NFN#107: NÃO FAZER SENTIDO COMO MÉTODO



DESPEDIDAS. Oliver Sala, do AV Club, resenhou Captain America #19, FF #23, e Journey Into Mystery #645 – últimas edições dessas séries, já que a hora de Marvel NOW! é agora [TUN-DUN-TSSSSS].

A palavra-chave é META: são histórias sobre as histórias, como bem exemplifica a primeira:

Dos três escritores, Ed Brubaker é o que mais tempo está escrevendo a sua série, produzindo mais de 100 edições de Captain America desde que assumiu o título em 2004. Captain America também é o mais antigo dos três títulos, e esta edição faz uma homenagem à rica história do personagem e as mudanças pelas quais ele passou na medida em que o seu país era transformado. Captain America #19 é basicamente um monólogo de Steve Rogers, visitando William Burnside -- Capitão América durante os anos 50 -- no hospital, onde está se recuperando por ter sido atropelado por um caminhão. Steve se lembra dos medos de sua infância e como eles fizeram com que ele se alistasse no exército antes mesmo dos EUA entrarem na guerra, e então puxa uma edição de Captain American Comics #1 que ele encontrou no sótão de Burnside, a famosa edição com o Capitão dando um soco no queixo de Hitler na capa. Steve diz para Burnside como ele e Bucky não gostavam da hq no início [...]. A história fica meta de verdade quando Steve começa a falar sobre a controvérsia que o gibi original causou, contando a Burnside sobre as ameaças de morte que Joe Simon e Jack Kirby receberam de nazistas americanos que não estavam felizes em ver o seu líder golpeado na capa de um gibi. Então Pearl Harbor aconteceu e Steve se deu conta de que os gibis e os posters e os vídeos eram mais do que propaganda; estavam criando um símbolo de esperança e força que duraria mais do que o homem dentro do uniforme.


TARADOS E SUAS TARAS. Noah Berlatsky, do The Hooded Utilitarian, se preocupou com o uniforme da MulherMaravilha, graças ao episódio piloto da série da NBC que não saiu do chão -- um símbolo, conforme Berlatsky, de tudo que há de errado nas interpretações atuais da roupa da heroína.

A verdade é que ela também parece bem preocupada.

O uniforme da Mulher Maravilha foi pensado para ser sexy. Mas foi pensado poara ser sexy de uma forma específica, e para taras específicas. Essas taras não encaixam particularmente bem nos atuais gostos e interesses do mainstream. Os esforços para fazer para fazer a MM atender a esses interesses e gostos do mainstream costumam ser, no melhor dos casos, auto-paródicos. Assim, se o uniforme da NBC parece ridículo (e ele parece) é porque eles estão tentando encaixar uma fantasia da Playboy em um uniforme que não foi pensado para suportá-la.


PIADISTA. Santiago Garcia, do Mandorla, escreveu mais um artigo para a sua série sobre os vilões do Batman -- você já viu um aqui, sobre o Duas-Caras. Dessa vez, no caso, foi sobre O Vilão do Batman: o Coringa.

Depois de confrontar as versões de Bob Kane e Jerry Robinson sobre a criação do personagem, Segura ESPECULOU sobre a sua versão definitiva – apontando para a de Steve Englehart, na história The Laughing Fish [Detective Comics #475-476], pelos seguintes FATOS E FUNDAMENTOS:

No entanto, se fosse necessário escolher entre apenas uma das centenas de histórias protagonizadas por esse assassino em série que nunca perde o sorriso, sem dúvidas teríamos que escolher "The Laughing Fish!"/ "Sign of the Joker", o seu memorável retrato pelas mãos de Steve Englehart e Marshall Rogers (Detective Comics 475-476, 1978). Nessa história, se vai além de todas as outras ao mostrar o Coringa não como um maníaco homicida que gosta de se vestir de uma forma estranha, mas como um gênio pervertido que segue a sua própria lógica surrealista. Ademais, contém um plano próprio do Coringa, que somente poderia ter sido criado por ele e que o define por completo: fazer com que os peixes do mar fiquem com o seu sorriso e tentar patenteá-los em seu nome, de forma que pudesse cobrar uma porcentagem sobre cada venda de peixe. É um plano incrivelmente absurdo, e diante de seu fracasso não tem outra reação que não vingar-se de um simples funcionário. Esse Coringa não é apenas um assassino implacável -- e ele é isso, e mais do que nunca --, mas está louco de uma forma muito mais profunda que em todas as suas outras encarnações.

