MEMÓRIA #9: CREDIBILIDADE ENTRE OS GURI DE APARTAMENTO


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Em algum momento do início dos anos 2000, os quadrinhos alternativos viraram o fio. O esperado relevo geracional a Art Spiegelman na frente de batalha "quadrinistas que você pode ler para passar de descolado" chegou: se tu precisa de uma prova, no outro dia eu pude linkar aqui uma entrevista de Jaime Hernandez, Chris Ware, Daniel Clowes e Gilbert Hernandez na revista Rolling Stone.

Talvez seja a influência no mundo dos quadrinhos da moda nerdista: o que foi forte o suficiente para transformar O Senhor dos Anéis em uma leitura obrigatória, não conseguiu suportar os quadrinhos de super-heróis [ênfase no "os quadrinhos"] e fez com que os alternativos deles se descolassem no que à credibilidade cool se refere.

Ou talvez seja o resultado de que uma leva de guris de apartamento que cresceram lendo quadrinhos de super-heróis e, adultos, se transformaram em escritores "sérios”, desses que publicam na New Yorker [Michael Chabon, Junot Diaz, Jonathan Lethem], levando o seu approach nerd a novos meios – com sensibilidades próprias.

O MEMÓRIA de hoje é SOBRE ISSO e UMA PROVA DISSO.

Em 26/11/2000, Dave Eggers resenhou no New York Times quatro hqs de uma tacada só: The! Greatest! Of! Marlys!, de Lynda Barry, Julius Knipl, Real Estate Photographer, de Ben Katchor, David Boring, de Daniel Clowes e Jimmy Corrigan, The Smartest Kid On Earth, de Chris Ware.

Você não precisa ir além do título e do lead para ver uma versão resumida em uma linha e meia dos meus dois primeiros parágrafos: “Após Wham! Pow! Shazam! Os quadrinhos superam os super-heróis e entram no mundo daliteratura”.

Quanto ao terceiro, Eggers, escritor de uma pá de livros [Zeitoun, Os Monstros, Uma Comovente Obra de Espantoso Talento] e fundador da editora McSweeney’s, que já publicou Michael Chabon E Jonathan Lethem, é exatamente o tipo de pessoa à qual nele eu me refiro: há quase dez anos como editor da antologia anual The Best American Nonrequired Reading, já colocou para introduzi-la Matt Groening e Marjane Satrapi, para fazer a sua capa Daniel Clowes, Adrian Tomine, Tony Millionaire e Art Spiegelman, e para recheá-la Neil Gaiman, a própria Lynda Barry e, de novo Adrian Tomine.

No artigo, e como não é de se estranhar diante de sua FOLHA CORRIDA, Eggers gostou do que leu. Sobre Clowes e David Boring, disse:

Do grupo, o trabalho de Daniel Clowes é o que mais lembra, no seu layout direto e em seus enredos noir, o que se pode esperar de uma história em quadrinhos -- até mesmo uma orientada para adultos. O que diferencia Clowes é a perfeita reciprocidade entre seus desenhos firmemente controlados, a raiva (não vamos dizer "existencial") vazia fervendo abaixo deles, e, acima, um anseio estranhamento simples por coisas simples e sólidas, como, digamos, amor.

[Os personagens de Clowes] se movem de forma rígida e encaram às coisas sem expressão, ou meio-lobotomizados ou esmagados pela sua realidade. E Boring é o vasilhame mais vazio de Clowes até agora, o que faz com que seus momentos de clareza emocional – como no momento em que o enredo Lyncheano dá lugar a um  simples desejo por uma paixão infantil -- sejam ainda mais poderosos.

Já sobre Jimmy Corrigan e Chris Ware [única das quarto hqs resenhadas publicadas no Brasil, pela Companhia das Letras – e não foi fácil]:

Ware desenvolveu um séquito devotado aos seus desenhos excruciantemente precisos e delicados e, tão importante quanto, ao seu design francamente impressionante, que nocauteia o leitor antes mesmo de que esse abra o livro: a sua capa de fato se desdobra em um pôster de dois lados grande que ilumina a linhagem dos personagens da história e inclui uma descrição do herói da hq, Jimmy, no formato de um anúncio pessoal [...].

Ware é o mais versátil e inventivo artista que o meio já conheceu, e, ainda que não seja crível que alguém tão cedo conte uma história tão potente como fez Spiegelman em "Maus", no que se refere à pura virtuosidade estética o livro de Ware é o maior feito dos quadrinhos de todos os tempos.

Se Eggers não te convenceu a ler David Boring e Jimmy Corringan, espero que eu tenha te convencido a ler as quatro resenhas. Pretensão: essa é a marca do nerd moderno.

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