"ISSO É UM TRABALHO PARA O SUPER-HOMEM": SUPERMAN, DOS IRMÃOS FLEISCHER



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Semana passada, a Warner publicou, no seu canal do Youtube, oito dos dez episódios da série animada do Super-Homem dos anos 40, do Estúdio Fleischer [ficaram de fora o segundo, The Mechanical Monsters, e o quarto, The Arctic Giant; todos já estavam, de qualquer forma, disponíveis no Internet Archive e podem ser assistidos aqui mesmo, lá em baixo]. É a primeira animação de um super-herói moderno, e já é praticamente uma obra prima.

Todos os episódios, todos eles de pouco menos do que dez minutos, seguem uma trama idêntica: uma ameaça é anunciada no jornal; Clark Kent e Lois Lane são escalados para cobri-la; a Lois, que é um paradigma de coragem, se adianta – o que significa que se mete em uma encrenca. O Super-Homem se anuncia [com o bordão: “isso é um trabalho para o Super-Homem!”], salva o dia, entrega os bandidos em um presídio, garante a reportagem da Lois e invariavelmente desaparece.

Pode parecer REPETITIVO, mas, na verdade, é DESPROVIDO DE SUPÉRFLUOS -- Dave Fleischer [que depois iria para a divisão de efeitos especiais do Universal Studios, onde trabalhou em Os Pássaros, o clássico de Hitchcock] e seu estúdio fizeram o Super-Homem mais IDEALIZADO e ICÔNICA possível: nesse contexto, traquinagens roteirísticas serviriam apenas para DILUIR o que é um super-herói em estado puro, ou um campeão da civilização em sua luta contra a barbárie.

Te parece pouco? Eles também aportaram elementos hoje indissociáveis do personagem ao seu cânone.

APORTO AS PROVAS:


Primeiro, da idealização. A mais evidente é o próprio Super-Homem, forte, nobre, de um gigantesco queixo-quadrado que está sempre apontando para cima -- obviamente influenciou #1: Alex Ross [+].

Estamos falando de um personagem tão idealizado que
ele ganha de um LASER a SOCOS.

Mas essa é apenas a mais evidente: todos os vilões são cientistas malucos ou bandidos desprovidos de valores – um contraponto evidente à dupla Super-Homem/Lois Lane, cuja coragem se pode confundir com evidente desapego pelo próprio bem estar FÍSICO.

Os vilões também são sistematicamente associados a brutalidade natural: em três episódios, são fenômenos da natureza [The Arctic Monster, um TIRANOSSAURO REX, Terror on the Midway, um gorila gigante, Volcano, você deve conseguir imaginar], noutros dois fenômenos naturais manipulados por cientistas malucos [Eletric Earthquake e The Magnetic Telescope]. Nesse último caso, e nos demais episódios, os demais vilões tem a sua base em lugares inóspitos, cavernosos e ermos – neles não há um traço de civilização, aparte de suas próprias [e frias] máquinas.

A única forma de se ser mais CIENTISTA MALUCO
do que isso é ter um urubu de estimação. Que é
exatamente o que esse personagem tem.

O habitat natural do Super-Homem, por outro lado, é uma Metrópolis perfeita: arranha-céus art deco [obviamente influenciou #2: Bruce Timm e Batman, The Animated Series], estilo que estava em seu auge [e que só foi conhecer a decadência após o final da Segunda Guerra], avenidas largas, limpas e despovoadas [eventualmente freqüentadas por um carro tão art deco quanto os prédios que o rodeiam], policiais idênticos e de movimentos sincronizados.

Ainda que não particularmente inteligentes.

Que essa contraposição é proposital se torna evidente já no primeiro episódio, onde o Super-Homem enfrenta um vilão de motivações obscuras [vingança, não se sabe do quê], chamado apenas de “Mad Scientist”, que, de sua base secreta, no topo de uma montanha rochosa, dispara um raio que atinge, diretamente, a base do arranha-céu do centro da cidade [como se atingisse diretamente a base da civilização], alternando os cortes da edição entre um [montanha rochosa] e outro [arranha-céu].

Quanto ao cânone, te digo duas coisas: nessa série, o Super-Homem voou [antes era apenas capaz de “saltar prédios com apenas um pulo”] e trocou de roupa em uma cabine telefônica pela primeira vez.

A série também é um desbunde técnico: não é a toa, diante dos VALORES ENVOLVIDOS. Estamos falando de uma animação do INÍCIO DA DÉCADA DE QUARENTA, cujo primeiro episódio custou 50 mil da época [quase 700 mil, ajustada a inflação], e que os demais saíram pela bagatela de 30 mil [pouco mais de 400.000]. Tudo isso comprou COR e o USO DE ROTOSCOPIA: algumas sequências são desenhos feitos em cima de frames oriundos de gravação com atores reais, em busca de naturalidade dos movimentos.

Perceba, por exemplo, a naturalidade de Lois Lane
PASSANDO FOGO NA BANDIDAGEM

Bom, chega de papo furado e vamos aos episódios. Assista, pelo menos, o primeiro [que não tem nome], The Mechanical Monsters [que é o segundo; obviamente influenciou #3: Capitão Sky e o Mundo de Amanhã], The Arctic Monster [quarto] e The Bulleteers [quinto: Metrópolis em estado de guerra!].

Não tem legendas, mas essas são perfeitamente dispensáveis: cada episódio deve ter umas três linhas de diálogo. É tudo MÚSICA e ESPETÁCULO.


2 comentários:

Darth Imperius disse...

Muito bom esse post, eu adoro esse desenho assim como adoro o Superman!

E jah que vc fez propaganda no Terra Zero do seu blog, nada mais justo que eu faça o mesmo no seu, certo? http://epicamentefalando2.blogspot.com.br/

Vicente [NFN] disse...

Ganhou até o meu acesso pela QUALIDADE TÉCNICA do raciocínio lógico.