Nas palavras do próprio Englehart, comparando a sua versão do personagem com a de Dennis O'Neil:

Denny pegou o Coringa que tinha se tornado tradicional, o piadista, e fez ele real, mas eu tentei fazer um Coringa surrealista. O meu estava demente, o de Denny, não. O Coringa de Denny matava um monte de gente, e ria um monte, inclusive em um determinado momento matava um de seus próprios homens, mas fazia isso como que tentando ser um piadista, deliberadamente, por dizer de alguma forma. Ou seja, em vez de ser um palhaço, fingia ser um palhaço, mas nos mostrava que na verdade levava as coisas a sério. O meu Coringa não era especialmente sério. Ou seja, matava pessoas, mas era um lunático. É a diferença entre realismo e surrealismo. O Coringa de Denny não conversava sobre peixes.


LÓGICA: NÃO TRABALHAMOS. Voltamos ao The Hooded Utilitarian, onde RM Rhodes escreveu um artigo sobre a Heavy Metal -- a versão americana da revista Métal Hurlant. O resumo: VÁRIAS RESTRIÇÕES.

Para me impedir de gritar por algumas das mais fracas histórias, foi importante me lembrar de forma continuam que a Heavy Metal é um claro produto do seu tempo e tinha um público alvo muito específico. O leitor ideal colocaria Pink Floyd para tocar, ajustaria os fones de ouvido, inalaria alguma coisa saída de um bong e se assentaria sobre um pufe e contemplaria cada edição por horas. Referências a drogas abundam. Um dos primeiros slogans veio de uma carta de um leitor, "Heavy Metal é melhor do que ficar chapado. Quase". Em 1979, o papel de seda Job se tornou um anunciante regular.

[...] Se é isso que te interessa, então essa revista é para você. Mas se você é um desses heréticos, como eu, que gostam de histórias de verdade com a sua arte seqüencial, são muitos erros e acertos, com muitos mais erros do que acertos. Um dos principais problemas dos gibis de arte contemporâneos (que, supostamente, tiram as suas referências visuais da Heavy Metal ou do que os seus criadores representam, incluindo sexo e drogas) é que a arte é atraente e interessante, mas quase não existe narrativa contínua de uma página para outra ou de um quadrinho para outro. Os artistas se divertem desenhando merdas interessantes, o que é ok. Mas um gibi que vale a pena se ver uma vez e que tem pouco ou nenhum valor como releitura é questionável na melhor das hipóteses.

Heavy Metal, o filme?

Como era de se esperar, pipocaram comentários com restrições ao artigo de Rhodes -- a começar por esse, de Mathias Wievel, do Metabunker.

Bom, você certamente não está errado no que se refere à existência de muitos roteiros e narrativas ruins nos quadrinhos (assim como a muitos desenhos ruins). Mas o meu problema com o tipo de crítica que separa "arte" e "história/escrita" é que ela não vê aspectos essenciais dos quadrinhos como um meio visual. A "escrita" também é a imagem e a sua estrutura, e existem gibis que não -- e tal não deveria ser esperado deles -- colocam tanta enfase em uma narrativa direta quanto outros, como os trabalhos de Moebius e Druillet nos anos setenta.

[...] Espero que você não use o mesmo critério para a literatura, onde "vinhetas" (poemas?) são claramente aceitáveis, como são as obras que evitam narrativas ou tramas lineares/consistentes -- a maior parte da literatura modernista, por exemplo.

Domingos Isabelinho, do Crib Sheet, deu prosseguimento à discussão:

Sim, nos quadrinhos, os desenhos também são a história. E sim, Moebius e Druillet e Corben eram talentosos. Mas que as histórias sejam ilegíveis não significa que os desenhos não sejam tão bons, no final das contas? Eu, por exemplo, os vejo como os artistas pompier dos quadrinhos.

[...] A "Garagem Hermética" é uma exceção, no entanto. Claramente, era uma experiência: Moebius disse isso, estou parafraseando, a história não precisa ser como uma casa, com uma porta e janelas para se olhar às árvores e uma chaminé, etc... Ele queria fazer uma história como um elefante, como um campo de trigo ou como um fósforo. [...] alguém poderia dizer, como Rhodes fez, que, ao tentar subverter a narrativa tradicional, ele simplesmente a destruiu. O que não é um problema para mim, só que em vez de um elefante, ele criou uma ameba.

Um comentário:

Anônimo disse...

concordo. ridículo esse uniforme da mm....