NFN#105



ARANHA DAS TREVAS. No Por todo el colodrillo, foi resenhada a edição espanhola do The Complete Frank Miller Spider-Man -- o título é auto-explicativo.

Em primeiro lugar [na ordem cronológica de publicação] estariam os números de Miller para a série The Spectacular Spider-Man, que aparecem no final desta edição. Neles, Miller consegue primeiro desenhar o seu personagem favorito de infância e ainda se aproximar do Demolidor, o super-herói com o qual conseguiria a fama depois. Nem o roteiro, nem o desenho, são alguma coisa excepcional, mas já se percebe algumas das inquietações de Miller. A sua forma de compor as cenas de ação, o controle do ritmo através do tamanho dos quadrinhos, grandes e pequenos, os objetos que seguem trajetórias que continuam de um quadrinho para o outro [...], etc. Miller insiste página depois de página em uma composição circular dos quadrinhos e das páginas para intensificar o funcionamento do radar do Demolidor. E um detalhe: as teias do Homem-Aranha não são as popularizadas por Romita, mas as originais de Ditko.


ENCAIXADO #13. Chris Ware e o seu Building Stories apareceram em rodada dupla no Los Angeles Review of Books. Primeiro, Ware foi entrevistado por Casey Burchby; depois, a hq foi resenhada por Rick Moody.

Da entrevista, te dou o seguinte:

CB: Com um trabalho tão detalhado e gráfico quanto o seu, me pergunto como você organiza a história antes de começar a trabalhar na página. Você faz um rascunho em prosa? Você faz um rascunho da página primeiro? Quais são os primeiros passos do processo?

CW: Não faço rascunho ou roteiro; os desenhos e as histórias se formam sozinhos a partir das imagens e do que eles me sugerem quando os desenho, junto com as memórias que eles desenterram. Não existe nenhuma forma pela qual eu possa planejar essas coisas; as conexões e coincidências que acontecem tem que acontecer na página. Percebi que existe algum tipo de nervosismo por parte do leitor sobre quando exatamente que o escritor ou artista começa a improvisar, como se essa informação tivesse que ser usada para averiguar se a história é crível ou não, mas me parece que escrever um esboço ou um roteiro é improvisar tanto quanto desenhar diretamente a página, e essa última abordagem também permite à composição e a escala estruturar e formar a história -- o que apenas tomar notas ou fazer rascunhos não possibilita. Eu apago. Também tenho idéias não específicas, temas, noções -- como você quiser chamá-las, mas acho que roteiros chegam perigosamente perto de transformar o processo em palavras ilustradas, o que negligencia o poder inerente do que os quadrinhos -- essencialmente, uma chave para a memória visual através da estrutura da linguagem -- podem ser.

Já da resenha:

Building Stories, dessa forma, é uma afirmação clara e emocionante sobre o que um livro é agora, e um livro agora é um objeto físico que você pode cuidar, segurar perto, e ruminar sobre, um objeto físico que você pode abordar de formas completamente diferentes, dependendo da circunstância, e que dá a maior quantidade de poder interpretativo para você, leitor, em vez de te transformar em um beneficiário passivo de alguma narrativa que te atropela. [...] Essa hq é uma obra prima em parte porque é um grande "vai se f@d#r" para o e-book, e para aqueles digerati que dizem "eu fico irritado quando tenho que ler um livro físico". Ah, vai se f#d@r, cara, você e a sua avaliação, tenta pegar essa caixa, que tem o tamanho de um atlas (com tudo que isso traz implícito, porque é um atlas de um certo tipo de vida urbana, no caso, vida em apartamento, e das formas em que as pessoas se reúnem, ainda que temporariamente, em apartamentos, até que elas se mudam e são separadas, mas sempre com um rastro do seu endereço antigo nelas, mesmo depois), e faz com que o teu Kindle pareça tão acolhedor quanto um estimulador-elétrico.


BARRO. Já J. Caleb Mozzocco, no Every Day is Like Wednesday, resenhou Mudman, o novo gibi de Paul Grist [lembra dele?].

Arte, diálogos, colorização, letras -- tudo nessa hq é absolutamente perfeito. [...] Criar novos super-heróis não é física quântica, e mesmo assim é relativamente raro nós vermos isso acontecer em qualquer editora. Mudman é de alguma forma único no fato de ser um novo personagem que não é uma cópia, uma versão análoga do tipo que nós vemos frequentemente em editoras que não são As Duas Grandes. Ele lembra o Ultimate Spider-Man, por conta de ser um adolescente de quinze anos com super-poderes, e um pouco da versão de Jaime Reyes do Blue Beetle, mas ele não é uma cópia de nenhum dos dois, ou pretende ser um substituto para eles.


MINIMALISTA #2. De volta à SPX, a convenção indie que aconteceu na metade de setembro. O relato dessa vez é de Hannah Means-Shannon, do Trip City.

Isso sim que é entrar em uma terra estranha. Para mim, parecia um festival religioso a pleno vapor. Era claramente o mundo atrás da cortina que eu não tinha certeza que existisse. Aqui estava ele, completamente normal e fazendo o que os meus amigos estavam fazendo, trabalhando de dia e ficando acordados a noite toda criando, grampeando, dobrando, cortando, arrumando. Essas eram as pessoas que sujavam as suas mãos seguindo impulso fanático que parecia um fim em si mesmo. E, na SPX, principalmente, esse esforço era bem visto. Foi um ano, de forma chocante, com todas as estrelas dos quadrinhos independentes na SPX, também, com alguns dos maiores nomes dos quadrinhos alternativos assinando, encorajando, falando, ou apenas se misturando, de Daniel Clowes a Chris Ware, Adrian Tomine, e os irmãos Hernandez. Ouvi muito do que eles tinham pra dizer nas palestras e escutar essas pessoas falando sobre as suas vidas e o seu trabalho desmistificou os seus quadrinhos para mim de formas interessantes. Eles eram em diversos aspectos exatamente como as pessoas que estavam dobrando e grampeando, mas eles tinham se tornado particularmente lendários. Como eles conseguiram isso? Anos e anos de comprometimento absoluto com o que estavam produzindo. Formando o seu canto particular do mundo, para chamá-lo de seu. Fazendo com que as suas vozes fossem distintas, sendo fiéis a si mesmo e à sua visão particular. Isso é o que significava ser heróico no mundo dos quadrinhos independentes, e esses eram os heróis do gênero.

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