NFN#98



ENCAIXADO #10. Paul Gravett [escritor de 1001 quadrinhos que você tem que ler antes de morrer] é mais um a resenhar Building Stories, de Chris Ware.

Quando um livro é mais parecido com um jogo? Quando é uma graphic novel que vem dentro de uma caixa do tamanho da de um jogo de tabuleiro e em 14 partes diferentes, de algumas de uma folha, passando por outra em sanfona para uma do tamanho de um tabloide  Em vez de espremer uma década de suas histórias publicadas em diversos formatos em um único volume padronizado, como ele fez com Jimmy Corrigan (2000), Ware pulveriza Building Stories em um objeto impresso multifacetado, acrescentando coisas inéditas para formar "algo que se possa segurar nas mãos" na nossa era digital, virtual. O quebra-cabeça começa imediatamente na tampa da caixa [...], com o jogo de palavras do título: o 'B' fica do lado de uma abelha [bee]; o "IL" se transforma em Illinois, estado onde está Chicago; o 'ding' se transforma no som de uma campainha, tudo são dicas do que nos espera do lado de dentro. Também é o caso da base da caixa, que oferece a planta do edifício, o cenário e eventual narrador dessas histórias, que tratam principalmente sobre a sua síndica idosa e os seus moradores -- um casal cujo casamento sem filhos está desmoronando e uma mulher solteira, que rapidamente se torna o principal foco de Ware.


COELHADA. Lucas Pimenta, no Quadro a Quadro, descreveu o atual estado editorial da Turma da Mônica -- você deve ter percebido que, nos últimos anos, houve uma virada, com o lançamento da Turma da Mônica Jovem [talvez o gibi mensal mais vendido das Américas], o MSP por 50 artistas [que virou uma trilogia e coloca os personagens da turma nas mãos de quadrinistas desvinculados do estilo Maurício de Souza] e a nova série Graphic MSP [que sistematiza a lógica de MSP por 50 artistas em uma seqüência de álbuns, cada um com um quadrinista e um personagem, a iniciar por Astronauta – Magnetar de Danilo Beyruth].

O responsável, conforme o artigo, é Sidney Gusman, editor da linha [e do Universo HQ].


BURNS #2. Santiago Garcia, do Mandorla, resenhou The Hive, o novo gibi de Charles Burns -- ou não: conforme as suas próprias palavras, "isto não é uma resenha -- o que seria inclusive imprudente com a obra ainda sendo desenvolvida -- e nem sequer um resumo do que eu achei nas páginas de The Hive. É apenas um desafogo necessário depois da excitação produzida pelo contato com uma grande obra". E a impressão é a seguinte:

Quando você termina de ler, você não consegue tirar da cabeça que os gibis românticos que aparecem constantemente nessa novela gráfica, gibis para meninas dos anos 50 e 60 que Burns invoca através do seu mimetismo assustador de John Romita, e que distorce através de duas ferramentas: primeira, os balões de texto, incompreensíveis para todo mundo além de por sua apaixonada leitora [...]; segunda, a leitura que faz essa leitora, na qual descobrimos que esses gibis para meninas são, na verdade, adultos, e que através de sua linguagem estereotipada abordam e explicam todos os segredos sujos da vida adulta.


EGOTRIP. Me linko a mim mesmo: falei no MBB, sobre o Creepy Archives – que a Devir lançou no Brasil faz pouco mais de um mês.

A capa é quase tão chamativa quanto a
qualidade do meu comentário [COF COF].
Quanto a edição, as da Dark Horse são bonitonas, capa-dura etc, mas algumas páginas sofrem de problemas de reprodução -- não sei se é mal escaneado ou a arte não fica tão bem no papel brilhoso. Prejudica mais os desenhistas que não usam tanto preto, como o próprio Joe Orlando e Reed Crandall. Talvez seja um mal da edição brasileira também. Por outro lado [e ao menos na versão da Dark Horse], não são cinco histórias, mas cinco revistas, o que dá umas 35 histórias e 250 páginas, mais ou menos. Elas estão reproduzidas de capa a capa [anúncios também, e eles tem o seu charme -- tem anúncio de poster de filme de monstro, máscara de fantasma, etc], com uma introdução meia boca por volume. As capas são coloridas, as histórias, preto e branco.

Não sei qual é a lógica que a Devir vai seguir, mas, de qualquer forma, se os volumes seguintes forem publicados, alguns detalhes devem ser observados: a revista tem uma história muito irregular. De início, valem a pena apenas as edições editadas por Archie Goodwin [as 16 primeiras, 3 primeiros volumes da Dark Horse]. Quando ele vai embora, os desenhistas de primeiro calibre vão junto e o grosso das edições passa a ser de republicações [a Dark Horse, como eu disse, tá reimprimindo tudo de capa a capa, mesmo repetindo as histórias]. 

Mais tarde [pela altura do vol. 10 americano], começa a chamada "Spanish Invasion":a Warren contratou um estúdio espanhol para desenhar as histórias [$$$], que tinha gente como Esteban Maroto, Luis Garcia e José Maria Beá -- todos tem um traço muito bonito, de diferentes estilos, mas é verdade que alguns não estão nem aí pra narrativa. As histórias passam a incorporar vários elementos de fantasia heroica também -- capa, espada, magos, etc.

Um bom lugar pra ver quem publicou o quê e onde é esse: http://enjolrasworld.com/Richard%20A...dex%20Only.htm


SALÓN DE GETXO. Abel Amutxategi, no seu próprio blogue, aproveitou que Eddie Campbell foi ao Salón de Cómic de Getxo e dele sacou uma entrevista.

Astiberri [editora espanhola] republicou faz pouco tempo The Birth Caul e Snakes and Ladders, ambas baseadas em apresentações performáticas de Alan Moore. O que foi que te atraiu na apresentação de Birth Caul quando você a viu pela primeira vez?

Na verdade é que eu não a vi no sentido estrito da palavra. O que aconteceu é que se publicou um CD um ano depois de realizada a apresentação e Alan colocou ele pra tocar casualmente em uma visita que eu fiz a ele em 1998. Achei que era uma evocação brilhante do que era a vida da classe trabalhadora da época em que Alan e eu crescemos na Grã-Bretanha. Existia um sentimento muito forte de experiência dividida em tudo aquilo, e esse trabalho capturava o espírito de uma época e de um lucar concreto. De qualquer forma, não acredito que esse fato dificulte a leitura de "The Birth Caul" para aqueles que não fazem parte daquele tempo ou daquele lugar. A melhor parte de uma leitura é que se tem a oportunidade de viajar mentalmente para qualquer lugar e comparar como é a vida ali com a que se tem na realidade. O trabalho de um escritor é o de encontrar que coisas são universais e colocá-las sobre o papel.

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