginas em quadrinhos, de forma que o resultado não está muito longe do que é uma hq.

Não precisamos de outras explicações além daquelas que a comparação direta entre os desenhos dos dois nos fornecem:


O Dilúvio: nem Crumb...

...nem Wolverton desenharam um passeio no parque.

A Escada de Jacob: na versão de Crumb, Jacob mais parece um mendigo...

...a de Wolverton é muito mais idealizada.

Como todo Wolverton é pouco, DELEITE-SE com mais uma de suas páginas -- uma APOCALÍPTICA, trecho não desenhados por Crumb no seu livro.



Agora siga com o seu dia e seja mais feliz.

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